11/08/2025
Quando eu era menino
Quando eu era pequeno, lá pelos anos 1960, no sertão de Minas Gerais, mais especif**amente, em Almenara, vale do Jequitinhonha e Vitória da Conquista, sertão da Bahia, não tinha nenhuma preocupação existencialista, pois criança, para ser feliz, precisava apenas de um pai, uma mãe, comida na mesa e uma cama para dormir e sonhar. E sonhar era uma forma de viver enquanto dormia, mania que carrego comigo a vida inteira.
O que era a vida para mim? Era viver o presente, o agora. E esse agora era jogar bola, brincar de carrinho, de fazer casinhas de tijolos construídos com caixa de fósforo, desenhar cenas de faroeste e brincar de pega-pega à noite com as crianças da rua. Que socialização!
Teve um detalhe na minha infância que fez toda diferença. Minha mãe era evangélica, crente, e me levava aos cultos todos os dias. Não gostava muito de ir mais me acostumei e até gostava de cantar os hinos e ouvir os sermões bíblicos proferidos pelos pastores que acreditavam serem enviados de Deus. Como aprendi naqueles cultos!
Aprendi que tudo era pecado. Que Deus era amor, que Ele, tão amoroso, podia enviar seus filhos desobedientes para o inferno, para arderem nas chamas eternamente. Que pai amoroso! Com o medo do inferno e almejando o céu vivia eu assim minha infância. Até que um dia, qual Lúcifer, me rebelei. Cometi um pecado horrendo para os olhos divinos: fui ao cinema, escondido. Assisti, numa sessão de matinée, ao filme Maciste na terra dos gigantes. Pronto, aquilo mudou minha vida. Estava eu na casa dos doze anos e, portanto, achava que podia aguentar o repuxo da condenação divina. Optei pela rebeldia e me tornei, como os crentes diziam, um mundano.
Ser mundano me dava a liberdade de pecar sabendo que iria pro inferno. Minha consciência doía um pouco, mas a dor era amenizada pela dúvida. E se não tivesse inferno? Essa dúvida me incentivava a cometer outros pecadinhos.
Na minha infância não existia a palavra bullying, mas existia o verbo bulir, que é caçoar, zombar de alguém. Tinha também o verbo bulinar, mas esse era para os mais velhos, e tinha a ver com o que hoje chamamos de importunação sexual. Todos esses pecados eram cometidos naturalmente.
Hoje o mundo é outro, nem de longe lembra o mundo de minha infância.
Lamento a prisão em que vivem as crianças de hoje. Elas não põem os pés fora de casa sem que os pais ou algum responsável as acompanhe. Estão todas presas em suas próprias casas. E quando suas casas estão em condomínios fechados aí a coisa é mais grave ainda porque estão isoladas do mundo real. O mundo dessas crianças de condomínio é uma grande redoma onde as diferenças delas para as crianças do mundo real, das crianças dos bairros mais periféricos, se mostram imensas, abissais.
Os avanços tecnológicos vem contribuindo para criar uma aproximação irreal entre essas realidades. Todas se colocam como pessoas extremamente alegres, risonhas, habitantes de um outro planeta: o planeta do nunca, pois parecem que nunca vão se tornar adultas. Ou melhor, as crianças parecem ser adultas e as adultas se colocam como infantis. E todas felizes em seus instagrans.