22/08/2026
Não sei se subo.
Não sei se desço.
Já não sei sequer se há escadas.
Talvez tenha inventado a subida, talvez tenha inventado a queda, talvez tenha passado tanto tempo a cair que comecei a chamar voo à vertigem para não ter de admitir que estou perdido.
Mas de vez em quando preciso de ir ao mundo deles.
Preciso.
Como quem precisa de uma droga que não cura nada.
Vou pelas estradas deles, atravesso os centros comerciais onde as luzes parecem interrogatórios, entro nos cafés, nos restaurantes, nos eventos, sento-me no meio daquela multidão de pessoas que ainda acredita que estar perto de alguém significa não estar sozinho.
E eu finjo.
F0d@-se, como eu sei fingir.
Bebo e como supostamente acompanhado.
Escrevo supostamente acompanhado.
Rio-me supostamente acompanhado.
Faço tudo aquilo que os vivos fazem quando querem convencer os mortos de que continuam vivos.
E ninguém percebe.
Essa é talvez a minha maior habilidade: parecer inteiro enquanto por dentro sou uma cidade depois do bombardeamento.
Há mesas cheias e eu continuo sozinho.
Há corpos encostados aos meus e eu continuo longe.
Há vozes a atravessarem o ar e nenhuma delas consegue atravessar-me.
Então bebo.
Não para esquecer.
Esquecer seria uma bênção.
Bebo para conseguir lembrar-me sem gritar.
Bebo para conseguir estar sentado entre eles sem me levantar de repente e fugir para dentro de mim.
Bebo porque há dias em que o mundo tem demasiado volume e eu só tenho silêncio para lhe responder.
Sou uma espécie de alma penada com um corpo emprestado.
Um cadáver que ainda paga contas.
Um fantasma que ainda escolhe onde jantar.
Um homem que caminha por fora e voa por dentro, mas cujo voo é uma queda contínua através de corredores sem portas, quartos sem janelas, cidades sem saída.
Não sei se subo.
Não sei se desço.
Não sei se estou a voar ou simplesmente a cair há demasiado tempo.
E depois aparece o amor.
Sempre essa m**d@ do amor.
O amor que não morreu porque teve a indecência de continuar a viver em mim.
O amor que se mistura com outros corpos, outras bocas, outras mulheres, como se a carne pudesse substituir a memória.
Não pode.
Nunca pôde.
Há corpos que abraço e, durante alguns segundos, quase acredito.
Quase.
Depois uma mão toca-me de determinada maneira, uma boca aproxima-se, uma pele respira contra a minha e, de repente, estás lá outra vez.
Tu.
Sempre tu.
Como uma assombração que aprendeu o meu nome.
Como uma ferida que se recusa a fechar porque descobriu que também pode escrever.
E eu odeio-te por isso.
Odeio-te por continuares em mim.
Odeio-me por continuar a procurar-te.
Odeio todos os corpos que não são o teu por terem a culpa absurda de não serem tu.
E depois escrevo.
Escrevo como quem parte uma garrafa contra a própria cabeça só para ouvir algum barulho que não venha de dentro.
Escrevo com raiva.
Com fome.
Com saudade.
Com os dentes.
Escrevo porque as palavras são o único lugar onde consigo bater sem precisar de levantar os punhos.
Escrevo porque dentro de mim há uma multidão em fúria e nenhum estádio suficientemente grande para a receber.
Escrevo porque se deixar tudo isto sem palavras, talvez me transforme definitivamente naquilo que já pareço ser: uma sombra com documentos, um homem com endereço, uma existência administrativamente registada e emocionalmente desaparecida.
Não sei se subo.
Não sei se desço.
Talvez não haja mundo deles nem mundo meu.
Talvez exista apenas este intervalo miserável entre uma coisa e outra, este corredor onde caminho há demasiado tempo, com as asas abertas e o coração cheio de ferrugem.
Mas ainda escrevo.
Ainda…
Mesmo quando não tenho nada para dizer.
Sobretudo quando não tenho nada para dizer.
Porque escrever é a minha maneira de incendiar o silêncio.
É a minha maneira de cuspir para a noite.
É a minha maneira de dizer ao abismo: ainda não acabaste comigo, cabrão.
E então continuo.
Ando por fora.
Voo por dentro.
Caio por todo o lado.
E, no meio desta confusão, deste amor doente, destas cidades cheias de gente, destas mesas cheias de ausências, destas noites que começam em cafés e acabam dentro da cabeça, há uma coisa que ainda não conseguiram arrancar-me:
a palavra.
A palavra ainda é minha.
E enquanto for minha, escrevo.
Mesmo furioso.
Mesmo partido.
Mesmo delirante.
Mesmo sem saber se subo ou se desço.
Escrevo.
Porque talvez eu não esteja a tentar encontrar a saída.
Talvez esteja apenas a tentar deixar uma frase acesa no escuro, para que, quando finalmente alguém olhar para dentro desta ruína, perceba que aqui, entre os escombros, houve um homem que ainda tentou dizer:
eu estive aqui.
João Dórdio