13/03/2026
Diário de um Costureiro
Nunca foi por dinheiro…
até o dia em que precisou ser.
No começo era amor.
Adrenalina.
Satisfação.
Reconhecimento.
Depois virou cansaço.
Noites sem dormir.
Sem comer direito.
Sem folga.
Sem férias.
Sem descanso.
Apenas trabalho.
É difícil lidar com religiosos que se acham os próprios santos…
ou até as próprias entidades.
É difícil lidar com ego, vaidade e ingratidão de quem acha que costurar é fácil.
Antes de um tecido virar roupa existe:
planejamento, ideias, projeto, cálculo, tentativa, erro, esforço físico e mental.
Um simples “ajuste” muitas vezes significa desmanchar tudo e começar de novo.
Mas isso ninguém vê.
Assim como ninguém pergunta:
“Costureiro, você está bem?”
Se não perguntam nem para pai ou mãe de santo…
por que perguntariam para quem faz as roupas do axé?
O mais triste é outra coisa.
O próprio povo do axé não valoriza o trabalho local.
Vai longe fazer roupa que o costureiro da própria rua poderia fazer.
E não é sobre preço.
É sobre valor.
Postamos uma roupa linda…
e no outro dia alguém roubou a foto para outro copiar.
A cópia não precisava ser pirata.
Era só procurar o autor.
Na costura não existe concorrência.
Existe espaço para todos.
Nem o costureiro mais famoso conseguiria atender tanta gente.
Mas muitos caem no conto do ego:
Estilista.
Designer.
Alta costura.
Carnavalesco.
Assim como existem reis e rainhas de terreiro…
sem coroa…
e às vezes sem obrigação.
Humildade abre portas.
Exu já ensinava isso.
Mas humildade não dá likes.
Não gera engajamento.
Por isso saiu de moda.
Falando em moda…
Tem a moda do copia e cola.
Do lord europeu.
Da porta-estandarte.
Do rei de copas.
Das princesas da Disney.
Da Bela e a Fera.
Das debutantes de 50 anos.
Pelo menos uma coisa é verdade:
o mercado dos axós está aquecido.
Só falta profissionalização.
Porque hoje parece que todo mundo costura roupa de religião.
E vale lembrar:
até hoje não existe no Sul um curso específico para isso.
E eu tenho boa memória
para lembrar quem já passou pelas minhas aulas.
Esse não é um texto de revolta.
É apenas um registro.
Um diário público de quem vive isso todos os dias.
Eu não concordo com tudo que pensam sobre costureiros.
Mas também não discordo de tudo.
No fim das contas…
eu apenas resisto.
Falar de tradição é fácil. Difícil é valorizar quem constrói ela todos os dias.
Anderson de Agelú