25/07/2023
A corneta
Leonora Carrington
Este foi o livro escolhido pelo , clube de leitura que acontece na e mediado por e . Neste dia, além das duas, tivemos a presença da tradutora . Voltando ao livro, o que me levou a participar, a princípio, foi a capa, ilustrada com uma pintura da própria autora: uma mulher gigante, descalça, tendo árvores na altura do tornozelo – tal a sua proporção frente a paisagem. A mulher tem um vestido longo encarnado e, sobre ele, um manto branco por onde se insinuam pássaros, além dos que voam, como se fossem a estampa em tridimensão. Os braços da mulher estão escondidos sob este manto. Apenas as mãos seguram cuidadosamente um ovo (que parece ser de madeira como aquele que minha vó cerzia meias). A cabeça é pequena, desproporcional ao corpo, com uma cabeleira loira e muito crespa. Atrás da mulher, o céu, o horizonte e o mar, onde navegam barquinhos. Ainda não cheguei no livro, mas é que a capa guarda influência de Remédios Varo, pintora surrealista que admiro, a atração f**a justif**ada. Não sabia que as duas artistas eram muito amigas.
Leonora foi uma pintora e escritora surrealista, que viveu a maior parte de sua vida no México, foi amiga de muita gente importante. Digo que foi uma surpresa encontrar um livro com quase 50 anos, foi lançado em 1976, que por meio do humor e do nonsense, aborda questões atualíssimas. Olhem como começa: a nossa protagonista/narradora tem 92 anos e é praticamente surda, ganha da melhor amiga uma corneta auditiva e a partir daí… ela passa a ouvir. Com a corneta ela ouve uma conversa do filho, mulher e neto que pretendem mandá-la para o asilo. Podem imaginar o que acontece a partir desta revelação? Marian (narradora) e Carmella (inspirada em Remédios Varo) controem uma lógica de quem tomou chá de cogumelos mas numa sincronia de relógio suíço. Brincadeira a parte, tudo a partir daí é surreal, o asilo onde os vários edifícios tem formatos distintos: bota, bolo de aniversário, cogumelo. Quem poderia segurar essa história na realidade?
(Texto continua nos comentários)