13/02/2019
Amigos,
Hoje, dia 12 de fevereiro de 2019, foi lançado, pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, um edital que tem o nome de Seleção para Residência Artística, mas é de verdade um chamamento para a SUBLOCAÇÃO de seis teatros da Rede Municipal do Rio de Janeiro, a saber: Teatro Municipal Ziembinski, Teatro Municipal Ipanema, Sala Municipal Baden Powell, Teatro Municipal Café Pequeno, Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto e Teatro Serrador (link para o edital: http://www.rio.rj.gov.br/web/smc/exibeconteudo?id=9153372).
E o que seria isso?
Resumindo bastante, qualquer empresa que queira trabalhar a programação desses espaços culturais públicos, SEM APORTE DE VERBA DA SMC, terá que entrar no edital com um plano para seis meses, mas poderá explorá-los comercialmente, sendo obrigada a cumprir somente 72 (dos 180 dias) de programação aberta ao público carioca.
Não há prestação de contas prevista no edital dos valores da exploração comercial dos espaços públicos municipais relacionados.
A SMC entra com o aluguel de equipamentos de som e luz, pessoal da limpeza, e paga as contas de água e luz (em tempo: não há serviço de internet nos teatros, como consta do edital; eles são contratados de formas diferentes pelas residências, com a atual verba).
Parece um negócio ótimo, não é?
Não, não é.
A primeira e mais grave consequência deste edital já foi colocada acima: sai perdendo, e muito, o público da cidade do Rio de Janeiro, em dias de funcionamento e em qualidade de programação.
Repito, o público carioca só terá a garantia de 72 dias de programação aberta, durante os próximos seis meses e nos seis teatros que participam do edital.
Nos outros 108 dias, a empresa é autorizada a gerenciar seu espaço objetivando orçamento de manutenção e lucro, como melhor entender.
Trocando em miúdos: qualquer empresa que entre nos espaços terá obrigatoriamente que arcar com uma equipe técnica para receber programação e abrir para o público (apenas) aos finais de semana. Diretor, bilheteiro, técnico de som e técnico de luz são contratações exigidas pelo edital. Só aí, mensalmente, a despesa fixa com pessoal gera a necessidade de se reter grande parte da bilheteria, e de se usar o espaço para aluguel para shows, peças e oficinas. Aluguel, veja bem, não ocupação pública, como deveria acontecer preferencialmente em espaços... públicos.
Para vocês terem uma ideia, o funcionamento pleno do Sérgio Porto, em cinco dias da semana (eram seis quando entramos em 2016, mas com o corte de verbas de 25% do contrato no início do governo Crivella, tivemos que fechar mais um dia), com programação de música, dança, teatro e artes visuais, ocupando simultaneamente três salas, demanda uma equipe ultra profissional de 32 pessoas, entre direção artística e curadoria, administração, produção, técnica e serviço de bar, mais os funcionários da limpeza e da segurança, contratados pela SMC, e ainda, mais 8 profissionais das empresas contratadas responsáveis pelo equipamento de luz e som do espaço.
No novo formato, sem verba alguma, como pagar tantos funcionários para manter a programação atual?
Então, não será possível. Nem pagar tanta gente, nem manter uma programação como essa.
Com o tamanho das salas que constam deste edital, a bilheteria sozinha, se usada 100% pela residência, não paga um grau de atividade como esse nos espaços.
Somente alugando as salas para eventos e cursos fechados será possível fechar a conta de contratação para abrir aos finais de semana.
Resultado direto: menos programação aberta para o carioca.
Ah, mais há no edital a possibilidade de patrocínio das residências, o que resolveria a questão do custo de pessoal.
Ok, mas o edital abriu hoje, e se encerra dia 20 DESTE MÊS, com uma previsão de programação de seis meses.
Quem aí na cidade tem um plano de ocupação pronto E um patrocinador no bolso?
Que patrocinador entrará neste negócio sem poder nem colocar o nome no teatro, o que não está previsto no edital, já que não se assume claramente a parceria público privada que de fato ele é?
Tudo bem, vamos imaginar que, no caso de um plano mágico existir e de um patrocinador incrível ter assinado uma carta de intenção de patrocínio hoje mesmo, que tipo de programação será oferecida ao público carioca, na rede PÚBLICA de teatros, que atenda plenamente ao marketing da empresa patrocinadora?
Quantos assentos estarão disponíveis por sessão ao cidadão, no caso, o pagador dos impostos e verdadeiro dono dos espaços?
Neste edital, perde ainda, e muito, a já combalida classe de produtores artísticos da cidade, todos nós que ainda insistimos em produzir arte que precise de um espaço físico para existir.
Porque, para pagar os custos do espaço e dos funcionários, as empresas residentes provavelmente terão que também reter, como mencionado acima, a maior parte da bilheteria.
Se estivéssemos vivendo tempos gloriosos onde editais e patrocínios fossem abundantes, parte da bilheteria talvez valesse o preço que seria pago para... ter a pauta. Em teatros particulares, pagamos mínimos altíssimos, ainda que confiando que vai lotar, que vai compensar, e às vezes compensa, a depender do sucesso, da lotação, e do elenco famoso da peça, o que configura um modelo comercial de teatro. Ok.
Mas não é esse o cenário, e nem esse o modelo nas salas em questão.
No Sérgio Porto, por exemplo, desde o início de 2016, houve UMA produção patrocinada em cartaz. Desde então, e fora esta, TODAS as produções foram feitas com recursos dos artistas e/ou financiamento colaborativo. Estamos em 2019.
E o Sérgio Porto é um teatro, segundo a própria SMC, onde a programação prima pela experimentação e ousadia na linguagem, o que não configuraria, a princípio, um teatro de perfil comercial, não é mesmo?!
O teatro comercial seria o alvo de programação de uma rede pública? E se a peça é comercial, deveria buscar pauta preferencialmente na rede pública, já tão requisitada por produções que não podem arcar com mínimos altos? Essas perguntas não seriam importantes na hora de se pensar um edital como o das ocupações de espaços públicos?
Então, ao cabo e ao termo, esta Secretaria - que não lançou sequer um edital de fomento para teatro, dança, música, artes visuais etc -, com as condições impostas por este edital, retira agora também as bilheterias das produções que conseguirem pauta nos teatros da rede pública, justamente onde não teriam que arcar com mínimos absurdos, e POR ISSO PODERIAM EXISTIR.
E isso tudo seria uma enorme questão a se resolver em breve, caso essas produções conseguissem pauta nas futuras residências artísticas.
Mas não vão conseguir, não neste modelo.
Não é lógico e cristalino, com os encargos para manter o espaço minimamente aberto, que essa empresa, se for uma companhia de teatro, por exemplo, vá usar as pautas para programar eventos visando o lucro do espaço e da companhia?
Mais ainda: o que poderia dar mais retorno para uma companhia que uma peça... da própria companhia?
Se o Município dá carta branca para ocupar 100% de um teatro com trabalhos da companhia residente, por que cargas d'água ela pautaria uma peça que não fosse sua?
Por que pautar "somente" para atender a demanda da produção artística da cidade por espaço (que no Sérgio Porto é de 95% a mais do que o espaço é capaz de absorver) e se arriscar não ter público, ou seja, a não ter bilheteria?
E se uma peça "pegar", por que não manter a peça em cartaz pelos seis meses do edital?
Por que diversif**ar a programação para atender a diferentes demandas do público carioca trocando de peça a cada mês?
Por que, meu Dioniso, PROGRAMAR UM ESPAÇO PÚBLICO, PENSANDO EM UMA POLÍTICA PÚBLICA DE CULTURA, SE ESTE ESPAÇO PÚBLICO FOI SUBLOCADO PARA UMA EMPRESA PARTICULAR?
Pensando assim, que vantagem incrível para essa empresa, f**-* a política pública de cultura, "tudo o que eu quero é ganhar dinheiro num espaço onde não pago nem luz nem água nem equipamentos, e sem prestar contas de quanto dinheiro eu faço!".
Bora fazer dinheiro!!!!
Bora explorar tudo o que é público!!!!
Bora sugar tudo o que dá!!!!!
Ótimo, mas a empresa que ganhar este edital, além dos salários dos funcionários fixos para cumprir a programação de final de semana exigida no edital, f**a responsável também pelo espaço físico e pela vida de quem nele entrar (ai meu deus, olha mais despesa aí, mais funcionários para contratar...).
Aliás, a SEGURANÇA do espaço, pelo edital, também está a cargo da empresa, e não mais da Guarda Municipal, como é hoje.
Ou seja, a partir do mês que vem, a SMC gasta verba pública em equipamentos de som e luz, instala esses equipamentos em prédios públicos (alguns alugados com verbas públicas), mas passa para empresas particulares toda a responsabilidade de cuidar deles, inclusive da segurança do prédio e do público que ali vai entrar. Nesse tempo de negligência e impunidade totais, bora botar na conta do privado também a segurança dos espaços públicos, por que não?
Vocês sabem quantos teatros têm ou já tiveram problemas estruturais?
Infiltrações crônicas?
Questões de acessibilidade sujeitas a multas?
Vocês têm noção do que é o dia a dia vigiando quem acende cigarro na plateia de um show de música e acha ruim o guarda municipal mandar apagar?
Vocês sabiam que o Sérgio Porto já teve dois incêndios?
Que teve uma goteira que virou uma cachoeira em cima do rack de luz?
Que já foi fechado, aliás como toda a rede, por falta de licença dos bombeiros após a tragédia na Boate Kiss?
Procure saber.
Bom, nem tão bom negócio assim, não é?
O edital que hoje está na praça é um retrocesso.
E um retrocesso de décadas, porque na sua concepção, a Rede Municipal de Teatros já tinha, além de equipamentos de som e luz, funcionários contratados para manter os espaços funcionando e para zelar pelo patrimônio público.
Este edital é um retrocesso porque pensa a programação cultural da cidade como descartável, como atividade não especializada, responsável também pela quantidade de público e de bens culturais que circulam pelo território do Rio de Janeiro.
Esse edital diz, em alto e bom som, que o trabalho que as ocupações vêm fazendo na cidade desde 2010 simplesmente não importa, é considerado nulo, descartável, inexistente por este edital quando ele não prevê verba alguma para contratação de equipes.
Nesses seis teatros, os profissionais das atuais equipes estarão desempregados até o final deste mês, com a certeza de que a esta Secretaria não interessa a mudança que operaram em todos esses anos de trabalho na Rede Municipal.
Por fim, é interessante deixar claro que o acesso à gestão e à programação dos teatros se deu, desde 2010, na Rede Municipal, através de editais, o meio mais democrático de seleção que a própria SMC definiu. Comprovar capacidade de gerir e programar um espaço, bater todas as metas de público e de programação, propor e conseguir do poder público melhorias nos modelos de edital e nos equipamentos nunca é fácil. E nunca foi fruto de indicação, ou apadrinhamento.
Se se quer "democratizar o acesso aos espaços", único motivo alardeado pela SMC em defesa desse edital, por que o plano do edital foi então anunciado pela SMC somente às atuais ocupações, em uma reunião em dezembro passado, onde sofreu inúmeras críticas, nenhuma delas ouvida?
Se se quer democratizar o acesso, por que o edital foi lançado somente hoje, quando duas ocupações terminaram seus contratos no final do mês de janeiro, e coisas absurdas como as relatadas por Benvindo Siqueira no You Tube ( https://youtu.be/VMGTNPHPxQ8 ) acontecem simplesmente por falta de planejamento?
Se se quer democratizar o acesso, por que não se chamou para conversar - EM TEMPO HÁBIL PARA O LANÇAMENTO DO EDITAL - as ocupações, os residentes em lonas e arenas, os artistas produtores, os movimentos e agentes culturais da cidade?
Se a democratização é tão importante, por que esse edital é lançado dessa forma atabalhoada, e com tão pouco tempo para as novas propostas serem pensadas e trabalhadas?
A DEMOCRATIZAÇÃO RESPONSÁVEL do acesso à programação dos espaços por grupos independentes seria perfeitamente possível, e se mantendo exatamente o modelo do edital passado, que permitiu às atuais residências um ótimo funcionamento nos últimos anos. Bastaria se fazer apenas uma ação: derrubar a exigência de um alto valor de capital integralizado das empresas concorrentes. Dessa forma, qualquer empresa poderia concorrer, e se tivesse um bom projeto e a capacidade de implementá-lo, o carioca agradeceria de pé, batendo palmas, como acontece nos teatros da rede.
Esquecer que programação de espaços públicos se faz pensando no público carioca e na produção artística de uma cidade como o Rio de Janeiro - e não em maquiar a falência de uma administração - não é democratizar. É tentar fazer mais uma vez o público e os artistas de bobos. Tentar.
Equipe do Projeto_ENTRE, responsável pela programação do ECM Sérgio Porto.
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