26/08/2025
a loucura
os olhos, esses poços de nada, percorrem a floresta inexistente, o abismo verde, onde a procissão dos meus dias se arrasta, e tu, a quem perdi ou inventei, uma lembrança que se esfarela no nevoeiro da madrugada e a noite, que consome minhas horas, traz a efígie, a minha própria, no espelho negro, uma beleza ferida que se nutre de seu próprio sangue seco
passagem por quartos onde a tristeza se acomoda como um pássaro ferido, a sombra, um espectro que me acompanha desde a adolescência, a voz que entoa a dor de amar alguém que se foi, ou que talvez nunca tenha existido, os meus pés que mal me suportam, conduzem-me ao templo que se desmoronou, entre os destroços da paixão, onde a devoção é apenas a lembrança de um beijo frio
e a solidão, esse silêncio ensurdecedor, é da cor do cetim branco das noites intermináveis, o tecido em que os sonhos são a única fuga de um presente sem esperanças, e a tristeza é a única companheira, observo a minha sombra, um espectro, um eco, uma dança de mortos que me segue desde a infância, a convicção de que a vida é um preparo para o fim, um ensaio para o abismo
e no final o que escapa é a constatação, a frase que se repete: o amor, essa farsa, esse engano, é a força que nos destrói, a faca que nos rasga a pele e nos expõe o íntimo da minha alma, essa hóspede indesejada, é possuída, um que me assombra, um demônio que me suga a vida, um lamento que se estende até o último suspiro, até que eu me torne, finalmente, apenas um punhado de pó