13/04/2025
“Sacrário Vivo”
Ó filhos meus, escultura do Eterno,
Que em barro e luz fostes assim moldados,
Tendes em vós os céus encapsulados,
No berço breve de um tempo tão moderno.
Sois centelhas de um Deus que se fez terno,
Pulsando em mim por laços tão sagrados,
Em vossos olhos — puros, encantados —
Vejo o que em mim já fora amor eterno.
Quando vos olho, estremece a minh’alma:
Sinto o inferno fugir, o céu baixar,
E no silêncio, a fé tornar-se calma,
Pois vossa voz, ao rir ou soluçar,
Desfaz em mim vaidade e falsa palma,
E ensina ao pai o dom de se curvar.
Sois carne minha… e mais: sois minha essência,
Espelhos vivos de uma dor bendita,
Que fere e cura em mesma penitência,
Pois cada passo vosso é alma escrita
Num livro santo — sem eloquência —
Mas que me salva, mesmo quando aflita.
Quantas vigílias em sombra e temor,
Quantos suspiros ao ver-vos dormindo,
Quantas orações nascidas do amor
Que ao vos cuidar me vai redimindo!
Pois mesmo fraco, vil, sem esplendor,
Me torno santo, ao ver-vos me seguindo.
Ó filhos, sede luz quando me apago,
Sede a canção quando o mundo me cala,
Sede esperança quando o chão já trago
Molhado em pranto, e a cruz me embala.
E se um dia, do pó, eu for chamado,
E minha carne enfim voltar ao nada,
Que minha alma em vós seja encontrada,
Nos vossos gestos, meu legado amado.
Pois todo pai, por filhos consumado,
Morre de amor — mas vive na jornada.
Álvaro Ronei