18/04/2024
Hoje abro o Facebook e me deparo com texto
OS FILHOS QUE AQUI PASSARAM:
Ao ler o texto, fico estarrecido. É claro que é generalizado, mas o olhar vitimista arrogante disfarçado de justificativa pela falta de vontade de consciência humana me incomoda profundamente.
Cada ser humano carrega em sua essência suas memórias, sua natureza e seu modo de compreensão da vida, o que o torna um universo complexo e único. A união de vários seres compõe a pluralidade de um grupo. Com certeza, nem todos se adequam às normas, bons costumes ou doutrina de uma casa religiosa. Inclusive, para alguns, é bem desafiador se adaptar, mudar suas crenças e formas de percepção. Mas vamos lá, o sacerdote de hoje é o iniciado de ontem, ele é o responsável pela doutrina e andamento da sua casa. De que modo eu passo doutrina de princípios e valores de vida? De que modo eu passo doutrina moral religiosa?
Bom, vamos lá. Filhos de santo são sagrados, são filhos da casa, são seres humanos que nossa casa sagrada e nosso Orixa permitiu que participasse da nossa casa. E só aí já existe uma grande questão: o que esse filho veio aprender e, principalmente, o que esse filho veio ensinar?
Sim, aprendemos com filhos também. Não o fundamento, mas o comportamento, alinhamento da casa, e etc. Às vezes, o Orixa pode permitir que a "laranja podre" participe da sua casa para que você consiga organizar o que até então nem percebia. Na casa sagrada, encontramos todos os tipos de pessoas: as eternas que vêm para ficar e honrar a família, as passageiras que vêm apenas para mostrar algo e sair, as que passam um tempo, completam seu ciclo espiritual e depois trocam de axé. E qual delas é o melhor filho de santo?
Na real, todos são de extrema importância para a casa e para a evolução do sacerdote como líder. Dificilmente alguém evolui com elogios; são as críticas que nos motivam a ser melhores.
Um dos primeiros pilares de nossa religião é a hierarquia, mas estar no topo da hierarquia não nos faz melhor que nossos filhos. Ao contrário, somos seres humanos iguais. A hierarquia ensina que ser sacerdote traz mais deveres e responsabilidades, e por isso pode te trazer mais direitos, mas jamais ser mais que alguém. E justamente aqui entra uma pergunta: como você ensina hierarquia? Humildade é diferente de humilhação.
Sou eu o "santo"? Não, estou longe. Diversos filhos já saíram da minha casa de formas que me deixaram triste ou bravo. Já fui alvo de calúnias e tudo mais, como muitos sacerdotes. É bem desafiador "tentar" compreender alguns. Mesmo com tanta doutrina que passo, às vezes meu ego grita. E aí eu lembro, filhos de santo são sagrados, são filhos da casa. Olho o que vieram me ensinar, aprendo e viro a página, pois não são meus filhos carnais, são filhos dos Orixás que a espiritualidade colocou em minha casa religiosa. E com certeza, por um propósito. Aprendo com isso, e isso me basta. Acredito em Orixa e na espiritualidade acima de tudo e antes de acreditar no ser humano.
Inclusive, deixo aqui registrado, a todos filhos que saíram da minha casa, a maioria sinto carinho. Alguns seguimos a amizade, outros eu, como ser humano, preferia nunca mais saber que existem. Já eu, sacerdote, sou grato por todos vocês que passaram, e podem ter certeza que aprendi com cada um a ser um sacerdote melhor e diferente, a liderar uma casa melhor para o sagrado, para os que estão e os que virão. Gratidão a todos.
Além de que, podemos não pegar um filho de santo...