As Vestes da Ana

As Vestes da Ana A escrita, um armário cheinho de possibilidades pra roupa do dia.

Cigana chegou.Era fim de dia ainda, mas já trazia memória da noitede céu estrelado que brilha sempre no firmamento de su...
25/05/2020

Cigana chegou.
Era fim de dia ainda, mas já trazia memória da noite
de céu estrelado que brilha sempre no firmamento de sua cabeça.
Abriu bem os olhos, e como não é de encarar quando a roda é cheia, baixou a vista para a altura do fogo.
Olhos de gente podem incendiar muito mais se a gente se bota no caminho das chispas.
Sua saia, a mesma do dia:
da lida, do cuidado, da comida.
Tudo isso, afinal, também é motivo pra comemorar!
Coloriu-se com pano leve, com seus fiapos e pontas lembrando asas que ela cria quando gira em dança ritmada.
Cigana roda.
Uma roda cigana.
E como é do universo rodar, vida que nasce girando, dança ela também
e incansavelmente aquele torvelinho.
O corpo da Cigana Menina
é semente germinando do fundo do chão.
Quase tomba, desequilibra...
mas, falta pouco, tocará a abóbada
pra enfeitar o dedo com uma pedra da lua.
detalhe de mural de azulejos -- Estação de São Bento, Porto.

05/12/2019

escrever
contar
cantar
espalhar as sementes de amor
❤🌱

.musica
• • • • •
um pedacinho da nossa participação no show "Lipe Reznik e panela de mão", que aconteceu no Centro de Referência da Música Artur da Távola.
aqui, o trecho de uma história que embala o nosso repertório -- "O menino e o sol" --, com a música "Mana" de fundo.



passarim ferido pode tornar a voar, sabe?
19/11/2019

passarim ferido pode tornar a voar, sabe?

eu só escrevo por amordigo pro outro assinalando um lembrete pra mim. e por isso digo do nascimento desse livro como uma...
23/10/2019

eu só escrevo por amor

digo pro outro assinalando um lembrete pra mim.

e por isso digo do nascimento desse livro como uma ousadia, a ousadia de colocar um tanto de amor empapelado a circular por aí, querendo se espalhar pelas mãos de mais gente.

e você, já conhece o enredo desses dinossaurinhos? me conta! ❤🦖🦕❤



Há um ano, eu recebia uma entrega muito esperada e que emoção foi ao abrir aquelas caixas! ☀️🦖🦕❤"Dois dinossauros e uma ...
16/10/2019

Há um ano, eu recebia uma entrega muito esperada e que emoção foi ao abrir aquelas caixas! ☀️🦖🦕❤

"Dois dinossauros e uma duna imensa" ainda é um bebê e já me deu tanta alegria... que venham mais caminhos! .................

Cheiro de livro novo é uma maravilha.
Mas esse aqui tem um gostinho especial! 🤸🏻‍♀️💗🦖🦕💗
☀️ "Dois dinossauros e uma duna imensa" nasceu!!!
⭐ Lançamento 21/10, 15h, na Primavera Literária




há mar em mima desabrocharminhas mil folhas
10/10/2019

há mar em mim
a desabrochar
minhas mil folhas

Hoje, volto à Faculdade de Letras da UFRJ, onde me formei, para conversar sobre o "Dois dinossauros e uma duna imensa".A...
09/09/2019

Hoje, volto à Faculdade de Letras da UFRJ, onde me formei, para conversar sobre o "Dois dinossauros e uma duna imensa".
Alegria imensa de ser convidada pela Belle Loivos, que faz parte da minha formação, pra compartilhar os caminhos pelos quais a escrita tem me levado!





"Mamãe, você conheceu meu tataravô?", me perguntou ele assim que paramos no sinal. Sem pensar, respondi que não. "Ele mo...
31/08/2019

"Mamãe, você conheceu meu tataravô?", me perguntou ele assim que paramos no sinal. Sem pensar, respondi que não. "Ele morreu antes ou depois de eu nascer?", ele continuou. "Antes." "E o bisavô da vovó, você conheceu?"

Ri sem graça, já começando a me perder nos graus de parentesco: "também não." "E o bisavô do meu pai?" Olhei pra ele pelo retrovisor, pensando em perguntar onde estava a câmera escondida e a que horas ele iria revelar a pegadinha. "Não, Joaquim…" (com uma risadinha diluída entre essas reticências…)

Nisso, Cláudio, rapaz que vende bala ali todos os dias entre 11h e 19h pelo menos, e com quem a gente sempre troca uma ideia enquanto negociamos pacotes de quatro paçocas por R$2,00, encosta no ponto das balas, bem perto da minha janela, e começa a arrumá-las calmamente.

Eu não tinha me dado conta de que ele chegara no exato momento em que o moleque acabava de concluir aquele cruel “pô, mamãe, mas você também não conheceu ninguém, hein?!”. ~ o moço dispondo os saquinhos na barra de proteção do rio Maracanã, fone de ouvidos a postos, um pendurado no pescoço, o outro encaixado, rotina da cidade seguindo como a cada dia que nasce... a gente nem parecia estar ali… ~ “É que o bisavô do seu pai, Joaquim”, comecei a me explicar, “era o… peraí! O pai do seu pai é o seu avô, o pai do seu avô é…”, ia eu desembaraçando o novelo da nossa família, quando, então, tenho o raciocínio interrompido pela força de um olhar de esguelha. Era Cláudio, já virado na minha direção mas não por completo, meio de lado ainda, dividido entre as balas na barra e a barra que me via segurar naquele momento. Com um sorriso de canto de boca e apenas uma sobrancelha meticulosamente levantada,
ainda teve tempo de me fazer ouvir, na saída daquele sinal que acabava de
abrir (pra me salvar do constrangimento, é claro!), a breve e potente sentença: "Ê, Joaquim!!"

O trânsito voltou a fluir.

Acelerei procurando onde mesmo é que meu pé havia parado, onde devia estar...
Carros em fila, cada um no seu caminho, como as gerações que vão se seguindo, seguindo,
seguindo...
pedindo passagem sempre.

uma rima aerada diante do espelho
28/06/2019

uma rima aerada diante do espelho


Você conhece alguma criança que não tenha medo da noite? Que não resista ao sono? Que não precise do embalo de uma voz p...
21/06/2019

Você conhece alguma criança que não tenha medo da noite? Que não resista ao sono? Que não precise do embalo de uma voz parceira pra se entregar ao desconhecido do escuro?
Ao lado de meu filho, vejo como é pra ele e lembro também as tantas vezes que essa dificuldade apareceu pra mim -- ainda hoje sou uma pessoa que demoro muito a aceitar que o fim do dia chegou e é preciso fechar as cortinas da janela da alma.
Pois, para Joaquim (e sei que pra muitas outras crianças), as histórias têm feito essa ponte entre a vigília e o mistério.
Ele ainda pede todas as noites -- e eu espero que por muito tempo -- que se reserve um tempinho pro contar na nossa rotina. Às vezes, esse tempo das tarefas a cumprir não sincroniza com o tempo das necessidades do corpo e acontece o que a foto mostra. Apenas o intervalo de uma escovada de dentes foi o suficiente pra que eu já encontrasse meu espaço garantido, o livro a ler e o moleque embalado.
Engano meu!
Tateando vagarosamente, fui puxando o livro do abraço e, quando quase resolvia, ele o segurou com mão frouxa, olhos ainda fechados e pedido de quem não se aguenta de sono: lê...
Sentei ao lado, fui passando as páginas com cuidado e voz leve. Li o livro inteiro para quem já dormia e me encantei com o enredo.
Para quem eu estava lendo, afinal?
Não é lindo ver como a gente se embala nas histórias que nos contam?

Ói, não é bobeira não, te juro! Mas hoje o tempo parou e eu tava lá... Eu não tinha tomado nada, te juro, muito menos fu...
17/11/2018

Ói, não é bobeira não, te juro! Mas hoje o tempo parou e eu tava lá... Eu não tinha tomado nada, te juro, muito menos fumado, sem bobeira, mas o tempo parou, te juro!
Vinha eu mais meu filho caminhando pela Conde de Bonfim -- eita, rua mais cheia de gente, carro, moto, pingo de ar-condicionado... --, ele catou minha mão esquerda -- sim, te juro, foi ele que catou a minha mão, mão de mãe, e não tinha motivo extraordinário pra isso mas foi -- e lentamente carro, moto, cachorro e até pingo de ar-condicionado foram parando e a gente seguiu andando a caminho do metrô.
Parecia cena de filme, te juro, e nem sei o nome desse efeito que fazem, mas eu queria saber dizer o efeito que foi que é pra você entender. Não é bobeira não!
Eu nem quis olhar pro lado, pra ele, tive medo dele perceber que eu tava percebendo alguma coisa que não era pra perceber, achar bobeira e tirar a mão dali... Buscando o encaixe certinho de palma com palma, ele, ele mesmo, por conta própria, ajeitou a mão puxando o movimento pelo dedo do meio, a palma direita dele já faltando pouco pra chegar ao meu tamanho de palma, te juro!
Mas era também aquela palma de um ano, há mais de cinco anos, que eu buscava pela praça escorregando em tentativa de equilíbrio; era aquela palma de dois, há pouco mais de quatro anos, que teimava em embaraçar caminho de braços com caminho de corpo todo e ia se metendo na frente e no meio das minhas pernas, atravessando o caminho; era aquela palma de três, há pouco mais de três anos, que me puxava para o meio da rua porque só queria andar equilibrado no meio-fio, e eu seguia fazendo contenção de fuga pra caminho de carro. Era, enfim, aquela palma de uns quatro, talvez um pouco antes, que já não me queria mais dando mão, te juro, quatro anos apenas, vê se pode!
Chegou a ser a palma de um rapaz mais alto que eu, seu ombro que nem existia esbarrou no meu durante a caminhada lado a lado, e eu senti susto pelo tamanho disso que a gente chama de amor de mãe... Eu não tinha bebido nada, te juro, muito menos fumado, mas foi viagem que aconteceu, talvez dessas que o povo diz que viaja no tempo...
O mais engraçado é que o tempo mesmo tava parado, não é bobeira não, e naquele tempo todo, quando olhei de novo pro relógio da rua -- aqueles digitais prateados que têm um banner logo acima e marca temperatura --, o minuto nem bem tava começando a mudar pro minuto seguinte.
Te juro!

Endereço

Brasília, DF

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