17/08/2023
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Se havia algo que Pessalo odiava mais do que acordar cedo e ir para a escola, era ser obrigado a ouvir histórias que seus pais sempre contavam aos sábados. Tecnicamente, sua curiosidade o obrigava a ouvir tudo. Então a culpa não recaía a ninguém, senão para a ele mesmo.
Pessalo desejava não ser tão curioso.
O pior é que seus pais sempre contavam histórias de terror, e histórias contadas por eles Pessalo não conseguia dizer se eram apenas histórias ou factos.
Aos sábados, depois do jantar, a televisão era desligada e Pessalo e seus irmãos se reuniam na frente de seus pais, para ouvirem as histórias. Sua irmã caçula era mais esperta, porque ela se retirava sempre que seus pais começavam com as histórias. Pessalo queria poder fazer o mesmo, mas não queria parecer um covarde.
Pessalo lembrava-se de uma história recente que seus pais tinham contado para ele...
Certo dia, numa aldeia não muito distante, uma jovem mulher voltava da lavra, após um dia cansativo de trabalho. Ela assobiava e caminhava tranquilamente, carregando sua enxada sobre o ombro direito.
A caminhada da jovem mulher foi interrompida quando ela tropeçou num toco de árvore, que ficava bem no seu caminho. Dolorida e irritada, a jovem mulher olhou para o toco, fez muxoxo e proferiu um monte de palavrões. Depois de uma breve massagem no pé magoado, ela continuou sua caminhada.
No dia seguinte, quando ela ia para a sua lavra, novamente tropeçou no mesmo toco. Como da primeira vez, ela saiu magoada, proferiu palavrões e continuou com a sua caminhada. A jovem mulher lembrava-se perfeitamente de que aquele toco não estava no caminho dias atrás, e ela teve a sensação de que o toco sempre surgia de repente no seu caminho.
Após um dia de trabalho árduo e pesado, a jovem mulher ia caminhando na direcção da sua casa, feliz consigo mesma por mais um dia de trabalho. Ela estava quase terminando, com sorte ela terminaria antes que a chuva começasse a cair torrencialmente dentro de poucos dias. Depois de tudo, ela semearia o que quisesse, seu trabalho árduo teria resultados e ela nunca passaria fome.
Novamente, a jovem mulher tropeçou, e era o mesmo toco. Como das outras vezes, ela gemeu de dor, fez massagem no pé magoado e proferiu um monte de palavrões. Quando estava para se retirar, uma canção começou a ser ouvida. Maravilhada pela voz harmoniosa, a jovem mulher tentou localizar a portadora daquela magnífica voz, daquela voz que lhe agradava aos ouvidos, como se ouvisse um coro de anjos. Entretanto, a portadora da voz não se via em lugar nenhum, e a canção continuava, continuava, continuava.
Apesar da bela canção e da magnífica voz, a jovem mulher estava começando a ficar assustada. De onde vinha a canção? Quem a cantava?
Então, quando ouviu com mais atenção, ela apercebeu-se de que a canção vinha do toco em que ela se pancara tantas vezes. Seu coração entendeu a emoção dominante e começou a bater mais rápido. A jovem mulher tentou fugir dali, mas parecia paralisada pelo medo.
Então, à medida que a canção seguia, o toco começou a crescer, a crescer, a crescer. Ele cresceu até formar uma mulher pútrida, trajando roupas esfarrapadas, como se tivesse sido enterrada há bastante tempo. Os olhos da mulher eram órbitas negras, seus cabelos semelhantes a raízes. O cheiro que ela exalava era tal, que a jovem mulher quase vomitou.
Horrorizada, a jovem mulher tentou gritar, mas a voz lhe tinha abandonado. Ela estava sozinha com aquela mulher pútrida.
—Você me pancou e me ofendeu —a mulher pútrida disse, sua voz antes magnífica agora rouca, sibilante e áspera. —Como castigo, você vem comigo.
A jovem mulher tentou fugir, mas era tarde demais. A mulher pútrida a agarrou tão forte que a jovem mulher não teve nem forças para mover um braço.
Então, a mulher pútrida começou a cantar a mesma canção, agora sua voz novamente harmoniosa. A jovem mulher se contorcia nos braços dela, gritando e chorando por ajuda, mas nada adiantava.
À medida que cantava, ela e a jovem mulher, que não parava de gritar, afundavam no solo. Por mais que gritasse, por mais que tentasse, por mais que chorasse. Nada adiantava. A mulher pútrida afundaria e a levaria junto.
O que é que vem aí?
A visita inesperada
A caminhante cansada
Pancou-me sem explicação
Dói-me o coração
O que é que vem aí?
A jovem mal-educada
Deu-me uma pancada
Vou dar-lhe uma lição
Colocou-me em aflição
O que é que vem aí?
O calor humano
Resistir não consigo
Há muito estou no frio
Por isso ficará comigo
Cantava a mulher pútrida.
Então, quando chegou no último verso, ela e a jovem mulher afundaram no solo.
Essa história fez com que Pessalo se mantivesse de boca fechada sempre que tropeçasse em alguma coisa. Seus pais nunca diziam se a história era verdadeira ou não, e sempre que Pessalo perguntava, seus pais apenas sorriam e fingiam que não tinham ouvido nada.
Essa era também a história que a irmã caçula de Pessalo mais odiava, porque era a que mais a assustava. No dia em que ouvira essa história, pedira para dormir com sua outra irmã. Ela dormira com sua irmã por quase duas semanas.
Era sábado. Todos já tinham jantado. A televisão tinha sido desligada. Seus pais se preparavam para contar histórias.
Jacinta, a irmã caçula de Pessalo, já se tinha retirado. Desde que ela ouvira a história da mulher pútrida, jamais arriscava nem um segundo ouvindo seus pais a contarem histórias. Felizmente, ela tinha aprendido a lição.
—Estão prontos? —Seu pai perguntou.
Pessalo e seus outros três irmãos assentiram.
—A história que vai ser contada é um pouco diferente das outras —sua mãe disse. Ela gostava de contar histórias de terror. —Já ouviram falar do acontecimento que abalou o Huambo inteiro, em 2014?
Pessalo tentou se lembrar, mas nada lhe assomava na mente. Era apenas uma criança em 2014, mesmo que tivesse presenciado o tal acontecimento, nunca conseguiria se lembrar. Mesmo assim, tentou forçar sua mente a recordar.
—A história da bota? —Elias, seu irmão mais velho, arriscou, a voz quase afectada, o que Pessalo não entendeu, porque seu irmão não tinha medo de nada.
—Isso mesmo! —sua mãe exclamou. —É mesmo isso.
—Todos sabemos que isso não passou de uma história para assustar crianças —Josefina, a irmã a quem Pessalo seguia, revirou os olhos, mas havia um certo medo na sua voz, como se lembrar daquilo a assustasse. —Não vou me assustar com isso.
Seus pais ignoraram o comentário dela.
—A bota tinha a mania de aparecer sempre nas escolas —seu pai começou. —Parecia que seu alvo principal eram os estudantes e os professores. —Ele fez uma pausa. —Houve um dia em que uma senhora mandou seus filhos para irem cobrar o dinheiro que uma pessoa lhe devia. Os dois filhos obedeceram e puseram-se a caminho. No meio do caminho, eles cruzaram-se com uma bota de borracha preta. Eles tentaram passar por ela, mas o menino que tinha ficado atrás sentiu alguma coisa puxando ele para trás. Ele se virou para ver quem o puxava, mas tudo o que ele conseguiu ver foi uma bota a dois metros dele. A força invisível continuava a puxá-lo. A essa altura, o outro menino tentava puxá-lo de volta, mas a força invisível era mais forte. Foi aí que a bota falou.
—Uma bota que fala? —Pessalo perguntou. Ao contrário dos seus irmãos, isso o estava assustando.
—É, uma bota que fala —seu pai disse com desgosto. Não gostava de ser interrompido. Ele continuou:—Quando a bota falou, o menino que estava sendo puxado foi finalmente derrubado pela força invisível e seus pés se viraram na direcção da bota. O outro menino assistia a tudo, horrorizado, sem saber o que fazer. Involuntariamente, o menino caído calçou a bota e ficou imóvel. Assustado, o outro menino saiu correndo de lá.
Silêncio.
O coração do Pessalo martelava no peito, como se exigisse que ele o deixasse partir. Até doía de tão forte que batia.
Pessalo olhou para os seus irmãos e viu que eles pareciam aborrecidos, como se a história não lhes agradasse tanto. Provavelmente estavam esperando por algo mais assustador. Entretanto, para o Pessalo aquela história era muito assustadora. Tinha até o assustado mais do que a história da mulher pútrida. Celeste, também sua irmã, parecia tão assustada quanta ele.
—O que aconteceu com o menino que calçou a bota? —Pessalo perguntou, tentando controlar sua voz trêmula.
—Ninguém sabe —seu pai disse, misterioso. —Ele nunca mais foi encontrado. Quando o menino que fugiu levou pessoas até onde tinha deixado seu irmão, nada foi encontrado, nem mesmo a bota.
—Só o Pessalo mesmo para ficar assustado com essa história —Josefina revirou os olhos, e novamente havia aquele medo no rosto dela.
—Vocês sabiam que essa bota fez muita gente parar de estudar em 2014? —sua mãe perguntou, sombria. —Por medo, estudantes recusavan-se a ir para a escola. Algumas escolas até foram encerradas. —Ela fez uma pausa. —Uma vez, na escola 39, enquanto os estudantes entoavam o hino nacional, a bota apareceu sobre a haste da bandeira e os estudantes se dispersaram. Naquele dia, muitos estudantes se feriram. Casos como esses aconteceram mais vezes. Isso levou à suspensão das aulas.
—E como resolveram o problema da bota? —Pessalo perguntou.
—Ninguém sabe ao certo —seu pai disse. —Depois de algum tempo, a bota simplesmente desapareceu.
Pessalo notou que seu pai não parecia tão certo do que falava, e notou que seus pais estavam com uma certa tensão e nervosismo, o que era estranho, porque nenhuma história os deixava assim. Elias parecia estar lutando para esconder o seu medo, outra coisa estranha.
—Essa história é verdadeira? —Pessalo fez a pergunta que sempre fazia no final de cada história.
Como sempre, seus pais apenas olharam para ele, sorriram e nada disseram.
—Tenho que dormir —Elias se levantou, ele estava muito estranho.
—Já está na hora mesmo —sua mãe disse, e Pessalo podia jurar que havia um certo tom de culpa na sua voz. —Por hoje é tudo. Até a próxima. Durmam bem.
Contudo, Pessalo não dormiu bem.
Quando chegou no seu quarto, ele olhou com desconfiança para todos os seus sapatos, esperando que um deles o obrigasse a calçá-lo. Mas isso não aconteceu, logicamente. Era só história. Parecia que seus sapatos estavam esperando uma oportunidade para mostrarem o que eles realmente eram e desaparecer com ele.
Ao contrário das outras noites, naquela noite Pessalo não desligou a lâmpada. Achou mais seguro dormir com a lâmpada acesa. Não queria ser pego de surpresa por nada no mundo.
Com o cobertor até a cabeça, Pessalo encontrava-se pensando se as histórias que seus pais contavam eram só histórias, ou tinham mesmo acontecido. Seus pais diziam que as histórias lhes tinham sido contadas por seus pais também. Eram como uma herança. Dentro de alguns anos, Pessalo contaria essas histórias para os seus filhos, também. Perguntou-se se seus filhos ficariam tão assustados quanto ele ficava sempre que as ouvia.
Pessalo simplesmente parecia gostar da sensação que o medo lhe causava, porque por mais que as histórias de seus pais o assustassem, ele nunca parava de ouvi-las. Às vezes era ele quem pedia. Pessalo achava o seu gosto pelo medo doentio, mas parecia não se importar.
Naquela noite, Pessalo sonhou com botas.