17/11/2018
Ói, não é bobeira não, te juro! Mas hoje o tempo parou e eu tava lá... Eu não tinha tomado nada, te juro, muito menos fumado, sem bobeira, mas o tempo parou, te juro!
Vinha eu mais meu filho caminhando pela Conde de Bonfim -- eita, rua mais cheia de gente, carro, moto, pingo de ar-condicionado... --, ele catou minha mão esquerda -- sim, te juro, foi ele que catou a minha mão, mão de mãe, e não tinha motivo extraordinário pra isso mas foi -- e lentamente carro, moto, cachorro e até pingo de ar-condicionado foram parando e a gente seguiu andando a caminho do metrô.
Parecia cena de filme, te juro, e nem sei o nome desse efeito que fazem, mas eu queria saber dizer o efeito que foi que é pra você entender. Não é bobeira não!
Eu nem quis olhar pro lado, pra ele, tive medo dele perceber que eu tava percebendo alguma coisa que não era pra perceber, achar bobeira e tirar a mão dali... Buscando o encaixe certinho de palma com palma, ele, ele mesmo, por conta própria, ajeitou a mão puxando o movimento pelo dedo do meio, a palma direita dele já faltando pouco pra chegar ao meu tamanho de palma, te juro!
Mas era também aquela palma de um ano, há mais de cinco anos, que eu buscava pela praça escorregando em tentativa de equilíbrio; era aquela palma de dois, há pouco mais de quatro anos, que teimava em embaraçar caminho de braços com caminho de corpo todo e ia se metendo na frente e no meio das minhas pernas, atravessando o caminho; era aquela palma de três, há pouco mais de três anos, que me puxava para o meio da rua porque só queria andar equilibrado no meio-fio, e eu seguia fazendo contenção de fuga pra caminho de carro. Era, enfim, aquela palma de uns quatro, talvez um pouco antes, que já não me queria mais dando mão, te juro, quatro anos apenas, vê se pode!
Chegou a ser a palma de um rapaz mais alto que eu, seu ombro que nem existia esbarrou no meu durante a caminhada lado a lado, e eu senti susto pelo tamanho disso que a gente chama de amor de mãe... Eu não tinha bebido nada, te juro, muito menos fumado, mas foi viagem que aconteceu, talvez dessas que o povo diz que viaja no tempo...
O mais engraçado é que o tempo mesmo tava parado, não é bobeira não, e naquele tempo todo, quando olhei de novo pro relógio da rua -- aqueles digitais prateados que têm um banner logo acima e marca temperatura --, o minuto nem bem tava começando a mudar pro minuto seguinte.
Te juro!