02/10/2023
Dizem, que quando a vida se empenha, e, nos toma de assalto e susto, em suas múltiplas demandas, a arte aguarda, até que tudo, finalmente, decante e, só então, ela possa começar a realizar seu lento trabalho de apuração e depuração e, talvez, criação.
Estou aqui decantando e me sentindo alegremente surpreso, nesta saudade da distância, em que me reconheço e gosto de estar novamente.
Desta distância que permite ver o que se passou com mais nitidez, pródiga em nos fazer enxergar o que a proximidade excessiva se recusa e ignora
Esta cegueira terrível, de quem vive, o que se vive, quando se está vivendo.
Faz tempo que não encontro o tempo necessário, do lado de dentro, para escrever aqui, e poder me ler e me ouvir e só pra isto, e por isto, existir.
Nos últimos cinquenta dias, décadas se passaram. Com seu gigante poder de encantamento, de solicitação inegociável de presença, de ações inadiáveis, e prementes, e sequenciadas, e de uma exaustão fértil, de tantas outras e cansaços revigorados.
Mas, o que é fluxo, cedo ou tarde, encontra seu refluxo
Estou no meu .
E olho o mar, do porto, sem querer saber o que há para além do horizonte, pés fixos, no enraizado sentido do que basta. E se basta.
O projeto palavra viva celebra sua nova fase. Sua nova gestão. Sua nova companhia. Seu novo pertencimento. Sua palavra aberta em forma de fogo e asas e céu vermelho.
O que Ulisses sentiu, ao olhar para o mar, depois de seu retorno a Ítaca, retomada a pulso forte a vida, ninguém falou ou escreveu.
É neste silêncio que mergulho e me aconchego.
Um silêncio escuro como um breu .
Onde a luz não é bem vinda e o esquecimento é uma dádiva e uma recompensa.
Como diz Padre Diego: "a escuridão é o grande destino de todas as coisas ... é pra lá que nós vamos, todos. E é para lá, também, que se seguirão, um a um, nossos amores, nossos sonhos, nossos mais íntimos demônios."
Que benção.
Evoé Baço.