08/01/2026
Agora vai. Vai nada.
Por Ronaldo Rocha
Palavras grandes, dessas que vestem bem o ano novo.
Embrulhadas em papel brilhante, distribuídas pelo Velho Nicolau e aceitas sem recibo.
Bondade, esperança, vida nova, comunhão, humanidade.
Tudo em promoção por uma virada.
Por algumas horas, acredita-se em tudo.
Como se o calendário facultasse anistia, quitasse dívidas morais e concedesse absolvição coletiva.
Abraços disfarçados, beijos calculados, sorrisos ensaiados.
Promessas nascendo com prazo curto.
Taças ao alto e o nome de Deus jogado em vão. Não é ateísmo. É uma crítica ao uso demasiado do sagrado.
À meia-noite, o coro embriagado é uníssono, empolgado e previsível:
Agora vai.
Vai nada. E o novo entra sem bater. Não há “ano novo” sem homem novo.
Os problemas não respeitam réveillon.
Não fazem contagem regressiva, não usam branco, não pulam sete ondas e nem apelam para a semente de romã.
Aparecem cedo, em fila organizada, como quem conhece bem a casa.
Nada mudou.
Mudou só o número do calendário, apenas um detalhe gráfico.
O 31 de dezembro engana bem.
É uma noite suspensa.
Um intervalo confortável entre o cansaço crônico e a ilusão necessária.
O dia seguinte se chama primeiro de janeiro.
Já chega pesado, cansado, sem paciência, sem fogos e sem abraços.
A humanidade, como sempre, insiste.
Cai, levanta e tropeça nas próprias frases de efeito.
A comunhão dura o tempo de um brinde.
A esperança, o de um gole etílico.
O tempo não para. Anda rápido. Rindo. Preciso.
E assim seguimos.
De ano novo em promessa reciclada.
Empurrando os dias como quem empurra a fé morro abaixo, sem conversão, sem arrependimento, sem permanência.
Até que chegue outra noite feliz de juras e confidências, outro 31 milagroso. Igual. Como sempre, enganador.
Outra chance para fingir que agora vai.
Mesmo ciente da queda, não abdico da benção.
O texto afirma que o tempo não salva.
O ritual não converte.
A festa não absolve.
A bênção não dispensa arrependimento.
Mas a graça ainda pode ser desejada.
Só me resta desejar aos que me leem, mesmo com atraso, um Feliz Ano Novo.