10/05/2019
Propágulo: Sobre a obra Fungo, de Felipe Santana e Bruna Araújo. 14/07/2017.
À primeira vista, uma estrutura composta de módulos circulares de madeira em cores quentes
se expande e se espalha pelo chão e paredes do espaço artificialmente iluminado. De perto, a
luz artificial invade os espaços negativos entre módulos e cria sombras que repetem as formas
semi-orgânicas em novas tonalidades. O que se gesta dentro de um processo da escultura
construtivista, se expande para o campo ampliado da escultura, para a instalação, para a
modular art e até sai da arte, adentrando o mundo interativo dos jogos. A arte é, em grande
parte, linguagem e há diversos paralelos entre novas ideias linguísticas desde o pós-
modernismo, como mostrou Clement Greenberg. A obra toda foi construída, crua e
industrialmente, sobre amadeirado: uma chapa de compensado de quinze milímetros. Para os
vetores principais do construtivismo, isto é, corte, solda e dobra, a chapa de compensado é
perfeita. O compensado possui um padrão superficial em gradações tonais de matizes
quentes, do creme aos terrosos, que evoca a vida na natureza, o quê nos faz desassociá-lo de
toda sua gestação artificial. Aqui não há p***a. A instalação, na realidade, é convidativa.
São pequenos módulos circulares e leves, uns presos à estrutura e os demais apenas
encaixados. Sua composição se alastra para todos os lados da parede, como se dela tentasse
tomar conta. Cada módulo de compensado possui quatro filetes cortados para que se encaixe
aos demais ou se desprenda facilmente de outro, com inúmeras possibilidades de
reconfiguração. O compensado está cru. No construtivismo não há a necessidade de limpeza
artística doentia, que Renoir era tão obcecado. A obra é apresentada nua em sua
materialidade, sem acabamento, sem lixar, sem sequer retirar notações ou etiquetas de
fábrica. O valor da madeira, do compensado, de sua origem industrial, na área da construção
civil faz com que toda materialidade das peças se sustente sozinha no trabalho e valorize seu
próprio potencial de autonegação. Todo o complexo de módulos entrecruzados se expande e
permite reconfiguração de formas no futuro imediato. A disposição escolhida pelos artistas é
uma das várias possibilidades.
Essa modulação na arte possui raízes longas, desde o antigo Egito, quando da arquitetura das
pirâmides, ganhando campo para pesquisa e prática somente no pós-modernismo,
especialmente na arquitetura e no design. O uso de compensado fora da construção civil ou da
arquitetura tradicional remete a trabalhos como o do casal de arquitetos Charles e Ray Eames,
que reconectam a tecnologia à natura, ou mesmo ao arquiteto-designer Kengo Kuma, que
trabalha sobre estruturas modulares de madeira sobre o eterno efêmero. A possibilidade de
reconfiguração da forma, interativa ou não, é fundamental para a modular art, que é apenas
um dos braços da escultura no campo ampliado, como exposto por Rosalind Krauss, e vemos
claramente nas obras de arte modulares da artista Maria Brito ou do Michael Jantzen. A
abordagem temática escolhida é coerente, o que detona estabilidade visual. Há equilíbrio na
justaposição das peças cruas que se entrecortam, ora se unindo, ora se desprendendo,
evocando possibilidade de movimento e expansão, longe da forma estática ao olhar. É um
convite, neutro e inócuo, para brincar.
Ao “adentrar” a obra. Percebemos que toda sua estrutura é divida em duas partes principais. A
primeira trata de um esqueleto fixo, unido ao espaço que o recebe passivamente. A segunda,
mais “interativa”, se compõe dos outros módulos que se desprendem da estrutura principal,
possibilidade de reagrupamento e interação com o público. Inicialmente, o nome Fungo foi
proposto pelo museólogo David Carvalho e pegou. Fungo porque se assemelham a formas
orgânicas que se propagam da terra, pelas paredes, invadem o espaço, com seus módulos,
organicamente circulares, como lembram alguns fungos, cogumelos. A estes módulos
circulares eu chamei de propágulos, que nada mais são do que as pequenas estruturas
celulares dos fungos que dele se desprendem para sua reprodução. A forma dos módulos
escolhida pelos artistas que construíram as peças não são somente circulares, mas advém de
um cálculo geométrico muito assertivo, se assemelhando às estruturas de geometria orgânica,
embora hexagonal, criadas pelas abelhas. Nesse ponto, o trabalho anda de mãos dadas com as
modulações geometrizadas das obras do designer Mostapha El Oulhani, que contêm a
possibilidade o orgânico sobre a forma para além de uma suposta geometria modular.
A madeira é um dos elos com o inconsciente coletivo, pois remete à urgência de conscientizar-
nos do potencial de vida que ali habitou e ainda simboliza, numa nova configuração de
realidade, quiçá futurística. A arte não existe sem vida, pois se um escultor precisa representar
alegria ou tristeza, dor ou paixão, ele só poderia comover seu público, de início, se souber
fazer reviver a vida que ele mesmo evoca, como afirmou uma vez Rodin. A ilusão da vida é
obtida na arte através da boa modelagem do material e pela possibilidade do movimento, que
está presente em peso no trabalho Fungo. A obra, que através da reconfiguração de seus
pequenos e inúmeros módulos circulares, possui uma energia potencial para o infinito de
possibilidades e significações. Ela me diz para não sair dali, mas explorar, continuar
continuando, sem escapatória. O compensado reflete a ideia de segurança e processo de
construção, pois deixa a percepção da obra falar por si mesma, sem segundas intenções ou
textos subliminares.
O trabalho dos artistas Felipe Santana e Bruna Araújo é gestado nos ditames escultura de
construtivismo, quando uma obra não mais é esculpida, mas sim construída, evocando os
procedimentos mais crus da construção civil. Os materiais valorizados são próprios da área da
construção, como madeira, metal, vidro, concreto. A materialidade crua do compensado é
uma rejeição ao elitismo do mundo e do design convencional, ironicamente sendo fruto de
uma tradicionalidade formal. Os artistas trabalham aqui com elementos rudimentares do
construtivismo no diálogo do material com o público. Isso se dá especialmente no ato de
fricção entre a forma e o material, entre o signo e o que ali será significado.
Redigir sobre arte é complexo, é difícil. O contemporâneo se debruça sobre tantas questões e
há tantos fatores que podem influenciar uma crítica quanto criar possibilidades de
significações que uma peça possa gerar. Pois é a arte contemporânea muitas vezes efêmera e
aceitá-la é tentar capturar o fugaz. No tempo do “hoje-está- amanhã-já- se-foi” é muito comum
criticar uma obra que já desapareceu e isso ocorre amiúde. A “instalação” Fungos já se foi e
apesar da minha presença no ateliê, apesar de ter visto o processo de produção, tomado
declaração dos artistas, é graças aos registros fotográficos que tenho uma permissividade para
análises a posteriori. A arte sempre recai sobre as contemporaneidades e afeta a crítica, nunca
o contrário. Seja já o que enriquece a obra Fungo, está na intriga da não compreensão
imediata de sua função ou significado. No mesmo tempo que transita entre o belo o e o feio,
sem se preocupar em se encaixar em qualquer um dos dois, é nessa estética dúbia que se
instala a honestidade do trabalho artístico. Apenas é feio, na arte, com efeito, o que é
desprovido de caráter, aquilo que não oferece verdades, seja ela interior ou exterior. A arte
mais intrigante é aquela que você não consegue entender, já disse a artista conceitual Pat
Steir. Pois é o incompreensível que escapa, que atrai, pois remete à vida, ou melhor,
rememora nossa mortalidade. O incompreendido na arte é memento mori. É preciso gostar da
obra de arte, mas sem se demorar em compreendê-la de imediato: é um instinto humano que
de início precisa ser visceral e não verbalizado. O arrebatamento na arte independe de nossas
funções cognitivas de racionalização. E os artistas aqui jogam com a forma com que o público
traduz as formas que observam, incitando as pessoas a pensar e refletir sobre que está de fato
ali construído (ou desconstruído).
A mesma força que expande a obra para os espaços e ressignifica o constructo o tempo
inteiro, é a fraqueza do conjunto, pois deixa demasiado a cargo do público sobre as
possibilidades de interpretação e reconfiguração do trabalho. As pessoas querem respostas
objetivas da arte, querem respostas para aquela obra, mas não encontrarão aqui. A origem
está apenas na mente de seus criadores e nela encerrados os mistérios de seus propósitos. Ler
o pensamento dos outros é como pegar o resto da refeição de alguém, é como vestir as roupas
que um estranho jogou fora, no aforismo de Arthur Schopenhauer. O que é pura verdade, pois
na arte contemporânea apenas os pensamentos fundamentais e individuais de uma pessoa
que têm verdade e vida. Então, a obra se torna mais rica de significados e mais complexa
conforme se apresenta e se reconfigura em incontáveis cenas que se assemelham a
brincadeiras nos olhos e nas mãos de um público. Todo mundo quer acreditar em uma
verdade interna e tão válida quanto qualquer outra, em um governo pessoal que se baseia no
livre arbítrio. O texto da obra pode ser o que você quiser configurar.
É um trabalho extremamente provocativo, no sentido de que na arte contemporânea se lida
com pessoas cada vez mais passivas (artistas e público), jamais querendo tomar posições. E a
interação da obra com seu público exige tomar partido para se estabeleça ordenações e
honestidade com a arte. A avalanche de possibilidades empurra o significado da obra, que
desliza, em queda livre, se esvai pelas paredes e solo, para um abismo de verdades veladas. O
fungo ocupado seu espaço de direito: a expansão desenfreada.
A profusão de acréscimos discursivos atenua e embeleza a obra pela ordenação do espaço,
que embora pareça caótico, é fruto de uma sequência, de um rumo, cujas raízes passadas,
possivelmente de gostos pessoais dos artistas, aqui se mostram como jogos. Jogos de
manusear, jogos de reflexão. Não é fácil escapar dos fantasmas deste lugar, estamos aqui para
viver nossas vidas, também fazer nosso rumo. E como é difícil pensar naqueles que traçaram
rumos nesse percurso antes de nós. A relação modular das peças de compensado com seu
espaço frio e inócuo é uma nostalgia futurística e este é o rumo tomado desde sua construção
artística. A atividade representada pela força de sugestão na obra é o que a faz ao mesmo
tempo confusa e clara, pois exige, depois da observação e da ação, alguma forma de reflexão.
É no pensar que o público vai além e se sente melhor.
por Vagner Cezar
14/07/2017