Pela Palavra - Página de Poesia e Prosa

Pela Palavra - Página de Poesia e Prosa Poesia e Prosa Gosto de Animais e de Plantas. De Ler e Escrever. De Aprender e Ensinar. De Lutar e Partilhar. De Música e Pintura. De Meditação e de Paz.

Gosto de Justiça e de Princípios de Bondade, Igualdade e Consideração por Todos.

O VALOR DE UM POEMAQuem pode avaliar a Poesia?A palavra escolhida, luz da alma.descosendo-a devagar cortando os pontose ...
20/11/2025

O VALOR DE UM POEMA

Quem pode avaliar a Poesia?

A palavra escolhida, luz da alma.
descosendo-a devagar cortando os pontos
e rasgando-a por dentro, assim, sem nada
até se tornar livre do que foi.

Como um murro no estômago ou uma pena
que pairasse leve sobre a pele.

Como dizer, falar, desse poema
que nos faz sentir o que não vemos
com olhos que não estão na nossa face
mas por dentro do corpo, pelo peito.

Nos braços, vibrantes, sequiosos
da trémula esperança de o dizer.
Como dizer de ser ou não mais belo?

Como medir a alma e a sua aura,
a luz que reverbera em vozes díspares
em cada um que as ouve, as sente e as lê.
Como saber dos mitos, o porquê?

Se nela um afago ou uma pedra
são paz e pão e ferro e aço e força,
a mesma suavidade e a mesma altura
que leva o voo da águia erguida em brasa.

Capazes de salvar cada manhã
ou de nos render num grito,
a alma e a voz?

Composição alquímica e fantástica.
Enigma do fado que há nós.

E tudo tem a ver como se escreve
o som e a cadência das palavras,
a trança da forma e o conteúdo.

O sítio do verso e o mistério
do modo certo e oculto e não explicado
como cada poeta,
os entrançou.

Paula Coelho Pais
Lx. 06.11.2024

ANTES DE...Antes de te esgotares, escreve. E lê em ti as frases que te estruturam o pensamento.Antes de te rasgares por ...
20/11/2025

ANTES DE...

Antes de te esgotares, escreve. E lê em ti as frases que te estruturam o pensamento.

Antes de te rasgares por dentro, fala com alguém que te saiba ouvir. E abraça essas palavras partilhadas.

Antes de colocares as tuas dores num local mais alto do que a esperança, divide o que sentes. E olha nos olhos de quem te sabe ver.

Não te feches nesse quarto escuro onde a solidão te esmaga. Destranca esse lugar de sombras.

E mesmo que não vejas de início uma mão estendida para ti.
Mesmo que ninguém te pareça escutar. Mesmo que te continues a sentir só e os teus problemas se afigurem do tamanho do mundo, deixa a porta entreaberta.

Tem coragem. Tem fé.

O sol procurará essa fresta e começará, a pouco e pouco, a entrar.

Paula Coelho Pais

A NAU DA NOSSA VIDAPor vezes sentimo-nos tristes. Não que haja qualquer motivo novo, muito preciso, para que tal aconteç...
20/11/2025

A NAU DA NOSSA VIDA

Por vezes sentimo-nos tristes. Não que haja qualquer motivo novo, muito preciso, para que tal aconteça. Mas talvez porque tenhamos um momento de maior lucidez em que todos esses impactos menos luminosos que vamos acumulando ao longo dos dias, dos meses e dos anos, nos são revelados em uníssono.

São instantes de algum vazio em que temos de procurar dentro de nós o bojo do barco do nosso peito, junto à quilha, para calafetarmos qualquer esboço de fuga que começasse a pôr em perigo a navegação.

Estudar a altura do calado. Rever a carta de bordo. Rasgar planos que nos pareciam sorrir, e que hoje sabemos falhados, mas porventura ainda nos angustiem pelo que nos fizeram sofrer. E olhar para o Céu com todas as réstias de esperança que nos sobrarem.

Habituámo-nos há muito a navegar pelas estrelas. E elas nunca nos faltaram. Talvez tenhamos noites em que não as conseguimos ver mais definidas e errámos a rota. Somos humanos. Mas foi com elas que aprendemos a levantar a cabeça quando tudo nos parecia faltar.

E reerguemo-nos. Sempre. Uma e outra vez. Arregaçámos as mangas e transformámos o velho galeão quebrado numa pequena nau, mais favorável. Ainda que mais pequena. Mais ao nosso jeito. Mais à nossa mão. No fundo, mais nossa.

É, pois, chegado um novo dia para abrir as janelas. Para lavar os vidros sujos do salitre pincelado pelas vagas alterosas. Para varrer as mágoas do chão, entre pedaços de limos e areias das tempestades. Para despejar as sombras dos fantasmas que invadiram as velhas arcas das nossas memórias mais fundas e preciosas. É chegado esse tempo, absolutamente necessário.

E recordar as vozes dos que, mesmo já não connosco, nunca nos deixaram. Porque gostaram de nós. E no-lo disseram. Tempo, como sempre, de lembrar os seus conselhos e os princípios que nos deixaram.

Os outros. Os que se afastaram sem uma palavra. Os que trouxeram sombras imprecisas e expectativas goradas em que acreditámos ou quisemos acreditar. Os que nos dispersaram os planos sem uma palavra de arrependimento, julgando-se sempre certos, navegarão nas suas naus, nas suas rotas, cumprindo os seus destinos. Que bons ventos os acompanhem.

Agora é tempo de pensarmos em nós. E de nos abrirmos todas as portas sonhadas da nossa vida.

Enquanto é tempo. Enquanto for o nosso tempo.

Paula Coelho Pais
Lx. 10-11.01.2025
...
Ilustração interpretativa - IA e EA.

FALTA…Por vezes, falta o tempo e a coragem.Falta a parte da vida onde guardámoso alento para seguir esta viagem.Por veze...
20/11/2025

FALTA…

Por vezes, falta o tempo e a coragem.
Falta a parte da vida onde guardámos
o alento para seguir esta viagem.

Por vezes, falta o espanto e a emoção,
Falta o sonho e a vontade de trocarmos
o talvez, pelo sim… ou pelo não.

Por vezes, falta o céu e falta a estrada
e falta a Estrela Polar e a nortada
que nos leve, amparados, pela mão.

Por vezes, falta o sol dentro do peito,
falta a voz e o olhar que tinha o jeito
de quem nos viu nascer… e falta o chão.

Por vezes sentimos faltar tudo,
até nós nos faltamos quando mais
nos faltava escutar a nossa voz.

Mas um dia será o tempo certo
de fazer seara no deserto
e colher o que houver dentro de nós.

Nesse dia saberemos o sentido
de cada noite e cada hesitação.

Das pedras, que fizeram nossa escada.
e de tudo o que aprendemos em silêncio
bem no fundo do nosso coração...

… nas vezes que sentimos tanta falta
da voz de um amigo e de um irmão...

Paula Coelho Pais
Lisboa, 23 de Novembro de 2019

HAVIA…Havia um labirinto de sorrisos.Mas nele nos sabíamos encontrar.Não tinha início ou fim, vivia dentrode um espaço s...
20/11/2025

HAVIA…

Havia um labirinto de sorrisos.
Mas nele nos sabíamos encontrar.
Não tinha início ou fim, vivia dentro
de um espaço sem tempo nem lugar.

Era a força que tinhas para mim.
Era a o voo do poema no teu peito.
Era o cheiro a cravo e alecrim.
Era o mar e era a serra e era o jeito.

De nunca nos perdermos um do outro.
De nunca nos dizermos menos bem.
De vencermos a noite e a tempestade.
Era um texto, escrito, pouco a pouco.

Era o sol, na manhã que sempre vem.
Era a casa, onde morava a amizade.

Paula Coelho Pais
Lisboa, 28 de Junho de 2020

AUSÊNCIAEm cada ventania te pressinto.Esse amigo ausente que se sente.E em cada chuva forte mais me minto,quando tudo é ...
20/11/2025

AUSÊNCIA

Em cada ventania te pressinto.
Esse amigo ausente que se sente.
E em cada chuva forte mais me minto,
quando tudo é vazio e não presente.

Fomos muito o que é de esperança, não de jogo.
De calor, de verdade, força e abrigo.
Mas saíste desse círculo de fogo
e deixaste o vazio de estar contigo.

Nunca mais me disseste o que sentias.
Nunca mais procuraste a minha voz.
Nunca mais tu quiseste essa alegria.
Que era nossa, mesmo na distância.

A crescer, desde a mais profunda infância.
E pintaste de noite, cada dia.

Paula Coelho Pais
Lisboa, 19 de Novembro de 2023

PEQUENA ORAÇÃO CONTRA A TRISTEZA E O MALContra o esquecimento da amizade fraterna, eu peço: memória.Contra a prisão dos ...
20/11/2025

PEQUENA ORAÇÃO CONTRA A TRISTEZA E O MAL

Contra o esquecimento da amizade fraterna, eu peço: memória.
Contra a prisão dos caminhos enganosos, eu peço: libertação.
Contra a armadilha dos caminhos nefastos, eu peço: vitória.
Contra o enrodilhar nas teias dos enganos, eu peço: redenção.

Contra a insensibilidade do egoísmo cruel, eu peço: pureza.
Contra a arrogância fútil da soberba, eu peço: humildade.
Contra a sedução do luxo e do vazio, eu peço: singeleza.
Contra a influência do inveja e da mentira, eu peço: claridade.

Contra a entrega a interesses sem ética, eu peço: contrição.
Contra a dependência da ausência do amor, eu peço: insubmissão.
Contra a tristeza por falta de amor próprio, eu peço: perseverança.
Contra a motivação por objectivos erróneos, eu peço: coerência.

Contra todo o mal e toda a aflição, eu peço: resistência.
E contra o desespero da noite mais profunda, eu peço: fé e esperança.

Paula Coelho Pais
....
Imagem: IA/Digital Art

O NOSSO CAMINHOPor vezes, com o tempo, passamos a gostar do que temos de passar a gostar. Não que não façamos escolhas. ...
20/11/2025

O NOSSO CAMINHO

Por vezes, com o tempo, passamos a gostar do que temos de passar a gostar. Não que não façamos escolhas. E teremos sempre opções. Mas nunca todas as que sonhávamos ter. Mesmo que optemos por não escolher, essa é também uma escolha.

Por mais que façamos nunca poderemos ter todo o controlo sobre a vida. E ela tem surpresas para nós a cada momento. Por vezes admiramo-nos com a sua sabedoria. Como se houvesse algo que tivesse esperado por nós o tempo todo até ao instante em que tinha de ser. São as pequeninas pedras que fazem o nosso caminho.

E há dias em que o caminho f**a turvo, deixamos de vê-lo, de o perceber nitidamente. Mas nas tarde de sol ele revela-se e sorri-nos. Não saberíamos que tínhamos de gostar daquela flor até a termos visto. Mas era suposto ela estar ali naquela dobra do caminho. Não julgaríamos que os nossos olhos procurariam as cores luminescentes nas asas de um colibri, mas ele fez-se parte de nós e conquistou-nos, a pouco e pouco, com a paciência de uma trepadeira sobre a árvore mais alta.

Esses são os nossos amores, os gostos que temos na vida. E tantas vezes só os identif**amos quando os encontramos. Não era aquela a flor de que mais gostávamos, mas foi ela que nos saudou numa certa manhã e se tornou preciosa para nós. Tínhamos partido em busca do pássaro que mais admirávamos, mas foi outro que animou o nosso coração com o seu canto de esperança quando todos os outros nos abandonaram.

Cada um no seu momento certo. Nem antes, nem depois. No caminho que a vida revelou ao nosso coração, tantas vezes cansado, tantas vezes magoado.

Esse caminho em que viviam, à nossa espera, sem nós sabermos, os nossos pássaros e as nossas flores.

Paula Coelho Pais

DAR E RECEBERQuantas serão as ilusões no decorrer das nossas vidas? Mais do que as estrelas do firmamento, diríamos nós,...
20/11/2025

DAR E RECEBER

Quantas serão as ilusões no decorrer das nossas vidas? Mais do que as estrelas do firmamento, diríamos nós, utilizando uma imagem singelíssima. Mas quantas foram as vezes em que quisemos mesmo acreditar que sim? Que era possível...e depositámos a nossa esperança mais pura num sorriso, numa pessoa, numa ideia, num projecto?...

Acreditar que seria aquela a vez em que tocaríamos as nuvens, ainda que fosse só ao de leve; que a espera havia valido a pena e que o sonho estaria prestes a realizar-se. Queríamos crer que sim, com toda a nossa alma e todo o nosso coração porque puséramos naquele caminho toda a entrega e o que havia de mais genuíno em nós.

Tantos dias, meses, anos nesse fervilhar de ideias e planos. A labutar, a não dormir, a sonhar, a chorar e a rir. Num esforço, numa inquietação, num frenesim. Na hesitação recorrente. No desânimo caldeado de esperança. A beber o que nos diziam e o que não diziam. A deduzir e a inferir intenções e opiniões. Sem certeza de nada. E ainda assim inundados de estrelas por dentro.

Deitados no chão com papeis em volta, e telas e lápis e pincéis e folhas de música e ideias para nós maravilhosas e tudo o mais que nos fosse importante no caldo da nossa essência mais profunda. Rodeando-nos de dúvidas e de luzes como se fossem a nossa própria constelação. A tentar corrigir, melhorar, fazer sempre um pouco mais, a buscar ir mais além. A achar, por vezes, que não valia a pena…

Não por soberba, mas por respeito por nós e pelos outros. Não por vaidade, mas porque o nosso sonho assim o exigia. Não porque decidimos este processo de um modo exclusivamente voluntário, mas porque ele nos preencheu de tal forma que ganhou quase vontade própria e deixou de ser possível contê-lo num segredo só nosso. E porque nascemos assim, a precisar de abrir a nossa alma ao mundo. De a rasgar toda ao mundo. De a entregar toda ao mundo. Por muito difícil que se tornasse esse caminho...

Esse fazer parte da construção do sonho, connosco. Varando o tempo e o espaço. Ampliando-os. Lançando-nos fora dessas dimensões. Imaginando, idealizando, projectando, construindo, tentando.

Sempre com o melhor de que somos capazes. Mesmo quando, bem o sabemos, é tudo tão pouco… tão pouco… tão pouco...
E ainda que o façamos com toda a humildade, é com incontida alegria que nos damos. E essa é a nossa verdade.

E é importante dar.
Dar e receber.

Paula Coelho Pais

ONDE NASCE A PAZ? Este texto esteve para se chamar ao contrário. Ou seja, brotar da fonte de onde nascem as emoções gera...
20/11/2025

ONDE NASCE A PAZ?

Este texto esteve para se chamar ao contrário. Ou seja, brotar da fonte de onde nascem as emoções geradas pelas guerras. Recusando-as naturalmente. Mas reconhecendo a raiva e a revolta que elas nos geram.

Tenho acusado em mim essa sintomatologia que julgo afectar-nos neste momento a todos ou a muitos de nós. Lágrimas constantes.

Por vezes difíceis de estancar. Um nó na garganta que não se consegue desfazer. Sinais de impaciência e dor sobre as questões que levam ao destempero da vida. As que geram o conflito e a discussão. As batalhas mais acesas. A guerra.

Comecei mesmo a elencar situações capazes de estar na génese deste turbilhão. E são tantas, tantas…Pessoais, sociais, políticas.

Tristezas profundas nascidas do que sabemos e vemos diariamente. Imagens e certezas que nos consomem a alma. Que nos geram receios, ansiedades, pesadelos. E, sobretudo, um tremendo e desesperado sentimento de impotência perante a maldade insana que parece não parar de crescer de forma agressiva e despudorada.

Senti então como necessário algo diverso. Que importância alguma terá o que escrevo, naturalmente. Mas ainda assim, a nossa voz individual não deixa de ser um modesto contributo para o todo das ideias partilhadas.

Então virei o texto do avesso. E comecei a apagar as palavras sobre a génese dos conflitos e a procurar outras do lado das respostas.

Comecei a ver, nesse instante, uma pomba a surgir lentamente do nada, as letras a desconstruírem-se em asas, as linhas a desenharem um breve bico segurando um pequeno ramo de oliveira, uma certa luz reflectida num olhar. Um sorriso, fugaz ainda, mas com promessas de esperança.

No meio da perplexidade escolhi um novo título para o meu texto: “ Onde nasce a Paz?”, recomeçando a escrita. E no lugar anteriormente ocupado pela pergunta “Onde nasce a Guerra?” escrevi…

A paz começa dentro de nós.

Muitas são as filosofias e até as religiões que defendem esta máxima. Ainda que com outras ou similares palavras. Mas quantas vezes um conceito tão importante é realmente praticado? Porque nem sempre é fácil. Esperamos recebê-la do que nos rodeia. Do ambiente, dos outros. Que alguém a traga e a faça por nós.

Precisaríamos que tudo fosse perfeito e corresse a nosso contento para mantermos o equilíbrio. E então alcançaríamos esse bem supremo.

Mas a vida não funciona assim. Não é fácil. Nada fácil. As provas são duras e constantes. O nosso percurso nesta existência é marcado por alegrias mas também por dores. Por injustiças e medos e desilusões. Quantas vezes a raiva e a revolta tomam conta de nós? E seremos sempre justos nos nossos julgamentos? Em que ocasiões infelizes, mesmo sem querermos, teremos magoado alguém?

E essa expressão, essa palavra, tão pequenina mas tão poderosa impôs-se nas minhas mãos e pediu-me que voltasse a escrevê-la em cada linha.

A paz, nasce do combate às injustiças, através do encontro e do diálogo. Da procura do entendimento. De olharmos para dentro de nós antes de qualquer julgamento alheio.

A paz cresce do confronto com os egoísmos e do combate aos desejos de ganância.

A paz fortalece-se com o exercício da temperança e da sabedoria.
Não bastava ainda. Havia esse trabalho profundo a fazer. Porque dizer assim frases em tom de máximas parece fácil. São (serão…) belas e procuram encerrar conhecimentos de vida, de experiência sentidos e pensados. Mas viver o que preconizam nem sempre o é. Implica esforço e lapidação do que somos. Implica uma prática diária e persistente, por vezes mesmo dolorosa, por ir contra os nossos instintos mais básicos que colocam a sobrevivência do ego no mais alto patamar.

A paz nasce da palavra que soubemos travar a tempo, mordida nos lábios, porque a sabíamos capaz de magoar alguém sem qualquer necessidade.

A paz nasce da reflexão sobre o que podemos fazer de melhor para o mundo.

A paz nasce de cada momento de pacif**ação dos nossos pensamentos e emoções.

A pequena ave ia sorrindo. Tinha pousado sobre as costas da minha mão enquanto escrevia, debicando o papel, agarrada aos meus dedos, enriquecidos por uma tinta virtual mas profunda.

A paz nasce do bem que fazemos a cada decisão. Da tentativa de conhecimento mais demorado de cada um que se cruza connosco. Como quando nos contrariamos nos nossos julgamentos iniciais, nos nossos preconceitos absurdos, para dar ao outro lugar na nossa alma e na nossa aceitação.

A paz frutif**a todas as vezes que vamos ao encontro de quem estávamos distantes e, mais difícil mas necessário, de quem nos magoou.

A paz nasce da força que trazemos dentro de nós para contrariar o mal.

A paz nasce no lugar mais puro e mais generoso que existe dentro de nós e da assunção desse lugar, sem vergonhas nem hesitações.
Sobrevoou os livros e cadernos que ali tinha. Com o seu pequeno bico folheou um e outro, enquanto uma brisa suave vinda da janela entreaberta levantava no meu quarto inúmeras páginas de escritas de tantos autores maravilhosos.

A paz nasce da luta que fazemos pelo bem comum. Da educação para o respeito, para a tolerância, para a multiplicidade, para a inclusão. De uma cultura para a arte e para a beleza do mundo. Da procura incessante do saber.

A paz defende a pluralidade, é feita da iluminação da alma global dos seres, vivendo em harmonia na busca do conhecimento construtivo.

Lançou-me então um olhar rumo ao céu. Era hora de partir para outros lugares onde também a esperavam. Mas pedia-me algo que não escrevera ainda.

A paz é uma construção frágil que temos de reiniciar a cada dia. Não deve ser tratada como algo seguro e garantido.

A paz é feita de luz. De entrega. De esforço. De tentativas constantes para ultrapassar feridas e mágoas pessoais e colectivas.
A paz nasce da aprendizagem da empatia e da compaixão para com todos os seres.

A paz é encontro e reencontro iniciados milhares de vezes, sempre que for necessário. E é testemunho que temos de deixar, de passar de ensinar às novas gerações. Não podemos assumir que elas o saibam, compreendam e abracem se nós nos demitirmos dessa pedagogia essencial. E, sobretudo, do exemplo que lhes soubermos dar.

Olhou-me então, já no parapeito da janela. Vi a brisa da tarde a soerguer-lhe quase imperceptivelmente as p***s das asas e um pequeno reflexo nos olhos brilhantes, numa comoção imensa. E percebi.
A paz é feita de liberdade, com responsabilidade. De justiça, com compaixão. De verdade, com compreensão. De propósito. De bondade. De diálogo. A paz é equilíbrio.

Por isso a sua conquista é, por vezes, tão difícil, penosa e árdua. Cheia de dores de crescimento. De sustos e perplexidades. De áridas travessias nas quais não sabemos onde ir buscar forças. Mas vale a pena, vale tanto a pena encontrar esse espaço onde nos sentimos globalmente reconhecidos, acolhidos e respeitados na nossa forma de ser.

Voava já. Acenou-me lá de cima, do alto, quase de outra esfera. Era já tanta coisa a reter, a semear. Tanto pelo qual lutar. Mas faltava-lhe ainda segredar-me ao coração um pequeno mas importante apontamento...

A paz é feita de caminho. De um caminho que se sabe, aceita e procura.

Mais. Ela constitui o próprio caminho. Quem sabe o único caminho possível para a construção do futuro. Missão, propósito e opção sagrada, tecida dentro de cada um de nós. Como tácita oração de comunhão e amor para o mundo.

Prometeu voltar. Porque tantas vezes temos de reforçar com a voz da esperança, dentro de nós, aquilo em que mais acreditamos.
Somos humanos. Fortes e frágeis como a água.

E há dias difíceis. Muito difíceis. A Paz sabe disso.

Paula Coelho Pais
Lisboa, 25 de Março de 2022

DA NORMALIDADEO que é a normalidade? Talvez a ausência do espanto de estar vivo? A falta de coragem de ser diferente? A ...
19/11/2025

DA NORMALIDADE

O que é a normalidade? Talvez a ausência do espanto de estar vivo? A falta de coragem de ser diferente? A diminuição total de correr riscos? O jogar sempre pelo seguro? O ir com a maré? O não levantar ondas nem chamar a atenção? O ser-se assim, de um modo que não se entende bem. Silencioso e parco como um final de tarde indefinido?

Pode ser o grito que nunca se largou. A paixão jamais confessada. O medo de cair no ridículo. A jura que os lábios travaram por receio.

As ideias de se ser o que parecia loucura. A conversa mais importante que não aconteceu. O sair de madrugada proclamando poemas em voz alta. O nadar à luz da Lua sem horários de regresso.

O que é a normalidade? Quem sabe tudo isto e ainda o mais que nos tranca dentro de nós para que cumpramos a racionalidade expectável e séria e adulta.

O olhar-se ao espelho todos os dias e ver o mundo inteiro menos a si e ouvir milhões de nomes menos o seu.

Paula Coelho Pais
Lx. 19.11.2025

LANÇAMENTO DE OBRA POÉTICA: "Numa Rua completamente às escuras movem-se estes versos"No próximo dia 25 de novembro, pela...
17/11/2025

LANÇAMENTO DE OBRA POÉTICA: "Numa Rua completamente às escuras movem-se estes versos"

No próximo dia 25 de novembro, pelas 17h00, na Biblioteca de Alcântara - José Dias Coelho, realizar-se-á o lançamento de uma Antologia Poética com a chancela da Poética Edições. Organização de Virgínia Do Carmo e Lília Tavares.

A presentação da obra será feita por Fernando Pinto do Amaral. E contará com o apoio da CML e das BLX.

Entre tantos excelentes autores poetas que integram este livro, tenho o grato gosto de participar com um poema de minha autoria.

F**a o convite para passaram uma tarde com Poesia.

Muito grata.

Paula Coelho Pais
Lx. 17.11.2025

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Lisbon

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