24/01/2024
"Um corpo que cai": forma, busca pela verdade e espelhos
Mesmo não se tratando de um filme metalinguístico, "Um corpo que cai"/"Vertigo" (1958), de Alfred Hitchcock, talvez seja uma das obras mais metalinguísticas da história. Explica-se: a trama trata, em seu âmago, nada mais nada menos, sobre algumas questões caras para a arte, especialmente do cinema.
Primeiro ponto: a busca por uma suposta verdade e um hipotético real jamais visto, jamais tocado, jamais palpável. A farsa anda de mãos dadas com a dramaturgia e o realismo nunca será o real, sendo que nem este último de fato existe. Ambos são impossíveis. Conjectura-se ser o cinema um amálgama de farsa e fantasia - dir-se-ia até mesmo surrealismo, pois é, também, um sonho, um delírio, uma quimera -, que, mesmo quando calcado no real, nunca o atinge nem o bordeja. "Um corpo que cai" questiona inicialmente, assim, o real buscado, mas nunca alcançado pelo cinema. Isso se dá ao fazer uso do formalismo e argumentá-lo em imagens, o que se vê, principalmente, com a técnica, em essencial aquela que ilustra a vertigem de John Ferguson, o protagonista, causada por sua acrofobia (pânico em lugares altos): o zoom out aliado ao travelling - movimento de câmera em trilho ou carrinho - para a frente. A acrofobia de John é compartilhada com o espectador. Ela não seria nada mais do que seus mais profundos pavores despertados pelo além do real (o surreal, o onírico) do cinema? Tal coisa aparece nos sonhos de John, que ilustram e resumem metaforicamente o produto mais básico do cinema: o devaneio. Isso sem se contar o ar de fantasmagoria da trama, com pontos não explicados por Hitchcock.
No artigo "Pintura e cinema", do livro "O que é o cinema?", o mestre André Bazin afirma: "os limites da tela não são, como vocabulário técnico daria por vezes a entender, a moldura da imagem, mas a máscara que só pode desmascarar uma parte da realidade" (2014, p. 206). Indo de encontro ao pensamento de Bazin, Jacques Aumont, em "O olho interminável (cinema e pintura)" aponta que "o quadro fílmico, por si só, é centrífugo: ele leva a olhar para longe do centro, para além de suas bordas; ele pede, inelutavelmente, o fora-de-campo, a ficcionalização do não-visto" (2011, p. 111). O quadro pictórico (a pintura) mostrado pela câmera de Hitchcock pelos olhos de John e Madeline, a outra personagem principal, é centrípeto, leva o olhar ao centro, mas se faz isso através da tela cinematográf**a, que conduz para além das bordas. Ironia é paradoxo puros! Já as imagens da vertigem de John sob seu ponto de vista, mesmo em um primeiro momento trazendo ao centro, ao final elas vão na direção do espectador, principalmente com o efeito utilizado por Hitchcock.
Segundo ponto: o espelhos causados pelo cinema. Não o espelhar-se como identif**ação pura e simplesmente, mas a busca por um espelhamento jamais alcançado, uma fantasmagórica duplicidade. Novamente tem-se aí uma metalinguagem involuntária e subjetiva. John, policial aposentado, que havia sido contratado por um amigo para vigiar Madeline, esposa deste último, se apaixona por ela e a vê pular do alto de uma igreja, não conseguindo fazer nada devido à sua vertigem. Após isso, John passa a ver Madeline em varias mulheres parecidas pelas ruas, tornando-se algo como uma obsessão. Algum tempo depois, ele encontra uma sósia, uma espécie de duplo, completamente diferente na forma de se vestir e na cor e forma do cabelo, e tenta transformá-la em Madeline, isso enquanto busca, tal como o público, a verdade. Ora, a audiência sempre não tenta ver e transformar, obsessiva e inutilmente, o filme à sua imagem e semelhança? Para que servem, afinal, as exibições de teste em Hollywood, as quais os espectadores opinam sobre a obra? Tudo isso são meros artifícios e objetivos visados pela indústria do entretenimento: fazer o público espelhar-se de alguma maneira no que vê na tela.
Enfim, "Um corpo que cai", mesmo com seus aparentes defeitos em conteúdo, é uma maravilha em forma e metalinguagem pura, mesmo que o seja nas entrelinhas...