30/07/2025
No dia 28 de Julho,
a cidade não acordou ela gritou.
Luanda chorou com olhos secos,
porque já não há lágrima onde falta pão.
O Gasóleo subiu como se fosse estrela,
mas nós cá embaixo,
ainda tamos a comer chão.
O candongueiro que nem aquele programa sempre a subir
A venda ambulante sempre a subir,
e o povo…
o povo vende até a dignidade pra levar qualquer coisa pra casa.
Meninos a vaguear sem norte,
barriga a cantar mais alto que o hino,
olhos perdidos a procurar
o cheiro de comida que já não vem.
E então…
as portas dos supermercados caíram.
Não por crime,
mas por fome armada de desespero.
Pai com olhar de guerra,
mas sem armas pra lutar.
Mãe com peito seco,
vendo a filha dançar no escuro da prostituição
só pra trazer arroz velho pro tacho partido.
Zungueira apanhou porrada,
apanhou como se vender tomate fosse rebelião.
Apanhou com farda a gritar ordem,
mas com alma de pedra sem coração.
Um tiro rasgou o céu,
mas acertou numa mãe.
E o filho gritou “Mamãaa…”
gritou como quem chama Deus no escuro,
mas Deus, se calhar,
tava ocupado com o filho do Josué
E eu pergunto:
O que ela fez de errado?
Gritar de fome agora é crime?
Ou foi só azar de estar no sítio errado,
na hora certa de morrer?
Polícia, olha no olho dela!
Vês?
Ainda tem esperança a secar no canto.
E aquele menino?
Com a bala ainda quente na perna,
e o sangue no pescoço a dizer:
“Meu Deus tô só a vir do Curso…”
Pai,
ouve isso:
“Meu Deus, meu Deus…”
Não é oração de igreja,
é grito de quem não quer morrer por engano.
Kendrick disse:
“Escolhe teu veneno.”
Mas aqui, o povo bebe todos de uma vez.
E no fim?
Respeitam o gatilho…
mas é a vítima que vive pra sempre
nos becos da memória…