11/08/2021
[Origens]
Você se reconhece ao ver a segunda foto do carrossel?Particularmente, no momento em que eu vejo a pintura, eu olho e me reconheço. Claro que o fato de saber do que se trata facilita essa noção também! Mas simbolicamente, eu vim dali, de alguma maneira.
(a foto é do meu acervo pessoal, tirada no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, sítio considerado berço do homem americano)
Uma das linhas de investigação dentro do meu processo criativo é a busca por elementos da cultura brasileira latino americana na construção do meu trabalho. Eu penso que o movimento que é feito no sentido de entender qual o papel de uma estética na construção social e antropológica de um povo é essencial. Sim, afinal cultura é um conceito antropológico!
A própria arte do grafismo para os indígenas, por exemplo, (e talvez para os ancestrais da Serra da Capivara) não foi originalmente criada "só pela arte". Os grafismos em diversas sociedades representam para os membros desta comunidade, intrincadas e abstratas noções de um código social, além de toda uma cosmologia inerente à sua cultura
Em outras sociedades pode ter outros significados. A própria geometria também é estruturante na natureza, e essa por sua vez sempre foi uma grande inspiração para a arte, desde os primórdios.
Dentro desse meu processo criativo, eu tento sempre encarar diferentes estéticas com respeito, tento não me apropriar de maneira vazia de algum símbolo. Mas também é inevitável pra mim, enquanto afrolatino brasileiro, me questionar se não existe aqui um movimento de reconhecer raízes e origens. Tendo sido criado em uma família comum, sem referência ou exaltação das suas heranças não-brancas, acho que o meu exercício para além dessa busca por autorreconhecimento é também o de questionar o porquê negamos certas origens e continuamos supervalorizando outras.
É um exercício diário para limpar uma visão eurocentrada, um exercício de descolonizar o olhar. E penso que é totalmente contraproducente acreditar na construção de algo diferente sem olhar pra trás, entender certos erros e tentar repará-los de alguma maneira. Caso contrário o presente falido, servirá de estrutura comprometida para o futuro.