29/08/2022
A primeira vez que vi Tadeu Matera, recém chegado em São Lourenço, no verão de 1981, ouvi dele uma história dramática sobre sua mudança,de uma cidade vizinha, para cá
O artista plástico brilhante e leitor compulsivo sempre foi um mestre da conversa. Em sua fala o nonsense e o erudito eram conjugados no mesmo parágrafo, revelando uma crítica ácida e cortante da realidade e desequilibrando qualquer tentativa de normalidade.
Por horas conversávamos ao telefone, ele com sua capacidade única para apelidar pessoas e espaços, sintetizava suas leituras, situando-as naqueles dias e lugares, mesclando seu olhar agudo da realidade à uma capacidade imaginativa, que só a genialidade comporta.
Pintou, esculpiu, escreveu, jogou bola, casou, teve filhos, namorou, casou de novo, mais filhos e nos fez rir sempre e refletir muito.
Sua obra exuberante mistura escorridos com delineados, transparências e relevos, luzes e trevas. E como na vida, seus quadros refletem: o trágico e o transcendente. Seu trabalho tem forte influência do expressionismo-abstrato, e traz uma atmosfera onírica, própria do surrealismo, vigorosamente, reeditado pela arte contemporânea.
Como era de se esperar, Tadeu nunca se rendeu às regras do mercado de arte.
No dia de sua morte, teve chuva e arco-íris, teve um estranhamento geral, porque com ele a morte não combinava. Tadeu Matera pulsa na obra, que deixou espalhada nas paredes dos seus filhos, dos seus amigos e de seus amores. Mas que é, injustamente, desconhecida do público em geral. É hora de corrigir esse lapso, porque sua crítica, seu humor e seu talento nos fazem falta.
Muita falta.
Selma Bajgielman