21/05/2026
É a solidão que mata,
mas mata devagar, muito devagarinho,
com beijos frios na nuca e promessas por cumprir.
Não vem com faca nem com veneno – vem com silêncio.
Silêncio que se instala nos cantos da alma, muito devagar,
como o bolor nas paredes de um quarto esquecido.
É essa solidão que me faz escrever,
porque quem não tem a quem falar, escreve.
Quem não tem abraço, inventa braços nas palavras.
Quem não tem calor, acende ci****os e poemas.
A loucura vem depois – devagar, muito devagarinho – em passos de veludo,
trazendo recordações que eu escondi debaixo do tapete da memória.
Recordações tuas, de nós,
daqueles dias em que eu ainda acreditava que amar era viver
e não morrer aos poucos entre copos de vinho e páginas preenchidas num bloco…
Sempre de capa preta…
A tristeza…
Essa vem com sede.
Senta-se ao meu lado e pede mais um copo.
E eu sirvo.
Devagar, devagarinho...
Sirvo como quem reza,
como quem se afoga por dentro à espera que ninguém veja.
É essa tristeza que me faz beber,
não para esquecer,
mas para lembrar com menos dor.
A destruição é interior.
Não há ruína mais bonita do que a de um homem que se partiu por dentro
e ainda assim continua a escrever versos como se isso o salvasse.
O álcool é abundante.
Bebo o mundo e ainda me sobra sede.
Bebo os dias, as noites, os rostos que já não reconheço.
Bebo o que fui e o que deixei de ser.
E escrevo.
Devagar, devagarinho...
Escrevo tudo naquele tal bloco,
a caneta, a sangue, a vinho,
como quem deixa testamento
ou bilhete de suicídio
ou declaração de amor a ninguém.
Porque é isso que sou:
um poeta feito de restos,
um louco feito de versos,
um homem que se alimenta da própria dor para não morrer de fome.
João Dórdio