Missa Dominical de Diogo Dantas

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a loucuraos olhos, esses poços de nada, percorrem a floresta inexistente, o abismo verde, onde a procissão dos meus dias...
26/08/2025

a loucura

os olhos, esses poços de nada, percorrem a floresta inexistente, o abismo verde, onde a procissão dos meus dias se arrasta, e tu, a quem perdi ou inventei, uma lembrança que se esfarela no nevoeiro da madrugada e a noite, que consome minhas horas, traz a efígie, a minha própria, no espelho negro, uma beleza ferida que se nutre de seu próprio sangue seco

passagem por quartos onde a tristeza se acomoda como um pássaro ferido, a sombra, um espectro que me acompanha desde a adolescência, a voz que entoa a dor de amar alguém que se foi, ou que talvez nunca tenha existido, os meus pés que mal me suportam, conduzem-me ao templo que se desmoronou, entre os destroços da paixão, onde a devoção é apenas a lembrança de um beijo frio

e a solidão, esse silêncio ensurdecedor, é da cor do cetim branco das noites intermináveis, o tecido em que os sonhos são a única fuga de um presente sem esperanças, e a tristeza é a única companheira, observo a minha sombra, um espectro, um eco, uma dança de mortos que me segue desde a infância, a convicção de que a vida é um preparo para o fim, um ensaio para o abismo

e no final o que escapa é a constatação, a frase que se repete: o amor, essa farsa, esse engano, é a força que nos destrói, a faca que nos rasga a pele e nos expõe o íntimo da minha alma, essa hóspede indesejada, é possuída, um que me assombra, um demônio que me suga a vida, um lamento que se estende até o último suspiro, até que eu me torne, finalmente, apenas um punhado de pó

As sombras do maronde está a tua beleza, os pequenos olhos azuis cor de mar paradisíaco, ou a tua cicatriz indisfarçável...
03/08/2025

As sombras do mar

onde está a tua beleza, os pequenos olhos azuis cor de mar paradisíaco, ou a tua cicatriz indisfarçável acima do lábio superior
fixo nos teus olhos e juro que consigo ver o mar, as ondas desfazem-se na areia e consegue-se ouvir velhos marinheiros num bar junto à praia, cantam e dizem palavrões é falam sobre tudo menos sobre as sereias que lhes levaram os corações
algo te faz corar, a face inquieta-se talvez por reparar que a observo, por isso olho para os lados, onde as putas tentam convencer os marinheiros a dez minutos de felicidade pelo preço de dois copos de aguardente, mas os marinheiros cantam e riem e vão continuar até de madrugada
não te imagino a rir, nem sequer a sorrir na tua postura de rainha indiferente, mas ainda não percebi se és uma dama de espadas ou de copas, já não tenho cartas para jogar e o que me dói mais é saber que nenhuma das mãos valeram a pena
estás sozinha mas nota-se que não estás só como eu, há algo no olhar de gente como eu, pessoas que perderam tanto durante a vida que se vê que estão eternamente perdidas, nada a perder ou a ganhar, sempre os mesmos antes e depois das vitórias ou das derrotas, sempre os mesmos perdedores
toda a gente já reparou em ti, até um velho a tirar fotos na praia, mas é noite e a máquina fotográfica dele é demasiado antiga, todos os homens cairiam aos teus pés perante um sinal teu, por ti até anjos caem do céu a suplicar pelo teu amor
eu observo de longe, como um viajante do tempo que não quer interferir, não sei quem és e nunca saberei, mas sei bem quem me fazes lembrar, uma criança que já se foi há muito, quando eu conhecia tudo sobre o amor, pegava na tua mão e íamos juntos em direção do pôr-do-sol

Tudo o que me deste foi tudoo teu sorriso enquanto tiravas o cabelonegrodo rosto pálido a nossa esperança em ruínas o te...
25/07/2025

Tudo o que me deste foi tudo
o teu sorriso enquanto tiravas o cabelo
negro
do rosto pálido
a nossa esperança em ruínas 
o teu humor numa voz naufragada
mas terminavas sempre numa gargalhada
partida
que valia a pena tudo o resto
dentro da mente sombria
o olhar que me dirigias
raramente 
sem nunca saberes o que revelava
a tua vontade trémula
durante as minhas quedas vertiginosas 
o teu louco sorriso
uma culpa acesa na verdade encurralada 
mesmo quando eclodia em raiva
descontrolada
sempre que eu merecia
tenho a certeza que merecia
a sombra derramada
nas lições que disparavas à queima-roupa
uma dor dilacerada
até que às vezes
solitário
num silêncio em chamas
dizias algo verdadeiramente profundo
com um desejo em lâminas
algo que nem sequer notavas
na corrente do sangue tranquilo
o fundo do inconsciente 
inconveniente 
preso numa luz enjaulada
com uma piedade que provavelmente 
nem querias
mas que trouxe comigo nestas décadas 
um tempo desfolhado 
a verdade em névoa 
em lembranças embriagadas

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