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Hoje, finalmente, o sol regressou e consegui olhar para estas terríveis semanas com alguma distância. Enquanto milhares ...
15/02/2026

Hoje, finalmente, o sol regressou e consegui olhar para estas terríveis semanas com alguma distância. Enquanto milhares de portugueses tentam ainda recuperar o que lhes sobrou dos ventos, das chuvas e das derrocadas, sinto que o país mediático já não se entusiasma e está cansado destas temáticas. Temo que os temporais de inverno passem a ser os incêndios do verão: a garantia noticiosa da catástrofe até à exaustão, mas sem uma estratégia estruturada para mitigar estes fenómenos. Não podemos deixar morrer este assunto.

O grande problema do combate às alterações climáticas, ou mesmo da prevenção dos seus efeitos, é que exige planeamento. Palavra que parece, por vezes, existir na língua portuguesa por mero acaso. Num período em que Portugal admite investir cerca de 5% do seu orçamento em despesa militar, assiste-se simultaneamente a um investimento em áreas como a Proteção Civil muito aquém das necessidades. Trata-se de uma área essencial para proteger populações e território de fenómenos que não são hipotéticos, mas cada vez mais frequentes e intensos.

No país dos incêndios descontrolados, das cidades antigas e pouco inclusivas, das aldeias isoladas, das cheias periódicas em zonas edificadas em leito de cheia, das regiões polvilhadas por habitação dispersa fruto de décadas sem planeamento urbanístico, dos tornados e depressões cada vez mais recorrentes, urge uma estratégia nacional coerente e de longo prazo.

Somos um dos países mais envelhecidos do mundo e ainda não parámos verdadeiramente para avaliar o impacto dessa realidade na qualidade das nossas vidas. Temos uma faixa crescente da população dependente de serviços do Estado, comunidades mais fragilizadas e isoladas, redes de entreajuda cada vez mais ténues.

Segundo os dados do INE, quase 80% do território nacional corresponde a territórios de baixa densidade. Existem mais de 186 municípios com menos de 20 mil habitantes, a maioria deles no interior. Em contrapartida, a faixa litoral concentra cerca de 70% da população portuguesa, sobretudo nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Paradoxalmente, continua-se a construir em zonas costeiras e ribeirinhas que, segundo várias projeções climáticas, poderão sofrer impactos severos nas próximas décadas.

Seria fácil colocar toda a responsabilidade nos decisores políticos. E é impossível ignorar a sua quota-parte neste desnorte e na fragilidade das infraestruturas e dos serviços públicos. O Estado poderia falhar em quase tudo,não nisto. E, no entanto, falhou.

Apesar de todos conhecermos a história dos três porquinhos, continuamos a construir, otimistas, um Estado de palha. Estarão as populações portuguesas disponíveis para o esforço que o verdadeiro planeamento implica? Para aceitar regras mais exigentes de ordenamento do território? Para criar planos de segurança robustos? Para abdicar de construir onde sempre se construiu?

A resposta, infelizmente, tende a ser negativa. Há uma enorme dificuldade em compreender causas e consequências. Mesmo para quem duvida da origem humana das alterações climáticas, é impossível negar que precisamos de estar melhor preparados. Não se trata de controlar a natureza, mas de a compreender e aprender a viver enquanto parte dela.

Persistimos na tentação de emparedar rios. Tenho a sorte de colaborar com o “Guarda Rios”, um coletivo científico e artístico que, através de estratégias de mediação cultural, aprofunda o conhecimento sobre a água e a riqueza dos ecossistemas ribeirinhos. Tal como o “À Escuta”, dedicado à floresta, ou a “Terra Batida”, o “Um Coletivo”, a “Formiga Atómica” e tantos outros, que, de forma integrada e multissetorial, criam espaços de partilha de conhecimento sobre a naturezaa partir da cultura. Ou não fosse a paisagem o nosso primeiro bem cultural. É neste cruzamento entre ciência, arte e território que se constroem respostas mais conscientes. Sem conhecimento estruturado, vemos ressurgir nos debates mediáticos propostas simplistas, como a construção indiscriminada de barragens ou o abate massivo de árvores. Não podemos construir estruturante contra a natureza, apenas com ela.

Lembro-me das polémicas obras do Flecheiro, em Tomar, cidade construída no leito do rio Nabão, historicamente marcada por cheias. São muitas as memórias dos dias em que não conseguia ir à escola ou em que atravessei a cidade empoleirado na pá de uma retroescavadora. Hoje, Tomar tem sido poupada às piores consequências das recentes inundações. A requalificação da zona, promovida pelo anterior executivo municipal, assentou em conhecimento científico que compreendia o rio e o seu comportamento natural.

Onde antes existiam barracas, foi criado um parque urbano. No verão, é usufruído pela população; no inverno, transforma-se em espaço de expansão natural do rio. Como um pulmão, permite ao Nabão respirar e ocupar o seu espaço sem destruir, protegendo a malha urbana. Um movimento que fertiliza as terras e nos reconecta com o ciclo natural da água. Nas primeiras cheias após a obra, a intervenção foi alvo de chacota nas redes sociais e na comunicação local. Hoje, espero que se reconheça a sua mais-valia social, económica e ecológica.

Mesmo em meios rurais, perdeu-se muito do conhecimento tradicional sobre a natureza. Persiste uma cultura de controlo e de desconfiança perante o “verde”. A iliteracia ambiental é profunda e constitui terreno fértil para o populismo político que cresce no país. Um populismo que não hesita em questionar a agenda climática nas políticas públicas enquanto parte do território perde tudo.

Na era do populismo, amplificada pela desinformação e pelas fake news, será muito difícil implementar uma estratégia robusta e estruturada, porque esta terá custos e exigirá escolhas. Implicará pensar a médio e longo prazo.

Na era do individualismo, planear para o bem comum é a tarefa mais difícil de todas. Trata-se de um trabalho invisível, sem o mediatismo da tragédia e sem o conforto imediato da empatia. Parece desperdício. Parece exagero. Mas é responsabilidade.

Qualquer plano sério terá de dar as mãos ao conhecimento científico e a uma gestão continuada e consistente do território. E, na sociedade da imagem, já não basta fazer, é preciso saber comunicar o que se faz e porquê.

Recordo-me também do período em que trabalhei em Ílhavo e do investimento invisível que estava a ser feito para mitigar a subida do mar e proteger a ria de Aveiro. Intervenções técnicas, discretas, quase impercetíveis, frequentemente mal recebidas pela população. O que acontecerá quando tivermos de tomar decisões mais difíceis, como concentrar populações em núcleos urbanos mais seguros? A fragilidade das infraestruturas, a debilidade das comunicações e o desconhecimento, por parte do poder central, sobre as múltiplas realidades do país alimentam um sentimento crescente de abandono.

Dizemos repetidamente que Portugal é um país pequeno. Mas, pelos vistos, o verdadeiro problema é termos território a mais, ou pelo menos mais território do que conseguimos planear, proteger e cuidar.

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”
— Bertolt Brecht

"Na era do individualismo, planear para o bem comum é a tarefa mais difícil de todas. Trata-se de um trabalho invisível, sem o mediatismo da tragédia e sem o conforto imediato da empatia. Parece desperdício. Parece exagero. Mas é responsabilidade."

👉Crónica de Luis Sousa Ferreira: https://comunidadeculturaearte.com/o-problema-de-portugal-e-ter-territorio-a-mais/

Até já Funchal!7 de março Teatro Baltazar Dias𝗟𝗮𝗯𝗼𝗿𝗮𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼 𝗜𝗺𝗲𝗿𝘀𝗶𝘃𝗼 𝗢𝘂𝘁𝗱𝗼𝗼𝗿 𝗔𝗿𝘁𝘀 𝗣𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝗮𝗹  #𝟱.
27/01/2026

Até já Funchal!

7 de março
Teatro Baltazar Dias
𝗟𝗮𝗯𝗼𝗿𝗮𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼 𝗜𝗺𝗲𝗿𝘀𝗶𝘃𝗼 𝗢𝘂𝘁𝗱𝗼𝗼𝗿 𝗔𝗿𝘁𝘀 𝗣𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝗮𝗹 #𝟱.

No dia 7 de março vamos estar no Teatro Baltazar Dias, no Funchal, para o 𝗟𝗮𝗯𝗼𝗿𝗮𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼 𝗜𝗺𝗲𝗿𝘀𝗶𝘃𝗼 𝗢𝘂𝘁𝗱𝗼𝗼𝗿 𝗔𝗿𝘁𝘀 𝗣𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝗮𝗹  #...
21/01/2026

No dia 7 de março vamos estar no Teatro Baltazar Dias, no Funchal, para o 𝗟𝗮𝗯𝗼𝗿𝗮𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼 𝗜𝗺𝗲𝗿𝘀𝗶𝘃𝗼 𝗢𝘂𝘁𝗱𝗼𝗼𝗿 𝗔𝗿𝘁𝘀 𝗣𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝗮𝗹 #𝟱.
Espaço público, comunidade e interligações

𝗟𝗮𝗯𝗼𝗿𝗮𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼 𝗜𝗺𝗲𝗿𝘀𝗶𝘃𝗼 𝗢𝘂𝘁𝗱𝗼𝗼𝗿 𝗔𝗿𝘁𝘀 𝗣𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝗮𝗹 #𝟱
Espaço público, comunidade e interligações

📍 Teatro Municipal Baltazar Dias, 𝗙𝘂𝗻𝗰𝗵𝗮𝗹
📅 𝟳 𝗺𝗮𝗿𝗰̧𝗼 2026
🕥 10:30 às 16:00 (pausa para almoço entre as 12:30 e as 14:00)

Uma jornada imersiva para pensar o espaço público como lugar de encontro, partilha e criação artística, a partir da experiência concreta, do debate e da troca directa entre profissionais.

Este laboratório cruza masterclass e debate, explorando a relação entre o lugar, o artista e as pessoas, e desafiando práticas estabelecidas na criação artística em espaço público. Um espaço de reflexão crítica e prática, orientado para quem procura novas abordagens estéticas, dramatúrgicas e participativas, em diálogo com os contextos sociais e territoriais.

👉 com 𝗟𝘂𝗶́𝘀 𝗦𝗼𝘂𝘀𝗮 𝗙𝗲𝗿𝗿𝗲𝗶𝗿𝗮

O Outdoor Arts Portugal é uma plataforma interdisciplinar promovida pela Bússola. Esta edição dos laboratórios e imersivos decorre em parceria com a Riscado e o apoio da República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto / Direção-Geral das Artes e do Teatro Municipal Baltazar Dias / Câmara Municipal do Funchal.

Endereço

Cem Soldos
Tomar
2305-417

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