Eventos Dordianos

Eventos Dordianos PÁGINA DE DIVULGAÇÃO DE EVENTOS, TERTÚLIAS E APRESENTAÇÕES LITERÁRIAS DE JOÃO DÓRDIO Espaço de divulgação de Poesia e Prosa Poética

É a solidão que mata,mas mata devagar, muito devagarinho,com beijos frios na nuca e promessas por cumprir.Não vem com fa...
21/05/2026

É a solidão que mata,
mas mata devagar, muito devagarinho,
com beijos frios na nuca e promessas por cumprir.
Não vem com faca nem com veneno – vem com silêncio.
Silêncio que se instala nos cantos da alma, muito devagar,
como o bolor nas paredes de um quarto esquecido.

É essa solidão que me faz escrever,
porque quem não tem a quem falar, escreve.
Quem não tem abraço, inventa braços nas palavras.
Quem não tem calor, acende ci****os e poemas.

A loucura vem depois – devagar, muito devagarinho – em passos de veludo,
trazendo recordações que eu escondi debaixo do tapete da memória.
Recordações tuas, de nós,
daqueles dias em que eu ainda acreditava que amar era viver
e não morrer aos poucos entre copos de vinho e páginas preenchidas num bloco…
Sempre de capa preta…

A tristeza…
Essa vem com sede.
Senta-se ao meu lado e pede mais um copo.
E eu sirvo.
Devagar, devagarinho...
Sirvo como quem reza,
como quem se afoga por dentro à espera que ninguém veja.
É essa tristeza que me faz beber,
não para esquecer,
mas para lembrar com menos dor.

A destruição é interior.
Não há ruína mais bonita do que a de um homem que se partiu por dentro
e ainda assim continua a escrever versos como se isso o salvasse.
O álcool é abundante.
Bebo o mundo e ainda me sobra sede.
Bebo os dias, as noites, os rostos que já não reconheço.
Bebo o que fui e o que deixei de ser.

E escrevo.
Devagar, devagarinho...
Escrevo tudo naquele tal bloco,
a caneta, a sangue, a vinho,
como quem deixa testamento
ou bilhete de suicídio
ou declaração de amor a ninguém.

Porque é isso que sou:
um poeta feito de restos,
um louco feito de versos,
um homem que se alimenta da própria dor para não morrer de fome.

João Dórdio

Devagar, devagarinho, parte a alma.Há uma dor que não se grita.Há um silêncio que não se cala.E entre o sofrimento e a e...
20/05/2026

Devagar, devagarinho, parte a alma.

Há uma dor que não se grita.
Há um silêncio que não se cala.
E entre o sofrimento e a esperança, mora a angústia, sentada no limiar do coração como quem espera por um barco que já não vem.
Partiu – devagar, devagarinho, como partem as coisas que amámos em silêncio – e por isso se perderam sem saberem que eram amadas.

A melancolia é irmã da paciência, mas nunca filha da paz.
Ela caminha descalça sobre os dias lentos, sobre os gestos suspensos, sobre o nome que já não se diz, mas ainda ecoa.
Cada memória é um fruto que amadurece no escuro, e há feridas que florescem em jardins invisíveis, onde só entra quem já chorou por dentro.

Dizem que o sofrimento é o vaso que escava mais fundo para que nele caiba mais alegria.
Mas eu não sei se acredito.
Porque às vezes, o que f**a, depois da partida, não é espaço: é ausência.
E a ausência não se preenche – aprende-se a dançar com ela.

Devagar, devagarinho, a alma vai voltando a si.
Mas nunca mais volta inteira.
Porque há partidas que são raízes arrancadas do peito.
E há amores que, por muito que doa, nascem só para partir.

João Dórdio

Deveria haver uma vida dentro desta vida, uma segunda pele por baixo desta pele cansada, uma respiração mais funda por b...
18/05/2026

Deveria haver uma vida dentro desta vida, uma segunda pele por baixo desta pele cansada, uma respiração mais funda por baixo desta respiração apressada. Deveria haver um espaço onde os dias não fossem apenas dias, mas abraços demorados, gestos de eternidade que não se apagam no silêncio da rotina.

Deveria haver um sonho dentro dos meus sonhos, um sonho que não se dissolvesse ao primeiro abrir de olhos, um sonho que f**asse preso à carne como tatuagem que não se apaga. Um sonho que fosse estrada, casa, cais. Que fosse mais real do que tudo o que chamo realidade.

Deveria haver uma verdadeira paixão dentro de tantos corpos – uma paixão que não se escondesse em beijos de plástico, nem em camas de passagem, nem em promessas feitas a correr. Uma paixão que fosse incêndio, que fosse água, que fosse remédio e ferida ao mesmo tempo.

Deveria haver outra bebida sem ser álcool, uma bebida que me embriagasse de vida, que me desse vertigem sem ressaca, que me queimasse a garganta com a febre de existir.

Deveria haver outro bloco com outra cor sem ser preta – um bloco vermelho, azul, ou talvez branco, onde as palavras não sangrassem dor, mas florescessem em alegria. Onde cada página fosse um lugar de descanso, e não um campo de batalha.

Mas não há...

Há apenas este corpo cansado, este sonho a desfazer-se no travesseiro, este copo cheio, este bloco escuro onde rabisco a minha falta de tudo.

João Dórdio

Dia 29 de Maio, esperamos por todos vós!Grato pelo convite, Luisa Ramos!
18/05/2026

Dia 29 de Maio, esperamos por todos vós!

Grato pelo convite, Luisa Ramos!

Há fantasmas a fumarem ci****os no meu quarto.Não me dizem nada.Olham-me como se soubessem que estou lixado,como se tive...
17/05/2026

Há fantasmas a fumarem ci****os no meu quarto.
Não me dizem nada.
Olham-me como se soubessem que estou lixado,
como se tivessem apostado vinho na minha derrota.

A cama está desfeita há dias.
Talvez semanas.
Já não sei onde acaba o sono e começa o delírio.
Tenho voado sem sair do lugar,
tenho morrido devagar,
com o copo na mão e o coração aos tiros no peito.

O vazio é um cão que me segue por toda a casa,
morde-me os calcanhares com saudade e raiva.
E eu deixo.
Deixo porque já não acredito em redenção,
só em tormento,
em noites longas,
em poesia escrita com sangue seco e vinho derramado.

A loucura?
A loucura é bela às vezes.
Cheira a mulher nua e a lençóis sujos.
Tem o sabor das palavras que nunca disse.
Mora neste bloco de capa preta,
como quem vomita vísceras para fingir que sente.

Há poemas espalhados pelo chão,
misturados com garrafas vazias e lembranças.
Uns gemem, outros gritam,
nenhum me salva.
E eu aqui,
sozinho com os fantasmas,
a tentar voar com os ossos partidos,
num quarto que já não tem porta de saída.

João Dórdio

Há homens que regressam a casa.Eu regresso às ruínas.Acendo ci****os sem os fumarcomo quem acende velaspor todos os sant...
16/05/2026

Há homens que regressam a casa.
Eu regresso às ruínas.
Acendo ci****os sem os fumar
como quem acende velas
por todos os santos que morreram dentro de mim
sem direito a funeral.

A mesa da cozinha continua torta,
o vinho continua barato,
e eu continuo este milagre miserável
de sobreviver às terças-feiras.

Há noites em que o silêncio
se senta ao meu lado
com a tua voz vestida de faca.
E eu deixo.
Porque certas feridas
já pagam renda nesta casa.

A cidade inteira dorme
enquanto eu converso com garrafas vazias
e com um Deus também bêbado
que nunca soube salvar ninguém.
Talvez Ele também esteja cansado
de ouvir homens como eu
a pedir amor
com os bolsos cheios de incêndios.

Escrevo porque há cadáveres
que só sabem respirar em papel.
Escrevo porque o coração
é um piano desafinado
num teatro abandonado.

Escrevo porque enlouquecer devagar
sempre me pareceu mais elegante
do que desistir de repente.

E depois há o teu nome.
Esse animal feroz
a correr pelos corredores da memória
a derrubar copos,
a abrir janelas,
a incendiar quartos antigos.

O teu nome ainda me despe
mesmo quando estou sozinho...

Talvez amar seja isto:
um homem sentado no escuro,
a beber os restos da madrugada,
enquanto tenta convencer o próprio fígado
de que a saudade
não mata –
apenas aprende a escrever.

João Dórdio

Endereço

Lisbon

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