14/02/2021
A CASA MAL-ASSOMBRADA DE ELIHU ROOT, E A HISTÓRIA DA MISTERIOSA CAPELINHA DE SANTA CRUZ DA NEGRA AURORA
Dentre as inúmeras histórias misteriosas ocorridas na Araras antiga, a de que hoje tratarei marcou época, o que se deu no ano de 1964. Tratava-se de um caso do conhecido fenômeno poltergeist, que, segundo os parapsicólogos, se manifesta em residências onde há a presença de certas crianças em fase de puberdade, que são as maiores vítimas dessa insólita energia vibratória desconhecida.
Uma matéria publicada num exemplar do jornal Tribuna do Povo, em 29 de agosto de 1965, com o título “Fenômenos estranhos em Elihu-Root”, dizia:
“Há duas semanas começaram os fenômenos estranhos, envolvendo adultos e crianças residentes num sítio localizado a menos de 1 km da estação de Elihu-Root.
Primeiro foi D. Aparecida Brufatto, de 48 anos de idade, que ao lavar roupa no ribeirão distante 300 metros de sua casa, foi surpreendida por chuva de pedras e cacos de tijolo.
Dias depois, os filhos de d. Francelina Ventura, foram à horta colher verduras, quando de repente uma saraivada de pedras os atingiu. Apavorados, correram para sua casa, entretanto, apesar disso, continuaram as pedras a cair, agora dentro da residência. D. Francelina, não teve outro recurso do que sair correndo com os filhos em direção a estação de Elihu Root. Mas esta providência nada adiantou, porque pela estrada afora, o estranho fenômeno persistiu, não conseguindo d. Francelina e os filhos escaparem às pedradas vindas não se sabe de onde.
Sabedor dos acontecimento em casa de sua filha, o Sr. Antônio Pinheiro para lá se dirigiu, revoltado e praguejando em desafio, para que as pedras também caíssem sobre ele, caso o fenômeno de fato existisse. Daí em diante, foi ele o alvo da chuva de pedras, f**ando seriamente atingido.
Outro fato, presenciado por testemunhas como outros acima, foi a queda de um machado do alto de um dos cômodos da casa de D. Francelina, sem que ninguém interferisse para derrubá-lo.
A causa desses fenômenos, ao que parece é a menina de 13 anos, filha de D. Francelina e do Sr. Sebastião Ventura, lavradores e residentes na casa em evidência. A garota está internada no Sanatório Luiz Sayão, sob observação, a fim de esclarecer esses fenômenos que cessaram após a retirada da menina de sua casa.”
Dizem os antigos que quando se deu este fenômeno houve verdadeiras romarias de pessoas para tentar ver o fenômeno. Segundo o finado Virgílio Buzon, a casa onde acontecia os fenômenos f**ava próxima ao bambual do Centro Rural, portanto, a capelinha de santa cruz de que trataremos a seguir f**a distante do sítio onde ocorreu fenômeno, se situando ela (casa ainda exista) adiante e à leste da capela N. S. da Piedade, aquela singela igrejinha que f**a num pasto à direita da venda citada adiante.
Uma capelinha de Santa Cruz envolvida no fenômeno
O escritor Fernando Zurita Fernandes, em seu livro Contos da Madrugada (2001), menciona esta capelinha e o fenômeno de poltergeist no conto A Capelinha da Estrada. Não se sabe se é um conto inspirado na historia (ou folclore) que dela resultou, ou se realmente ele ouviu as historias e as reproduzius fielmente em seu livro. O mesmo afirmou que a cada vez que o historiador lhe contava a historia dessa capelinha, “a narrativa ganhava novas cores, novas personagens, ao sabor da imaginação e da verbosidade do contador (...)”. Diz ele que o fato se deu no tempo dos barões do café, quando um beato, protegido pelos mesmos – “do qual era recadeiro e executor das missões mais sórdidas e anônimas” –, engravidou uma jovem e a abandonou em seguida. O pai e os irmãos, certa noite, armaram uma tocaia para o beato e o mataram. Dias depois os urubus denunciaram o seu cadáver. O historiador contou-lhe que
“No se julgamento, (...), fora-lhe imposta uma difícil e quase impossível tarefa: que pessoas pias e caridosas lhe encomendassem, cada uma, missas em intenção da sua mísera alma. (...) aquela pobre alma se libertaria (...), no momento em que as tais missas atingissem o número de nove mil e novecentas e noventa e nove – e mais uma.”
Fernandes, se referindo ao poltergeist, ainda escreveu:
“Desde então, sete dias depois do acontecido, e por anos até os dias de hoje, os incautos viajantes que por lá passam são perseguidos por uma saraivada de pedras, somente delas se libertando, sob a formal promessa de mandarem rezar uma das milhares de missas impostas pela derradeira Corte.”
O desfecho, que explica o porquê do poltergeist, é incrível: afirma que as pedradas lançadas aos que por ali passavam, era uma forma de lembra-lhes que deveriam, de acordo com a “celestial sentença”, mandar rezar a missa pela salvação de sua alma. Mais incrível ainda, foi afirmar que, mesmo depois de morto, o beato lançou mão da “violência” para aliviar a sua pena, “(...) bem ao sabor de seus hábitos e costumes em vida (...)”.
Fernandes, mesmo céptico quanto ao fenômeno, não foi contemplado com a saraivada de pedras ao visitar a capelinha, mas estranhou que o terreno em volta dela, chão de terra batida, estivesse repleto de pedras e pedregulhos!...
A história da capelinha
As informações à respeito desta capelinha santa cruz, conhecida pelos moradores o local como Santa Cruz da Negra Aurora, foram-me passadas pelo senhor José Zorzenon Filho, 80, em 18/09/1999, que desde sua infância morou no Elihu Root. Disse-me este que senhor que esta capelinha foi erigida há mais de 50 anos atrás, quando ali, no local onde ela se ergue foi encontrado o cadáver de um “caboclinho” chamado Amantino Lopes. Era um negrinho forte, de corpo atarracado, que vivia na antiga venda do Alfredo de Souza, hoje desativada. Contou-me que ele era um rapaz muito briguento, com um cacetinho na mão, era capaz de enfrentar meia dúzia de homens numa contenda.
A santa cruz que ali está, não é a original, que se situava neste mesmo local, o antigo sitio São Sebastião. Sua reconstrução data de meados do século 20, promovida pelo senhor Joaquim Marques, quando este comprara a fazenda onde hoje ela se encontra. Aurora era o nome de uma negra, um tipo popular daquele distrito, que era vista sempre perambulando pelas estradas, carregando um feixe de lenhas sobre a cabeça. Esta santa cruz foi o lugar que ela elegeu para ser sua moradia, e ali passava seus dias e noites.
A Parapsicologia explica o fenômeno
Quando examinados por parapsicólogos ─ que classif**am o fenômeno como Psicocinésia Recorrente Espontânea ─, os adolescentes vítimas dos distúrbios quase sempre apresentam nestas ocasiões manifestações de clarividência a um nível elevadíssimo e sobretudo incomum. Como fator mais intrigante devemos ressaltar que as pedras que frequentemente são arremessados não existem nas proximidades da residência atacada. Às vezes, os objetos subitamente animados de movimento e que se deslocam de forma inexplicável apresentam-se quentes e por vezes escaldantes. Contadores Geyger detectaram elevadíssimos níveis de radiação nos objetos envolvidos no fenômeno. Uma matéria publicada na revista médica norte-americana MD em janeiro deste mesmo ano, afirmava o seguinte em relação ao fenômeno:
“O aspecto mais estranho da manifestação Poltergeist está na violação dos princípios balísticos: dezenas de observadores atônitos viram objetos cruzando o ar a velocidades incrivelmente baixas e descrevendo trajetórias curvas impossíveis, até mesmo círculos; os objetos também pairam, quietos, e pousam com tanta suavidade que nem mesmo a frágil porcelana se parte…”
Final feliz...
Por fim, a história da casa mal-assombrada do Elihu Root teve um desfecho tão hilário quanto inusitado: no início de setembro deste mesmo ano, uma pequena nota publicada no Tribuna do Povo, sob o título "Espírito", dizia:
"Depois de terminado o jogo que envolveu Independente e Santa Cruz, a equipe ‘Canarinha’ foi apedrejada pelos torcedores locais. Agora é o caso de perguntar. Será que o ‘espírito’ mudou de Elihu Root para Santa Cruz?
* Tenho inúmeras histórias destas que recolhi tempos atrás, e que pretendo um dia, quem sabe, reunir num livro com o título "Assombrações da Araras Antiga".
Postagem: Wenilton Daltro