25/01/2026
Sabe o demônio uma infinidade de coisas. Não todas as coisas. Muitas. Ninguém sabe sobre tudo. Ele não sabia, por exemplo, que teria problemas ali com aquele rosto, aquele corpo, aqueles olhos que o olhavam intensamente. Ela, ainda sem marcas do tempo, era mais linda que a própria beleza. Ele, um pouco mais velho. Quase nada. Cinco anos ou por próximo. Se olharam. Sorriram no mesmo momento. Ele abaixou a cabeça. Ao retornar à posição inicial ela ainda o olhava. Parecia um anjo, a Vitória de Somatrácia. Enigmática e bela. Ele tentou se esquivar. Convenhamos, ao demônio não cabe bem acrescentar um anjo em sua vida. Estava confuso. Ela percebeu e sorriu novamente. Perguntou algo, talvez sobre as horas, talvez sobre o tempo, o destino final dele. Levantou-se e sentou-se ao lado dele. Muito próximo. Próximo, de fazer o calor esquentar todas as veias. Veias dele, veias dela. Inútil fugir. A paixão chegou ligeira em três, dois, um. Desceram juntos em uma parada qualquer. Não era a dela, não era a dele, era outra; a que convinha a ambos no intuito de não se apartarem. Sentaram. Um café. Ela falou das aulas na universidade, da política, de músicas e filmes. Ele falou do amor pelos livros, da morte e da solidão das almas. Ela ouviu tudo com vivo interesse, ele ouviu tudo com verdadeiro encanto. Recomeçaram outras histórias. Não queriam acabar. Era tudo de perfeita harmonia e poderia durar para sempre. A tarde avançaria e a noite viria quase sem fim. Ela precisava ir. Ele ficaria eternamente. Não ficou. Retornou ao princípio, cheio de sonhos e contando as horas para vê-la novamente. Mas não a veria de imediato. Ela não podia. Não explicou exatamente o motivo. Apenas não podia. Agora a vida dele era ansiedade e desordem. E assim começava o inferno.Tudo como tantas vezes, em tantas vidas, em tantos tempos diversos. Assim, até que a morte o separe e liberte desse mundo. Assim, até que o sonho se desmanche em realidade.
Autor: Osias Canuto