06/10/2023
Crônica
Fome de tudo
Coluna da Lu Mota
Ainda lembro cada cantinho de nossa casa lá na Boa Vista.
Lado esquerdo sentido Barra/interior. Um pequeno batente na porta que dava direto para o caminho. Apenas seis paredes. Quatro paredes no quarto, uma na frente e uma na lateral. Da sala sem nenhum móvel, desciam três grandes degraus para a cozinha sem nenhuma parede, e um jirau que dava para fora e de onde escorria a água que íamos usando na casa.
A cozinha também não tinha nenhum móvel. Na parede um toco parecendo uma cunha recebia o gibão e a perneira que meu pai usava para vaquejar. Nosso porto era pertinho de casa, lindo! Mas tinha uma taipaba* brava para atravessar nadando.
Descendo no sentido bairro/Barra, a primeira casa era a Escola, a quase uma légua de distância. Na Escola todos os alunos estudavam na mesma sala, o quadro negro era pequenino e o giz era quase objeto sagrado. A merenda era resina de angico, tamarindo, manga. Tudo encontrado pelo caminho.
Minha primeira professora era minha tia Paizinha e depois, minha tia Neide Castro. Muitas lembranças indeléveis. Todos nós carregamos as memórias da infância e quase sempre com muita saudade, porque nessa época, estamos descobrindo a vida, as coisas, as pessoas. Tudo é novo, e sequer imaginamos o que há la fora de nossa porta. Não dá para imaginar uma casa de tijolos, com paredes pintadas, pessoas com roupas novas e bonitas andando em ruas asfaltadas e bebendo K'suco a vontade.
A miséria disfarçada de pobreza é dolorosa e não é nada romântico morar em casa sem paredes, cobertas com palhas de babaçu. É bucólico para ser olhada, de longe, sem sequer imaginar quem está lá dentro, deitando quando escurece, porquê não tem querosene para a lamparina ou cera para o murrão*.
Mas temos que carregar a luz acesa em nós. E não deixá-la se apagar. É com essa luz que me guio para além da fome e das dores da falta de tudo.
"A fome é uma das maiores dores que um ser humano pode sentir. Ela aniquila sonhos, mata a esperança e desconfia da fé. A fome não doí apenas na barriga, doí na alma, dói em cada filho e dói dobrado no pai e na mãe que choram antes dos filhos que esperam o almoço ou jantar. Porque os pais já sabem que não têm o que cozinhar."
*1 taipaba-correnteza
*2 murrão-vela feita com cera de abelha e tecido
*Lu Mota é titular da Academia Barra-cordense de Letras.