14/05/2020
PEÇAS NATALINAS DE OBERUFER
Por Sonia Setzer
http://www.sab.org.br/portal/artes/151-pecas-natalinas-de-oberufer
As encenações atuais das peças natalinas de Oberufer
Depois de Rudolf Steiner ter reconhecido a importância dessas peças, e começado a encená-las na época do Natal com pessoas que não eram atores, esse costume foi adotado por quase todas as instituições antroposóf**as. Por exemplo, nas escolas Waldorf os professores as apresentam para os alunos, os pais, e toda a comunidade escolar; em clínicas antroposóf**as são os médicos, enfermeiros, terapeutas, que as apresentam para os pacientes, seus familiares, e todos os funcionários da instituição, etc. Steiner introduziu algumas modif**ações, entre as quais as mais importantes são a exclusão da peça de carnaval, e o desdobramento de "O nascimento de Jesus" em duas peças: dos pastores e dos reis magos. Desse modo ele respeitou o original bíblico, pois a história da anunciação feita pelo anjo a Maria, do casal Maria e José que viaja de Nazaré até Belém a fim de se recensear, quando então nasce seu filhinho num estábulo, porque não havia lugar na estalagem, e a posterior visita dos pastores, está descrita somente no Evangelho de Lucas. A história dos reis magos, que seguem uma estrela surgida no Oriente para visitar a criança nascida numa casa em Belém, cujo nascimento fora anunciado pelo anjo a José e, depois, a fuga para o Egito e a posterior matança das crianças por Herodes, consta apenas do Evangelho de Mateus. Aliás, uma das maiores contribuições de Steiner foi a elucidação do fato de existirem duas histórias tão díspares para o que, tradicionalmente, é considerado o mesmo evento. Durante anos seguidos ele dedicou-se a revelar este e outros mistérios relacionados com o ser cósmico Cristo. Eles estão disponíveis na vasta obra deixada por ele, em livros e palestras.
Uma outra alteração está na ordem das apresentações, pois hoje, quando são encenadas as três peças, a primeira é a do Paraíso ("Adão e Eva"), depois a dos pastores (muitas vezes as duas vêm em seqüência, no mesmo dia), e por último, em outra data, a dos reis magos; muitas das instituições antroposóf**as encenam as primeiras duas no período natalino propriamente dito, e a terceira no início de janeiro, ou até mesmo no Dia de Reis (em escolas Waldorf do hemisfério norte, isso acontece no primeiro dia de aula depois das férias de Natal). As músicas cantadas hoje em dia também não são as originais. Para as primeiras apresentações Steiner encomendou a Leo van der Pals as melodias dos cantos e seus acompanhamentos. Mais recentemente, outros compositores também musicaram os textos; portanto, há possibilidade de se escolher entre várias melodias. Obviamente os ‘atores’ atuais não precisam comprometer-se a seguir as regras vigentes até o séc.XIX, e os papéis femininos são representados por mulheres. Porém, sua atitude interior deve ser de plena consciência do signif**ado da realidade oculta, subjacente a essas peças, levando em conta a importância das imagens sobre a alma dos espectadores, e principalmente o aspecto sagrado, sem pieguice e sentimentalismo.
Às vezes surge a questão se não f**a tedioso apresentar todos os anos as mesmas peças. Ora, não se costuma considerar tedioso comemorar os aniversários todos os anos e, em geral, cada família tem seus próprios costumes e tradições para festejá-los. Sabe-se que as crianças não apenas adoram, mas têm necessidade de repetições. Durante a apresentação das peças natalinas elas costumam aguardar com ansiedade a entrada desta ou daquela figura, são tomadas pela expectativa da cena que se aproxima e, em poucos anos, conseguem repetir muitas das falas e cantar todas as canções. Mesmo depois de adultas ainda se lembram de trechos, ou de ‘atores’ que viram várias vezes no mesmo papel. Em algumas famílias, na noite de Natal as próprias crianças coordenam uma encenação improvisada da peça dos pastores, da qual toda a família acaba participando. Por vezes trata-se do único conteúdo verdadeiramente profundo nessa festa, que se tornou um evento comercial e social, sem religiosidade. Num mundo no qual se perderam as tradições, onde não há mais apego a nada, e tudo é descartável, manter a continuidade da encenação das peças natalinas pode signif**ar não somente uma âncora, mas um momento de profunda veneração. E não apenas para as crianças; muitos adultos relataram-me que somente conseguem entrar no verdadeiro clima natalino depois de assistirem às peças.
Como já foi mencionado, Steiner deu grande importância a essas apresentações, nem tanto por seu conteúdo, mas por representarem um resquício verdadeiramente genuíno da vida cultural entre os camponeses do final da Idade Média, que perdurou até meados do século XIX, extinguindo-se logo depois. Nos países de língua alemã as peças são encenadas no dialeto original, ainda bastante compreensível. Obviamente qualquer tradução intelectualiza o texto; por isso sempre se deve ter o cuidado de preservar o clima campesino, de ingenuidade, pureza e veneração. Então essas peças conseguem falar diretamente ao coração.
Sociedade Antroposóf**a no Brasil