Eventos Dordianos

Eventos Dordianos PÁGINA DE DIVULGAÇÃO DE EVENTOS, TERTÚLIAS E APRESENTAÇÕES LITERÁRIAS DE JOÃO DÓRDIO Espaço de divulgação de Poesia e Prosa Poética

Não sei se subo.Não sei se desço.Já não sei sequer se há escadas.Talvez tenha inventado a subida, talvez tenha inventado...
22/08/2026

Não sei se subo.
Não sei se desço.
Já não sei sequer se há escadas.

Talvez tenha inventado a subida, talvez tenha inventado a queda, talvez tenha passado tanto tempo a cair que comecei a chamar voo à vertigem para não ter de admitir que estou perdido.

Mas de vez em quando preciso de ir ao mundo deles.
Preciso.
Como quem precisa de uma droga que não cura nada.

Vou pelas estradas deles, atravesso os centros comerciais onde as luzes parecem interrogatórios, entro nos cafés, nos restaurantes, nos eventos, sento-me no meio daquela multidão de pessoas que ainda acredita que estar perto de alguém significa não estar sozinho.

E eu finjo.
F0d@-se, como eu sei fingir.

Bebo e como supostamente acompanhado.
Escrevo supostamente acompanhado.
Rio-me supostamente acompanhado.
Faço tudo aquilo que os vivos fazem quando querem convencer os mortos de que continuam vivos.

E ninguém percebe.

Essa é talvez a minha maior habilidade: parecer inteiro enquanto por dentro sou uma cidade depois do bombardeamento.

Há mesas cheias e eu continuo sozinho.
Há corpos encostados aos meus e eu continuo longe.
Há vozes a atravessarem o ar e nenhuma delas consegue atravessar-me.

Então bebo.
Não para esquecer.
Esquecer seria uma bênção.
Bebo para conseguir lembrar-me sem gritar.
Bebo para conseguir estar sentado entre eles sem me levantar de repente e fugir para dentro de mim.
Bebo porque há dias em que o mundo tem demasiado volume e eu só tenho silêncio para lhe responder.

Sou uma espécie de alma penada com um corpo emprestado.
Um cadáver que ainda paga contas.
Um fantasma que ainda escolhe onde jantar.
Um homem que caminha por fora e voa por dentro, mas cujo voo é uma queda contínua através de corredores sem portas, quartos sem janelas, cidades sem saída.

Não sei se subo.
Não sei se desço.
Não sei se estou a voar ou simplesmente a cair há demasiado tempo.

E depois aparece o amor.
Sempre essa m**d@ do amor.

O amor que não morreu porque teve a indecência de continuar a viver em mim.
O amor que se mistura com outros corpos, outras bocas, outras mulheres, como se a carne pudesse substituir a memória.

Não pode.
Nunca pôde.

Há corpos que abraço e, durante alguns segundos, quase acredito.
Quase.
Depois uma mão toca-me de determinada maneira, uma boca aproxima-se, uma pele respira contra a minha e, de repente, estás lá outra vez.

Tu.
Sempre tu.

Como uma assombração que aprendeu o meu nome.
Como uma ferida que se recusa a fechar porque descobriu que também pode escrever.
E eu odeio-te por isso.
Odeio-te por continuares em mim.
Odeio-me por continuar a procurar-te.
Odeio todos os corpos que não são o teu por terem a culpa absurda de não serem tu.

E depois escrevo.
Escrevo como quem parte uma garrafa contra a própria cabeça só para ouvir algum barulho que não venha de dentro.

Escrevo com raiva.
Com fome.
Com saudade.
Com os dentes.

Escrevo porque as palavras são o único lugar onde consigo bater sem precisar de levantar os punhos.
Escrevo porque dentro de mim há uma multidão em fúria e nenhum estádio suficientemente grande para a receber.
Escrevo porque se deixar tudo isto sem palavras, talvez me transforme definitivamente naquilo que já pareço ser: uma sombra com documentos, um homem com endereço, uma existência administrativamente registada e emocionalmente desaparecida.

Não sei se subo.
Não sei se desço.

Talvez não haja mundo deles nem mundo meu.
Talvez exista apenas este intervalo miserável entre uma coisa e outra, este corredor onde caminho há demasiado tempo, com as asas abertas e o coração cheio de ferrugem.

Mas ainda escrevo.
Ainda…
Mesmo quando não tenho nada para dizer.
Sobretudo quando não tenho nada para dizer.

Porque escrever é a minha maneira de incendiar o silêncio.
É a minha maneira de cuspir para a noite.
É a minha maneira de dizer ao abismo: ainda não acabaste comigo, cabrão.
E então continuo.

Ando por fora.
Voo por dentro.
Caio por todo o lado.

E, no meio desta confusão, deste amor doente, destas cidades cheias de gente, destas mesas cheias de ausências, destas noites que começam em cafés e acabam dentro da cabeça, há uma coisa que ainda não conseguiram arrancar-me:
a palavra.

A palavra ainda é minha.
E enquanto for minha, escrevo.
Mesmo furioso.
Mesmo partido.
Mesmo delirante.
Mesmo sem saber se subo ou se desço.
Escrevo.
Porque talvez eu não esteja a tentar encontrar a saída.
Talvez esteja apenas a tentar deixar uma frase acesa no escuro, para que, quando finalmente alguém olhar para dentro desta ruína, perceba que aqui, entre os escombros, houve um homem que ainda tentou dizer:
eu estive aqui.

João Dórdio

Há dias em que a noite começa dentro do copo – e cada gole é uma queda lenta na vertigem de mim. A alvorada, essa maldit...
21/08/2026

Há dias em que a noite começa dentro do copo – e cada gole é uma queda lenta na vertigem de mim. A alvorada, essa maldita que insiste em nascer, vem apenas no fim da garrafa, quando o mundo já é um borrão de sentidos e a alma dança descalça sobre cacos de vidro. A inspiração chega de carro, desgovernada, e trava de repente – saem dela as letras, bêbedas, rindo e gritando, filhas bastardas da loucura e do absurdo.

As letras da saudade vêm sempre escondidas na mala, amarradas aos mil reboques que ninguém vê, carregadas de memórias que nem o tempo consegue rebocar. E eu, tolo de amor e vinho, deixo-me atropelar por cada sílaba, deixo que me passem por cima as palavras que ainda cheiram a ti.

Há dias em que a noite começa nos lábios de alguém – e nesses lábios o céu escurece, o desejo acende, e eu volto a perder-me. Há noites que o dia não devia nascer, que o sol devia recusar-se a acordar, só para que nunca saísses da minha vida, nem sequer pelas frestas do poema, nem sequer pela metáfora cansada que ainda te chama amor.

Porque há versos que deviam durar uma eternidade e o teu nome é o único que ainda resiste à ressaca.

João Dórdio

FENDA — Revista de Arte, Literatura, Poesia e CulturaA FENDA nasce da vontade de criar um espaço de encontro entre a art...
21/08/2026

FENDA — Revista de Arte, Literatura, Poesia e Cultura

A FENDA nasce da vontade de criar um espaço de encontro entre a arte, a palavra e a comunidade. Inspirada no significado da própria palavra fenda — uma abertura por onde entra luz e ar — a revista assume-se como uma pequena fresta de sensibilidade, pensamento e criação no ritmo acelerado do quotidiano contemporâneo.

Num tempo marcado pela falta de tempo para ler, contemplar e viver a cultura, a FENDA propõe um formato próximo, acessível e de leitura leve, reunindo poesia, literatura, artes visuais, reflexão e diálogo cultural. Mais do que uma revista, pretende ser um objeto de proximidade: simples, humano e inspirador.

A FENDA divulga artistas, escritores e criadores contemporâneos, promovendo a partilha de ideias, linguagens e expressões artísticas, com especial atenção à ligação entre cultura e comunidade.

O projeto é promovido pela A4 - Espaço Criativo e Cultural , contando igualmente com o apoio institucional da Junta de Freguesia de Bucelas e com a colaboração de parceiros e mecenas culturais que acreditam na importância da cultura como força transformadora.

A FENDA não pretende ocupar espaço.

Pretende abri-lo.

Tenho pessoas mortas que me cumprimentam, como velhos bêbedos de balcão que já nem sabem se a mão que levantam é deles o...
20/08/2026

Tenho pessoas mortas que me cumprimentam, como velhos bêbedos de balcão que já nem sabem se a mão que levantam é deles ou da sombra. Tenho pessoas mortas que falam comigo, murmurando frases gastas, como quem ainda acredita que a rotina é oração e que o vazio tem salvação. Tenho pessoas vivas que já morreram em vida e não percebem: vestem gravatas, pagam contas, fazem s**o sem prazer, vivem sem respiração. São cadáveres que se movem com a disciplina de relógios baratos, convencidos de que estão a caminhar para algum lado quando já só arrastam pó.

Tenho recusado enterrar esses mortos em vida só para me rir deles sem saberem, rir da cara lavada que exibem de manhã, rir da higiene artificial que escondem, rir do vazio que os enche até ao tecto. Rir como quem cospe sangue para cima de uma estátua. Quanto mais bebo e quanto mais escrevo, mais desprezo tenho por esses mortos: o vinho arde-me na garganta, mas continuo a dizer-lhes na cara que a vida deles fede. Que vivem em caixões invisíveis, bem perfumados, cheios de cheiro a perfume barato.

O bloco de capa preta cheira a paixão, a cio, a raiva, a ressaca. Cheira a páginas arrancadas de dentro da minha boca, cheira a noites em que o álcool se mistura com o vómito e eu ainda encontro poesia nesse esgoto.
O bloco não deixa entrar aqueles mortos: aqui não há lugar para eles. Aqui só entram meretrizes que choram de riso, copos que se partem contra as paredes, amores que apodrecem antes de nascer. Aqui só entra a vida suja, maldita, corrosiva, que me mantém acordado quando a cidade inteira dorme com o rabo virado para o tecto.

E eu rio-me. Rio-me sozinho, com a boca cheia de dentes a cair, com a língua pesada de álcool, rio-me desses mortos que acreditam ser vivos, rio-me enquanto escrevo a lápide deles no meu bloco preto, rio-me porque sei que quando eu cair morto, pelo menos, vou cair vivo.

João Dórdio

Nos jardins de pedra onde as flores são de granito e o perfume é de silêncio,respiro enfim o que os vivos não entendem: ...
17/08/2026

Nos jardins de pedra onde as flores são de granito e o perfume é de silêncio,
respiro enfim o que os vivos não entendem: o descanso.
Não o sono leve das madrugadas, mas a queda funda na paz da terra fria.

Trago um caixão às costas – o meu próprio nome.
A loucura é irmã e guia, pega-me na mão como quem leva uma criança perdida.
Os mortos chamam-me em coro, mas em sussurro.
Não gritam. Não julgam. Só abrem espaço.

E aqui, no meio do nada, é onde tudo faz sentido.

João Dórdio

Nunca estive presente na tua ausência de mim.Mesmo quando o corpo fingia estar, mesmo quando o sorriso se disfarçava em ...
15/08/2026

Nunca estive presente na tua ausência de mim.
Mesmo quando o corpo fingia estar, mesmo quando o sorriso se disfarçava em copos cheios e noites vazias, mesmo quando a cama recebia sombras com outro nome – eras sempre tu, vestida de silêncio, de memória, de falta.

Nunca estive presente em algum lugar sem pensar em ti.
Porque tu eras o lugar.
O chão que me faltava, o ar que me ardia, o perfume que o vento roubava para me torturar.
Continuas a andar comigo, de mão dada, por todos os becos e madrugadas.
Mesmo quando juro que já te esqueci, é a tua mão que me impede de cair quando o álcool me empurra contra as paredes do mundo.

Nunca estive ausente da tua presença em mim.
Mesmo perdido, mesmo partido, mesmo completamente destruído.
Mesmo quando o copo está cheio e eu vazio, és tu que bebo, és tu que me embriagas, és tu que me sopras nas veias o delírio doce daquilo que já não existe, mas insiste.

És sempre tu presente na tua ausência.
Contigo sem ti, eternamente –
como uma maldição bonita, como um amor que se recusa a morrer, como um eco que grita o teu nome dentro de mim até a minha voz se calar.

E se algum dia me virem sorrir sem razão, não se enganem:
é só mais uma forma de chorar por ti.

João Dórdio

A TERÇA-FEIRAEla está à espreita.A terça-feira está sempre à espreita, escondida atrás da segunda-feira como quem conhec...
11/08/2026

A TERÇA-FEIRA

Ela está à espreita.

A terça-feira está sempre à espreita, escondida atrás da segunda-feira como quem conhece o caminho até à minha porta e não precisa de bater. Chega todas as semanas com as suas dores antigas, as suas saudades sem data de validade, os seus dentes podres e o álcool abundante, chega com a mesma cara de quem já me matou tantas vezes que deixou de precisar de o fazer.

Ela está sempre aqui para me matar sem eu morrer.

Para me enterrar sem funeral.

E talvez seja isso que mais cansa: continuar a respirar depois de já ter sido enterrado tantas vezes.

Por isso escrevo.

Escrevo para adiar o inadiável, como quem empurra com as duas mãos uma porta que sabe que acabará por abrir. Escrevo porque cada letra é uma pequena resistência, embora eu saiba que também é uma pequena rendição. Morro em vida em cada palavra, derreto a alma devagar, destruo o corpo lentamente, como se houvesse uma espécie de paciência cruel em tudo aquilo que me acontece.

Cada poema é um armistício.

Um cessar-fogo entre aquilo que ainda sou e aquilo que já perdi.

E cada texto, sem nunca chegar a ser poesia, talvez seja apenas o testamento de um mau poeta: uma alma penada camuflada de pseudo-rei das letras, um homem sentado diante de um bloco de capa preta a fingir que domina as palavras quando, na verdade, são elas que lhe seguram a garganta.

Fecho os olhos e inspiro.

E continuo a ver-te.

É estranho como alguém pode continuar dentro de nós depois de ter desaparecido da vida. Abraço-te sem te ter. Procuro-te no lugar vazio onde antes cabiam os teus braços. Faço amor com a tua ausência através de outros corpos, mas nenhum corpo sabe aquilo que o teu sabia. Nenhuma pele conhece exactamente o mapa da minha saudade.

E depois fico sozinho outra vez.

Sempre sozinho outra vez.

A terça-feira observa-me do outro lado da janela.

Eu aceno-lhe.

Não por coragem.

Por hábito.

Aceno à terça-feira como quem acena a um comboio que leva alguém que nunca mais regressará. Ela vai embora, por enquanto, mas eu sei que voltará.

Para a semana.

Com as mesmas dores.

As mesmas saudades.

Os mesmos dentes podres.

O mesmo álcool.

E talvez eu esteja aqui.

Talvez ainda esteja a escrever.

Talvez ainda esteja a tentar transformar a queda em literatura, a ausência em metáfora, a ruína em qualquer coisa que pareça uma frase.

Talvez ainda esteja a respirar de olhos fechados.

E a ver-te.

João Dórdio

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