26/10/2025
A injustiça que a classe teatral tem cometido contra esta combatente artística revela-se gravíssima. Marisa Francisco Júlio consolidou o seu nome como uma das maiores influenciadoras do teatro nacional, conquistando esse lugar com trabalho árduo, genialidade e total entrega à arte.
Marisa Júlio extrai a criação das entranhas e a oferece ao público com autenticidade e visceralidade. Rompeu paradigmas através da sua escrita dramatúrgica, assinando obras que alcançaram enorme reconhecimento de crítica e público: A Bela e o Monstro, Cuidado com a boca, o Resultado, Escrava da Cama, O Verdadeiro Sangue, Distância não é barreira e Escrito nas estrelas.
A sua trajetória soma distinções de alto prestígio, como o melhor grupo no festival de teatro da samba, Globos de Ouro Angola na categoria de Melhor Encenadora, e o Prémio Nacional de Cultura e Artes na categoria de Teatro, além de outras honrarias igualmente relevantes.
A sua vocação estende-se para além dos palcos, refletindo-se na formação de novos talentos. Tornou-se verdadeira mentora de diversas gerações de artistas angolanos. A sua influência foi determinante para transformar vidas e resgatar jovens que, sem a arte, poderiam facilmente sucumbir aos caminhos da marginalidade. Sou testemunho vivo desse impacto que encontrei na sua dedicação um porto seguro após a perda dos meus pais, permanecendo na arte graças ao apoio que Marisa Júlio ofereceu com sensibilidade e humanidade.
Marisa Júlio é também idealizadora e mentora do único festival nacional inteiramente dedicado à homenagem das mulheres criadoras e fazedoras de arte, reafirmando a sua luta pela representatividade feminina no teatro.
Apesar destes feitos incontornáveis, a classe teatral insiste em invisibilizar a sua contribuição. Os méritos de Marisa Júlio têm sido constantemente reduzidos e desconsiderados em iniciativas que deveriam enaltecê-la. Premiam e amplificam vozes menos representativas enquanto ignoram aquela que ajudou a construir os alicerces da cena contemporânea.
Importa sublinhar que, além de todas essas conquistas, Marisa Francisco Júlio enfrentou ao longo da carreira numerosos impedimentos para dar continuidade ao seu grupo teatral "Amor À Arte" única e exclusivamente por ser mulher.
Várias vezes foi taxada de "maluca" pela sua maneira excêntrica de ser! Mesmo diante destas barreiras estruturais, ela permaneceu inabalável, mantendo o seu compromisso com a arte e com a transformação social por meio do teatro.
Marisa Júlio é, sem qualquer dúvida, uma das figuras mais importantes da história do teatro angolano. A sua obra, o seu legado e a sua coragem merecem reconhecimento, respeito e lugar de destaque na memória cultural do país.
MARISA MERECE SER CONDECORADA!