23/03/2026
COMPOSITORES BRASILEIROS: Dona Ivone Lara
Parte 5
Olá!
Em nosso último encontro, vimos que Yvonne Lara fez história em 1965 ao tornar-se a primeira mulher a integrar oficialmente a ala de compositores de uma escola de samba. Aos 44 anos, ela superou o preconceito de uma época restritiva ao assinar, junto a Silas de Oliveira e Antônio Bacalhau, o clássico samba-enredo “Os Cinco Bailes da História do Rio” para o ”G. R. E. S.” “Império Serrano”, conquistando o reconhecimento do público e da crítica no Carnaval daquele ano, rompendo as barreiras do machismo, e consolidando seu legado no samba.
Hoje, veremos sua consagração na década de 1970, as gravações de seus primeiros discos solos, suas composições gravadas por grandes cantores, e a conquista do seu lugar na Música Popular Brasileira.
CONSAGRAÇÃO
A década de 1970 marcou a consagração definitiva de Yvonne Lara, que transpôs as fronteiras do Carnaval para conquistar o cenário musical brasileiro.
Com a morte do parceiro musical Silas de Oliveira no início dessa década, encontrou em Décio Antônio Carlos (Mano Décio da Viola) um parceiro histórico, união que projetou sua obra para novos públicos.
Sua ascensão foi impulsionada por participações estratégicas na mídia de massa como nos programas de Chacrinha (TV Globo) e de Adelzon Alves (Rádio Globo), e redutos intelectuais como o “Teatro Opinião”, dividindo o palco com ícones como Nara Leão.
Aclamada pela crítica como uma das maiores melodistas do país, consolidou sua marca registrada: a criação de melodias sofisticadas que recebiam versos de seus parceiros de composição.
Sob a tutela de produtores como Osvaldo Sargentelli e Adelzon Aves, ela se firmou como uma das maiores melodistas do país.
Este processo de consagração teve um marco inicial em 1970, com sua participação no álbum coletivo “Sargentelli e O Sambão – Ao Vivo”, onde registrou parcerias com Mano Décio: “Agradeço a Deus” e “Sem Cavaco Não”.
Durante a década de 1970, Yvonne viajou à França com o “Império Serrano” para uma turnê internacional.
CURIOSIDADE:
Yvonne faltou ao trabalho como assistente social para realizar o sonho de cantar e desfilar em Paris. Ao retornar, foi confrontada pelo chefe, que havia descoberto a “escapada” através de uma foto sua na revista “O Cruzeiro”. Ele a avisou, de forma irônica, que ela seria suspensa caso tentasse usar uma doença como desculpa para a ausência.
A ORIGEM DO ‘DONA’
O nome artístico “Dona Ivone Lara” surgiu em 1970, na gravação do LP “Sargentelli e o Sambão – Ao Vivo”. Criado por Sargentelli e Adelzon, buscando profissionalizar e conferir imponência à cantora e compositora, que inicialmente relutou por se achar jovem demais para o tratamento. Abrasileiraram seu nome “Yvonne” para “Ivone”, e o “Dona” acrescentado ao seu nome firmou-se como um título de respeito e pioneirismo no samba.
1974: O ANO DA ASCENSÃO
O ano de 1974 foi um divisor de águas na carreira de Dona Ivone Lara, consolidando sua transição definitiva para os palcos.
Nesse ano, produzida pelos agitadores culturais Sérgio Cabral e Albino Pinheiro, Dona Ivone realizou seu primeiro show solo na boate “Monsieur Pujol”. Pouco depois, levou seu talento ao emblemático “Teatro Opinião”, onde foi acompanhada inicialmente pelo grupo “Nosso Samba” e, posteriormente, pelo “Exporta Samba”.
Também nesse ano, ao lado de Roberto Ribeiro, participou do “Projeto Pixinguinha”. No espetáculo, ela não apenas cantava, mas também resgatava suas raízes ao dançar o jongo, herança direta das tradições africanas e dos pontos de umbanda.
Ainda nesse ano, sua faceta como compositora ganhou ainda mais força através de outras vozes e registros fonográficos:
• Cristina Buarque: gravou as canções “Agradeço a Deus” e “Confesso”.
• LP “Quem Samba Fica”: Sob produção de Adelzon, Dona Ivone participou deste disco ao lado de nomes como Casquinha e Wilson Moreira, interpretando clássicos de sua autoria como “Tiê”.
TRAGÉDIAS FAMILIARES
O ano de 1975 foi marcado por tragédias familiares: Odir, o filho mais velho de Dona Ivone sofreu um grave acidente de carro, o que impactou profundamente a família, e nesse mesmo ano, Oscar, seu marido, faleceu em decorrência de um infarto fulminante.
1977: DEDICAÇÃO EXCLUSIVA À MÚSICA
Embora, Oscar nunca tivesse se oposto à carreira musical de Dona Ivone, ciumento, a mantinha com certa distância das rodas de samba, ambiente que ela tanto amava.
Passados dois anos da morte do marido, se aposentou em 1977, após ter dedicado 38 anos ao serviço público como Enfermeira e Assistente Social, e a partir de então ingressou oficialmente na vida artística, dedicando-se integralmente a música.
1978: O ÁPICE E A IMORTALIZAÇÃO DE “DONA IVONE LARA"1977:
O ano de 1978 marcou o início tardio, porém triunfal, da carreira artística exclusiva de Dona Ivone: seu disco solo de estreia, “Samba, Minha Verdade, Samba, Minha Raiz”, produzido por Adelzon Alves, é considerado até hoje por muitos, o ápice de sua discografia.
Com 12 faixas que exaltam suas raízes no “Império Serrano” e na “Prazer da Serrinha”, o disco revelou a força de seu canto e a parceria prolífica com Mano Décio. Curiosamente, foi nesse lançamento que o título “Dona” foi imortalizado: aos 56 anos, Ivone resistia ao tratamento por se achar jovem demais, mas à revelia da artista, Adelzon enviou a arte do disco para a gráfica com o nome “Dona Ivone Lara”. O pronome carinhoso não apenas ‘pegou’, como se tornou indissociável de sua majestade no samba.
Esse ano também marcou o encontro definitivo de Dona Ivone com o grande público através do samba “Sonho Meu”. Composta com Délcio Carvalho, outro parceiro constante, a canção tornou-se um fenômeno ao ser gravada por Maria Bethânia e Gal Costa para o álbum “Álibi”. O sucesso foi estrondoso: o LP de Bethânia ultrapassou a marca histórica de um milhão de cópias vendidas, imortalizando a composição de Dona Ivone como um dos maiores hinos da Música Popular Brasileira.
A ATRIZ
Nesse mesmo ano, enquanto estreava oficialmente na discografia brasileira, Dona Ivone também brilhava nas telas de cinema. Sob a direção de Iberê Cavalcanti, ela integrou o elenco de “A Força de Xangô”. No longa, a sambista interpretou ‘Zulmira de Iansã’, uma mulher profundamente apaixonada pelo personagem Tonho Tiê (Geraldo Rosa). A trama a colocava em embates memoráveis com rivais como Iaba — um exu personificado por Elke Maravilha — em um elenco de peso que contava ainda com ícones como Grande Otelo e Zezé Motta.
1979: CONSOLIDAÇÃO E CARREIRA INTERNACIONAL
Em 1979, novamente com produção de Adelzon, Dona Ivone lançou o LP “Sorriso de Criança”, que contou com os arranjos do maestro Nelsinho e as participações ilustres de Rosinha de Valença no violão e Clara Nunes no coro.
Embora seu primeiro disco não tenha sido recordista de venda, ela já desfrutava de um prestígio nacional consolidado. Seu verdadeiro trunfo eram as composições imortalizadas nas vozes de grandes nomes da Música Popular Brasileira como Caetano Veloso, Clara Nunes, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Roberto Ribeiro. Prova disso é que, em nesse disco trouxe um ‘pout-pourri’ de clássicos autorais consagrados na voz de outros artistas — como “Sonho Meu” e “Acreditar”.
Nesse mesmo ano, fez uma temporada de shows em Paris, com o grupo “Brasil, Canta e Dança”.
Em 1980, lançou o LP “Serra dos Meus Sonhos Dourados”.
Continuamos no próximo encontro.
No vídeo de hoje, ouviremos o samba “SONHO MEU” (Dona Ivone Lara & Délcio Carvalho, 1978), interpretada por Maria Bethânoa & Gal Costa (“Álibi”: Polygram/Philips, 1978).
Lançada em 1978, “Sonho Meu” é uma composição de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho que se tornou um marco da música brasileira. A canção é um hino de saudade, resistência e esperança, utilizando a figura do "sonho" como um mensageiro para alcançar quem está distante.
Segundo o jornalista Lucas Nobile, na biografia “Dona Ivone Lara – A Primeira-Dama do Samba”, a música ganhou uma dimensão política profunda devido ao período em que foi lançada. Em meio ao debate acalorado sobre a anistia dos presos e exilados do regime militar, a letra — que fala sobre o desejo de reencontro e liberdade — acabou se tornando um dos símbolos da luta pela redemocratização.
Abraços,
Marcelo Gonçalves,
Provided to YouTube by Universal Music GroupSonho Meu · Maria Bethânia · Gal CostaAlibi℗ 1978 Universal Music LtdaReleased on: 1978-01-01Producer: Perinho Al...