Casa Fernando Pessoa MS

Casa Fernando Pessoa MS Casa Fernando Pessoa - Centro Cultural
Poesia, arte, música, teatro. Campo Grande - MS - Brasil.

11/08/2025

Quando eu era menino

Quando eu era pequeno, lá pelos anos 1960, no sertão de Minas Gerais, mais especif**amente, em Almenara, vale do Jequitinhonha e Vitória da Conquista, sertão da Bahia, não tinha nenhuma preocupação existencialista, pois criança, para ser feliz, precisava apenas de um pai, uma mãe, comida na mesa e uma cama para dormir e sonhar. E sonhar era uma forma de viver enquanto dormia, mania que carrego comigo a vida inteira.
O que era a vida para mim? Era viver o presente, o agora. E esse agora era jogar bola, brincar de carrinho, de fazer casinhas de tijolos construídos com caixa de fósforo, desenhar cenas de faroeste e brincar de pega-pega à noite com as crianças da rua. Que socialização!
Teve um detalhe na minha infância que fez toda diferença. Minha mãe era evangélica, crente, e me levava aos cultos todos os dias. Não gostava muito de ir mais me acostumei e até gostava de cantar os hinos e ouvir os sermões bíblicos proferidos pelos pastores que acreditavam serem enviados de Deus. Como aprendi naqueles cultos!
Aprendi que tudo era pecado. Que Deus era amor, que Ele, tão amoroso, podia enviar seus filhos desobedientes para o inferno, para arderem nas chamas eternamente. Que pai amoroso! Com o medo do inferno e almejando o céu vivia eu assim minha infância. Até que um dia, qual Lúcifer, me rebelei. Cometi um pecado horrendo para os olhos divinos: fui ao cinema, escondido. Assisti, numa sessão de matinée, ao filme Maciste na terra dos gigantes. Pronto, aquilo mudou minha vida. Estava eu na casa dos doze anos e, portanto, achava que podia aguentar o repuxo da condenação divina. Optei pela rebeldia e me tornei, como os crentes diziam, um mundano.
Ser mundano me dava a liberdade de pecar sabendo que iria pro inferno. Minha consciência doía um pouco, mas a dor era amenizada pela dúvida. E se não tivesse inferno? Essa dúvida me incentivava a cometer outros pecadinhos.
Na minha infância não existia a palavra bullying, mas existia o verbo bulir, que é caçoar, zombar de alguém. Tinha também o verbo bulinar, mas esse era para os mais velhos, e tinha a ver com o que hoje chamamos de importunação sexual. Todos esses pecados eram cometidos naturalmente.
Hoje o mundo é outro, nem de longe lembra o mundo de minha infância.
Lamento a prisão em que vivem as crianças de hoje. Elas não põem os pés fora de casa sem que os pais ou algum responsável as acompanhe. Estão todas presas em suas próprias casas. E quando suas casas estão em condomínios fechados aí a coisa é mais grave ainda porque estão isoladas do mundo real. O mundo dessas crianças de condomínio é uma grande redoma onde as diferenças delas para as crianças do mundo real, das crianças dos bairros mais periféricos, se mostram imensas, abissais.
Os avanços tecnológicos vem contribuindo para criar uma aproximação irreal entre essas realidades. Todas se colocam como pessoas extremamente alegres, risonhas, habitantes de um outro planeta: o planeta do nunca, pois parecem que nunca vão se tornar adultas. Ou melhor, as crianças parecem ser adultas e as adultas se colocam como infantis. E todas felizes em seus instagrans.

03/08/2025

A expressão liberta de Nola e Gustavo em concerto de violões
Sílvio Santana de Souza
Às vezes a gente não se dá conta, na hora, da importância de um evento e, só depois, um dia ou dois ou mais, percebe a sua grandiosidade. Não tinha muita gente, não, nesse evento, acho que oito, mas, por mais de uma hora, em silêncio, eles se permitiram curtir o diálogo de Nola Pompeo e Gustavo Crespe com seus violões. Aliás, Gustavo é luthier e os violões em cena foram fabricados por ele.
Liderado por Nola, que sempre procura imprimir um tom de serenidade às suas performances, os dois perpassaram de forma sutil por espaços musicais que ora lembravam a região centro-oeste brasileira, ora os países asiáticos, dado que suas divagações musicais tendem ao misticismo (algo como budismo), ora inserções de notas românticas. Pode-se até perceber algumas distorções de notas que lembravam o som de cítara, instrumento comum na Índia.
Mais do que uma revoada sonora por terras distantes e próximas, a grandiosidade da apresentação se mostrou na entrega dos músicos que, sem combinação prévia do que seria tocado, mostrou estarem vibrando numa mesma sintonia. Aliás, toda a performance é criada na hora, nem sei se é criada, acho que é jorrada, algo que eles apenas conseguem controlar a dose do que vertem de seus corpos e mentes. Aliás, ouvir Nola Pompeo é uma experiência que requer da plateia sintonia com o músico e entrega, sem a qual a apreciação não se concretizará a contento.
O concerto de Nola-Gustavo aconteceu na noite de domingo (29/11/2015), antes, no sábado, Nola tocara sozinho na Casa Fernando Pessoa MS. Como sempre se dá na Casa, acontece de sons externos serem adicionados aos executados pelos instrumentistas. Um latido ao longe ou um barulho de moto passando pela praça denuncia a informalidade de um espetáculo em um espaço aberto, sujeito mesmo a interferências externas, dando a ele um caráter especial.

23/05/2025

Homem com H
Sílvio Santana

A principal missão do homem, na vida, é dar luz a si mesmo e tornar-se aquilo que ele é potencialmente, disse o escrito alemão, Erich Fromm.
A maior parte de nós, seres humanos, nos recusamos nascer, crescer, tornarmos aquilo que está potencialmente implícito em nosso ser. Quer por opiniões alheias, como as de nossos pais, que por circunstâncias como condições econômicas, quer por não acreditarmos em nós mesmos. E assim, nos arrastamos no limbo de nossa existência como um ser sem pernas, sem fala, sem visão, um vir-a-ser.
Vendo o filme Homem com H, sobre a história de vida de Ney Matogrosso, pude perceber o quanto é difícil ser o que se é, o ser o que se nasceu para ser. Ney deu a luz a si mesmo, a fórceps, isto é, sofreu horrores para tornar-se o que se é, um dos maiores artistas da música brasileira.
Filho de pai militar, linha dura, conservador, Ney teve que sair do conforto do lar para enfrentar um mundo para o qual ainda não estava preparado. Fora de casa, foi militar da aeronáutica, auxiliar de enfermagem, hippie, cantor de coral, e, por fim, entrou para uma banda de rock (?), os Secos e Molhados.
Com sua voz única e uma expressão corporal desafiadora, “rompeu tratados”, criou ritos e tornou-se um mito da arte no Brasil e no mundo, por que não?
O filme Homem com H, dirigido por Esmir Filho e tendo Jesuíta Barbosa na pele de Ney Matogrosso, é, com certeza, uma das maiores realizações do cinema brasileiro. Vale a pena conferir.

Em que ponto da estrada o seu acabou?
20/02/2025

Em que ponto da estrada o seu acabou?

Em que ponto da estrada o seu anor acabou?
20/02/2025

Em que ponto da estrada o seu anor acabou?

Interpretação: Magron EscobarComposição: Silvio Santana

Keith Richrds, outra face dos Rolling StonesA gente está acostumado a ouvir o Mick Jagger e a gente gosta de ouvir o Mic...
18/12/2024

Keith Richrds, outra face dos Rolling Stones

A gente está acostumado a ouvir o Mick Jagger e a gente gosta de ouvir o Mick. Os Rolling Stones que a gente conhece é a expressão do Mick. Mas os Stones têm outras faces. E uma das faces mais fascinantes desses ingleses é a do seu guitarrista Keith Richards.
A influência musical maior do Richards é o folk e o blues americanos. Ouvindo o Richard cantar, por exemplo, Sing me back home, sentimos como algo pode ser tão real sem nenhuma forçação de barra. O que se vê é uma verdade, é como se aquela música fosse a expressão verdadeira de um momento da vida do Richards. Dá vontade de chorar. E o que dizer de All I have to do is dream, uma canção tão popular nos anos 60. Na voz do Richards toda a dor da solidão, da impotência que o leva buscar um refúgio em um sonho é coisa pra se pensar em como um sentimento´pode ser exposto em uma potência tão elevada. O cara apenas deixar que sua voz expresse sua dor. E que dor! Que desolação! Que farrapo humano!
É Rolling Stones? É claro que é. É só lembrar as influências maiores dos Stones foram os blusistas norte-americanos Howlin´Wolf, Chuck Berry, Bo Diddley, B.B. King, John Lee Ho**er e Muddy Waters.

This is simply out of this world. Perfect, actually.

É NatalPara os que crêem e os que não crêem em Cristo, é natal.As ruas iluminadas acusam um período em que todos os cora...
17/12/2024

É Natal

Para os que crêem e os que não crêem em Cristo, é natal.

As ruas iluminadas acusam um período em que todos os corações parecem caminhar, como os Reis Magos, em direção à estrela de Belém.

Trocam-se presentes, cartões, trocam-se sentimentos, desejos de felicidades e trocam-se esperanças de anos melhores.

Ninguém f**a imune ao espírito de natal. Ricos e pobres se desmancham em demonstrações de carinho, presenteando, como podem, os mais próximos.

É do homem a desigualdade social, assim como é dele acreditar que um dia poderá eliminá-la para sempre de nosso quotidiano.

É do homem a destruição do planeta, mas é dele acreditar que o progresso possa se traduzir pela harmôniosa convivência de homens e ambiente.

É do homem a intolerância à diferença, mas é do homem acreditar no direito à livre expressão de sua opção laboral, religiosa, ideológica e sexual, entendendo que a beleza do mundo consiste exatamente na diferença das cores, dos sons, das texturas, do calor, do dia e da noite.

É do homem preferir uma cor, mas é dele acreditar que todas as cores são belas e que no seu conjunto reside a brancura da paz, meta a ser sempre perseguida.

Que em nosso coração reine sempre o encantamento pela descoberta de novas possibilidades de ser feliz. Que a inquietação e o inconformismo com as desigualdades sociais nos permitam arquitetar sempre planos de promoção de justiça e solidariedade, para, dessa forma, concretizarmos os nossos desejos de felicidade e de tempos melhores para todos.

É NATAL(Silvio Santana)Intérprete: Ana CabralÉ natal, é natal, É natal, é natal,É natal do menino JesusÉ natal, é natal,É natal, é natal,E o mundo se enche d...

O que é poesiaPoesia é a expressão de um sentimento em versos, podem dizer uns.E não estão errados. Esta é apenas uma op...
10/08/2024

O que é poesia

Poesia é a expressão de um sentimento em versos, podem dizer uns.
E não estão errados. Esta é apenas uma opinião. Outras opiniões podem existir, inclusive podemos pensar não no que é poesia, mas onde podemos encontrar a poesia. E aí o conceito de poesia pode se ampliar infinitamente, porque a poesia pode ser vista não apenas em versos, mas em uma melodia, numa pintura, numa interpretação, enfim, em diversas ocasiões.
Quero mostrar aqui uma música que é na letra, na melodia e na interpretação da Adriana Calcanhoto três demonstrações de visões poéticas.
A música em questão é Estrela, Estrela, do compositor gaúcho Vitor Ramil.
Raramente assistimos a uma apresentação musical onde três demonstrações poéticas podem ser percebidas tão claramente.
Vamos ver aqui uns versos dessa canção:
Estrela, estrela
Como ser assim
Tão só, tão só
E nunca sofrer
Brilhar, brilhar
Quase sem querer
Deixar, deixar
Ser o que se é
A conversa do autor com um elemento da natureza, estrela, alcança um tom poético quando atribui a ela, estrela, características sentimentais humanas. A estrela se comporta como um ser humano altruísta, despido de qualquer intenção que não a de servir a todos com sua luz.
Mais alguns versos,
É bom saber
Que és parte de mim
Assim como és
Parte das manhãs
Melhor, melhor
É poder g***r
Da paz, da paz
Que trazes aqui
Costumo dizer que tão ou mais importante do que o objeto é o como esse objeto é apresentado. E isto, esta projeção poética, é alcançado por um arranjo instrumental delicado, um back vocal que aprofunda o sentimento de dor, e, a interpretação da Adriana que é qualquer coisa como uma poesia vocal. Não há na Adriana qualquer pretensão que não a de ser portadora do sentimento que o Vitor Ramil quer expressar.
Eu canto, eu canto
Por poder te ver
No céu, no céu
Como um balão
Eu canto e sei
Que também me vês
Aqui, aqui
Com essa canção.

O que é poesia? É isso e muito mais outras coisas. É isso, e isso depende da capacidade poética do apreciador.

Aqui o link para sua apreciação da poesia em dose tripla.

https://www.youtube.com/watch?v=2uWk0A0p8Wo

Sílvio Santana de Souza

A cantora gaúcha Adriana Calcanhotto canta a música "Estrela, Estrela", de autoria do também compositor gaúcho Vitor Ramil, no especial em homenagem ao Rio G...

19/03/2024

Rio Paraguai
Sílvio Santana

O rio que une fronteiras
É tão de cá quanto de lá
Quem o vê correr tão lento
Não imagina o quanto
Por margens recriadas
Já passou

Passou e levou
Canto de aves, urros
De onças, zig-zags de
Jiboias a deslizar
Em seu leito turvo

É o Paraguai, líquido
Precioso, fonte de vida,
Caminho sinuoso
Que integra estados, países
Povos e culturas

Quem as suas margens habita
Ribeirinhos se chamam
Pois, como o rio Paraguai
São também fluxos líquidos
Em profunda interação

Corre rio, correm canoas
Correm bichos em suas orlas
Corre solta a vida nesse habitat
Que os anos ajudaram a formar
Que não se cansa de
Se mostrar, múltiplo
E renovável mistério

15/06/2023
15/06/2023

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