14/08/2025
A BASE LIBERTÁRIA
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Por: Ricardo Coelho
A imagem mostra a primeira página de uma das “Três Conferências feitas aos operários do vale de Saint-Imier”, proferidas em maio de 1871 — um marco no pensamento anarquista do século XIX.
Abaixo, transcrevo o trecho visível da imagem:
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TRÊS CONFERÊNCIAS FEITAS AOS OPERÁRIOS do vale de Saint-Imier, maio de 1871
I
Companheiros, desde a grande Revolução de 1789-1793, nenhum dos eventos que a sucederam, na Europa, teve a importância e a grandeza daqueles que acontecem diante de nossos olhos, e dos quais Paris é hoje o teatro.
Dois fatos históricos, duas revoluções memoráveis haviam constituído o que denominamos mundo moderno, o mundo da civilização burguesa. Uma, conhecida sob o nome de Reforma, no começo do século XVI, havia destruído a pedra angular do edifício feudal, a onipotência da Igreja; ao destruir essa força, ela preparou a ruína do poder independente e quase absoluto dos senhores feudais, que, abençoados e protegidos pela Igreja, como os reis, e frequentemente mesmo contra os reis, faziam proceder seus direitos diretamente da graça divina; e por isso mesmo ela proporcionou um novo desenvolvimento à emancipação da classe burguesa, lentamente preparada, por sua vez, durante os dois séculos que haviam precedido essa revolução religiosa, pelo desenvolvimento sucessivo das liberdades comunais, e pelo desenvolvimento do comércio e da indústria que…
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Esse texto é um excelente ponto de partida para uma análise crítica libertária, pois ele mostra como o autor (Bakunin, considerando o contexto e o local) enxerga a Reforma Protestante e a Revolução Francesa como marcos históricos que permitiram a ascensão da classe burguesa, desmantelando o poder eclesiástico e feudal. Contudo, não com o fim da dominação, mas com sua substituição por uma nova forma: a dominação burguesa, capitalista, moderna — crítica central do pensamento anarquista.
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A CIVILIZAÇÃO BURGUESA E A DOMINAÇÃO MODERNA: UMA LEITURA ANARQUISTA DAS TRÊS CONFERÊNCIAS DE SAINT-IMIER
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Resumo
Este trabalho tem como objetivo analisar a crítica anarquista à civilização burguesa e à modernidade capitalista, a partir da obra Três Conferências feitas aos operários do vale de Saint-Imier (1871), de Mikhail Bakunin. Através de uma abordagem histórico-política, examinamos como a Reforma protestante e a Revolução Francesa não significaram o fim da dominação, mas a transição do poder teocrático-feudal para a dominação burguesa. Esta nova ordem conservou os fundamentos de opressão por meio do Estado, da propriedade privada e da exploração do trabalho. Baseando-nos em autores anarquistas clássicos e contemporâneos, buscamos mostrar que o discurso da civilização moderna esconde a violência estrutural do capitalismo e legitima a desigualdade através do mito do progresso. O estudo propõe uma leitura crítica e libertária da história moderna, desmascarando as ilusões da democracia burguesa e do desenvolvimento capitalista.
Palavras-chave: Bakunin, anarquismo, burguesia, Reforma, Revolução Francesa, dominação, modernidade, Estado.
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1. Introdução
A história da modernidade europeia é frequentemente celebrada como um avanço da liberdade e da razão. A Reforma Protestante e a Revolução Francesa são vistas como marcos civilizatórios que romperam com o obscurantismo feudal e inauguraram o mundo moderno. No entanto, para os pensadores anarquistas do século XIX, especialmente Mikhail Bakunin, essa narrativa esconde uma profunda contradição: a liberdade proclamada pela burguesia resultou numa nova forma de dominação.
Nas Três Conferências feitas aos operários do vale de Saint-Imier, Bakunin realiza uma crítica contundente ao modo como a civilização burguesa se constituiu sobre as ruínas da Igreja e da nobreza, instaurando um novo regime de poder baseado na propriedade privada, na exploração do trabalho e na centralização estatal. Este trabalho busca retomar essa crítica como ponto de partida para problematizar a genealogia da modernidade capitalista sob uma perspectiva libertária, denunciando seus mecanismos de alienação e opressão.
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2. A Reforma e a Ruína da Teocracia Feudal
Bakunin inicia sua análise histórica reconhecendo dois grandes acontecimentos que marcaram a transição para a modernidade: a Reforma religiosa do século XVI e a Revolução Francesa no final do século XVIII. A Reforma, ao destruir a “onipotência da Igreja”, minou o fundamento espiritual do poder feudal. Os senhores feudais, legitimados pela “graça divina”, viram-se gradualmente desprovidos de sua autoridade.
Contudo, o que emergiu desse colapso não foi a emancipação popular, mas sim o fortalecimento de uma nova classe social: a burguesia. Ao promover a separação entre fé e política, a Reforma abriu espaço para a ascensão de um poder secular e econômico, centrado no comércio, na indústria e na propriedade privada. O individualismo protestante, exaltado por autores como Max Weber (1905), não libertou os trabalhadores, mas os inseriu na lógica disciplinar do capital.
Segundo Bakunin, a burguesia utilizou as liberdades comunais e o desenvolvimento econômico como trampolim para sua própria emancipação, ao mesmo tempo em que subordinava as massas ao novo regime de exploração.
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3. A Revolução Francesa e a Consolidação da Dominação Burguesa
O segundo evento analisado é a Revolução Francesa. Para a historiografia liberal, ela simboliza a vitória da liberdade e da igualdade. No entanto, sob a lente anarquista, esse evento não passou de uma troca de senhores. O feudalismo foi abolido, mas no lugar dos nobres e dos clérigos, instaurou-se o domínio da burguesia, amparado por um Estado centralizado e militarizado.
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão excluía os trabalhadores, as mulheres e os povos colonizados. A “igualdade perante a lei” mascarava a desigualdade real de condições materiais. A propriedade privada tornou-se um direito sagrado, consolidando a exclusão e a miséria das massas.
Bakunin denuncia o caráter mistificador da revolução burguesa: “A burguesia proclamou a liberdade apenas para si mesma”, enquanto mantinha o povo na servidão assalariada. A centralização estatal, em vez de garantir a autonomia dos indivíduos, reforçou a alienação do povo através da burocracia, da polícia e do exército.
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4. A Civilização Burguesa como Nova Forma de Escravidão
A civilização moderna, tal como constituída após essas revoluções, é analisada por Bakunin como uma nova forma de escravidão. A dominação religiosa foi substituída pela idolatria do capital. A liberdade formal serviu como fachada para a exploração real. O Estado burguês, longe de ser neutro, é o instrumento da classe dominante para preservar seus privilégios.
A industrialização, longe de emancipar os trabalhadores, intensificou sua submissão. As novas formas de produção exigiam disciplina, obediência, produtividade — valores herdados do velho ascetismo cristão, agora aplicados à lógica do mercado. A alienação do trabalho se tornou a marca da sociedade moderna.
Essa crítica foi aprofundada por outros pensadores anarquistas. Emma Goldman (1910) denunciava a moral burguesa como instrumento de controle social. Kropotkin (1902) apontava que a cooperação, não a competição, era a base da vida social. Ivan Illich (1971) revelava como as instituições modernas reproduziam a desigualdade sob o disfarce da eficiência.
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5. A Alternativa Anarquista: Autogestão, Mutualismo e Revolução Social
Contra essa ordem opressora, os anarquistas propõem a destruição do Estado, a abolição da propriedade privada e a autogestão social baseada na livre associação. A verdadeira revolução não consiste em substituir um governo por outro, mas em abolir o próprio princípio da autoridade.
Bakunin defende a organização de baixo para cima, através de federações de trabalhadores, comunas livres e cooperativas autônomas. A liberdade só pode existir quando nenhum homem tem poder sobre outro, e a sociedade é regida pela solidariedade e pela responsabilidade coletiva.
A crítica à civilização burguesa, portanto, não é apenas destrutiva — é também construtiva. Ela aponta para uma nova forma de vida baseada na igualdade real, na ajuda mútua, na descentralização e na ação direta.
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Conclusão
A partir das conferências de Saint-Imier, torna-se evidente que a modernidade, longe de representar um avanço emancipatório, consolidou uma nova forma de dominação — burguesa, capitalista e estatal. A crítica anarquista de Bakunin revela que a liberdade proclamada pela civilização moderna é ilusória, pois está enraizada na exploração e na desigualdade.
Este trabalho propôs uma leitura histórica e crítica do surgimento da civilização burguesa, desmistificando os discursos de progresso e racionalidade que legitimam o poder moderno. Em contraponto, reafirmamos a necessidade de uma transformação radical da sociedade — não pela via das reformas institucionais, mas pela revolução social anarquista, construída pela base, pela solidariedade e pela autogestão.
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Referências Bibliográficas
• BAKUNIN, Mikhail. Três Conferências feitas aos operários do vale de Saint-Imier. 1871.
• GOLDMAN, Emma. Anarchism and Other Essays. New York: Mother Earth, 1910.
• KROPOTKIN, Piotr. Mutual Aid: A Factor of Evolution. London: Heinemann, 1902.
• ILLOUZ, Eva. Cold Intimacies: The Making of Emotional Capitalism. Polity Press, 2007.
• ILITCH, Ivan. Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1971.
• PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a propriedade?. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
• CHOMSKY, Noam. Sobre o Anarquismo. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
• GORDON, Uri. Anarchy Alive! Anti-Authoritarian Politics from Practice to Theory. London: Pluto Press, 2008.
• LÖWY, Michael. A teoria da revolução no jovem Marx. São Paulo: Cortez, 1991.
• WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.