07/03/2021
Salve, caras e caros! Blz por aí? Saiu meu primeiro curta "Convite à Poesofia: pedra, espanto e consciência", com direção e roteiro de Michael Douglas ! Trampo feito com muito carinho! Ajudem na divulgação, personas! Abraço! Abaixo segue um belo release escrito pelo grande Marcelo Garcia Navarro .
Sigamos!
Obra prima
Para apontar um trabalho artístico como sendo uma verdadeira obra de arte, tem-se como obrigação dizer o porquê tal trabalho é uma obra de arte. O objetivo é ousado, mas aceito o desafio, e a obra prima a qual me refiro é o curta-metragem Convite à Poesofia, de Tadeu Marcato, com roteiro e direção de Michael Douglas.
Começo pelas palavras que têm forma poética, porém são, também, uma provocação filosóf**a. Essa criação toca o indivíduo pelas palavras vistas como poema, ao mesmo tempo que o faz pensar em sua própria vida e a sociedade em que vive, como provocação filosóf**a. Dessa forma, demonstro duas perspectivas que agem simultaneamente, a poesia e a filosofia. Bachelard, filósofo francês, diz que a poesia e a filosofia é que podem imaginar um mundo melhor, outro mundo. Não sou otimista. Voltamos a essa questão mais à frente.
O conteúdo é outro ponto necessário para que eu prove que Convite à Poesofia é uma obra prima. O poema traz à lembrança de que a existência é única, como uma verdade irrefutável e questiona o que fazer com essa única existência, o que fazer com uma única vida. Depois do problema da existência, aparece nosso segundo problema: que a vida é dominada pelo relógio, pela razão, razão capitalista. A rua sem pressa provoca a quem tem pressa. É a busca de Sísifo que foi condenado pelos deuses a empurrar uma pedra pesada até o cume da montanha e quando a pedra rolasse montanha abaixo ele devia repetir a atividade pela eternidade. Nossa busca é f**ar livre dessa tarefa.
O ser humano de nossos dias é Sísifo repetindo a tarefa como se fosse algo como sendo natural, um mito contemporâneo. Para o poeta, não ator, que caminha diz que há mecanização das pernas para seguir os ponteiros do relógio. E assim as entranhas tocam a consciência. Segue-se então o não caminho, em outra palavra, um descaminho que leva para os sonhos e aspirações do indivíduo e as transformam em ilusões inalcançáveis. No passo dado dentro dessa realidade há o descompasso com aquilo que se quer viver. Não há certeza nenhuma. Diógenes, filósofo grego cínico, grita ao poeta: Parrésia, que em grego signif**a franqueza, confiança ou ousadia. E com a lanterna de Diógenes o poeta procura a si mesmo, começando na compreensão de si mesmo. A partir daí perguntas surgem: “Quem sou eu nesse mundo? Que valores carrego dentro de mim? São autênticos e foi eu que os escolhi? “A questões brotam na mente, mas não há certeza de nada. E, não tendo certeza de nada, se abre a possibilidade de mudança do indivíduo e da sociedade em relação a dominação do tempo vivido e dominado pelos ponteiros capitalistas.
Palavra e conteúdo, os primeiros pontos que tratamos aqui, casam-se com a linguagem cinematográf**a - luz, câmera, ação- nosso terceiro e último ponto para afirmar que Convite à Poesofia é uma obra prima. Ao denunciar a rapidez imposta pelo relógio, a narrativa e as cenas são lentas, f**a claro que essa contradição se impõe como necessária. Como alguém que diz pra si mesmo: “Não, não corro mais, só se quiser”. As palavras e o conteúdo confrontam, flagrantemente, com a construção cinematográf**a. A opção pelo preto e branco e seu jogo de luz e sombras, que são também parte do cenário, me leva a considerar influências dos filmes caracterizados por filmes Noir, negro traduzido para o português, também me remete ao expressionismo alemão e ao realismo italiano, mas me concentrarei no cinema Noir francês, pois ele não se limita ao universo psicológico do indivíduo, apesar de não o abandonar. Na trama considera, fortemente, o ambiente social como também culpado pelos direcionamentos das pulsões do indivíduo, talvez, seja o fator que tenha mais relevância nesse processo psíquico. A narrativa é quase toda em off, que dá mais dramaticidade nas reflexões postas.
Nota-se a estética do Cinema Novo, apesar da narrativa ser, ou parecer, muito individual, na realidade ela trata de questões universais do ser humano dos dias contemporâneos, estamos imersos no tempo do capitalismo, no tempo dos ponteiros, do relógio. Cenas são gravadas em lugares de partida e de chegada, onde o atraso causa prejuízo, terminais ferroviários, rodoviários e de integração urbana. É o homem da rua, o passante, uma corrente do expressionismo alemão utilizou muito essa figura, só que se tratava do burguês frustrado que procurava na rua sufocar suas frustações e não conseguia. Em alguns momentos a câmera segue o não ator, coisa que Glauber Rocha fazia muito, mostrando a realidade de forma crua e só se pode mostrar tal realidade pela lentidão das imagens e da narrativa, que é uma proposta ousada, na qual as cenas são mais longas. Não sei se Tadeu Marcato e Michel Douglas tiveram isso em mente ao produzir essa obra de arte, porém, as referências estão bem claras, talvez vieram do inconsciente, mas é fato que se trata de uma produção belíssima e é com merecimento que receberam o Prêmio de incentivo à Cultura Aldir Blanc, pois trata-se de uma obra prima.
Marcelo Garcia Navarro,
graduado em Filosofia,
mestre e doutor em Educação.
A apresentação desta sequência poética-reflexiva traz questionamentos sobre alguns dos vários dilemas e incertezas presentes na vida humana. Os poemas serão ...