02/02/2026
IYÁ OLÓDÒ: CORREÇÃO HISTÓRICA SOBRE IEMONJA
Iyá Olódò, mãe primeira das águas doces, também cultuada nas águas salgadas, é uma Orisà negra africana, pertencente ao corpo civilizatório yorubá.
Seus nomes tradicionais incluem Omilẹ́yẹ̀, Iyá Olódò, Iyá Olókun, Odo Iyá, entre outros, cada um ligado a funções, territórios e atributos dentro da cosmopercepção africana.
O nome Iyá Olódò — Mãe do Rio — revela sua origem:
Iemonja nasce nas águas doces, nos rios e nascentes, e não no mar.
Sua territorialidade original está associada ao rio Ògùn, na Nigéria, espaço histórico de organização social, econômica e espiritual do povo yorubá.
Na diáspora, especialmente no Brasil, Iemonja também é cultuada nas águas salgadas, como resultado de deslocamento forçado, adaptação cultural e reorganização simbólica diante da violência colonial.
Essa experiência, embora legítima, não pode apagar sua origem africana.
Iemonja não é abstração, nem mera energia.
Dentro da epistemologia africana:
Orisà é ancestral divinizado, memória viva e tecnologia civilizatória.
Ela foi uma mulher negra africana, cuja existência histórica foi preservada, sacralizada e transmitida pelo culto, pela oralidade e pela prática ritual de seu povo.
A tentativa de:
Embranquecer sua imagem
Cristanizá-la como santa católica
Reduzir sua existência a força da natureza sem corpo, raça ou território
faz parte de um projeto contínuo de apagamento histórico dos Orisàs, sustentado pelo racismo religioso e pelo colonialismo epistêmico.
O nome Iemonja é africano.
Ela não é santa católica.
O sincretismo imposto não pode negar sua história ou sua memória.
Reconhecer Iemonja como Iyá Olódò é um ato de:
Correção histórica
Reparação simbólica
Afirmação da negritude africana
Enfrentamento do epistemicídio
Não é opinião, escolha estética ou fé individual:
É verdade histórica, fundamento civilizatório e direito à memória.
Os descendentes de Iemonja ainda existem em terras yorubás.
Eles carregam sua memória, sua força e seu nome.
Iemonja não é mera energia, nem símbolo vazio.
Ela foi e é uma mulher negra africana, com filhos, territórios e história viva.
Recolocar Iyá Olódò em seu território original é devolver à África e à diáspora negra aquilo que lhes foi sistematicamente roubado:
nome, corpo, história e dignidade.
Rogo à Anciã
Iyá Olódò, mãe primeira das águas doces, também cultuada nas águas salgadas.
Reverenciemos a anciã das águas com consciência.
Consciência do nome que ela carrega.
Consciência do corpo negro que a funda.
Consciência do território de onde brota sua força.
Que não lhe imponham outras peles.
Que não lhe roubem outros nomes.
Que não lhe apaguem a memória.
Porque ninguém sustenta viver em uma pele que não é a sua.
Nem os vivos.
Nem os ancestrais.
Nem as Orisàs.
Iyá Olódò, mãe primeira das águas doces,
receba nosso respeito, nossa verdade e nossa palavra.
Áṣẹ.
Epa Omi ooo! 🌊
Marta de Sàngó
Instituto Cultural Isedale Egbé Yorubá Brasil
Autoridade Cultural Yorubá no Brasil
Foto Maike Figueiredo