20/11/2025
ONDE NASCE A PAZ?
Este texto esteve para se chamar ao contrário. Ou seja, brotar da fonte de onde nascem as emoções geradas pelas guerras. Recusando-as naturalmente. Mas reconhecendo a raiva e a revolta que elas nos geram.
Tenho acusado em mim essa sintomatologia que julgo afectar-nos neste momento a todos ou a muitos de nós. Lágrimas constantes.
Por vezes difíceis de estancar. Um nó na garganta que não se consegue desfazer. Sinais de impaciência e dor sobre as questões que levam ao destempero da vida. As que geram o conflito e a discussão. As batalhas mais acesas. A guerra.
Comecei mesmo a elencar situações capazes de estar na génese deste turbilhão. E são tantas, tantas…Pessoais, sociais, políticas.
Tristezas profundas nascidas do que sabemos e vemos diariamente. Imagens e certezas que nos consomem a alma. Que nos geram receios, ansiedades, pesadelos. E, sobretudo, um tremendo e desesperado sentimento de impotência perante a maldade insana que parece não parar de crescer de forma agressiva e despudorada.
Senti então como necessário algo diverso. Que importância alguma terá o que escrevo, naturalmente. Mas ainda assim, a nossa voz individual não deixa de ser um modesto contributo para o todo das ideias partilhadas.
Então virei o texto do avesso. E comecei a apagar as palavras sobre a génese dos conflitos e a procurar outras do lado das respostas.
Comecei a ver, nesse instante, uma pomba a surgir lentamente do nada, as letras a desconstruírem-se em asas, as linhas a desenharem um breve bico segurando um pequeno ramo de oliveira, uma certa luz reflectida num olhar. Um sorriso, fugaz ainda, mas com promessas de esperança.
No meio da perplexidade escolhi um novo título para o meu texto: “ Onde nasce a Paz?”, recomeçando a escrita. E no lugar anteriormente ocupado pela pergunta “Onde nasce a Guerra?” escrevi…
A paz começa dentro de nós.
Muitas são as filosofias e até as religiões que defendem esta máxima. Ainda que com outras ou similares palavras. Mas quantas vezes um conceito tão importante é realmente praticado? Porque nem sempre é fácil. Esperamos recebê-la do que nos rodeia. Do ambiente, dos outros. Que alguém a traga e a faça por nós.
Precisaríamos que tudo fosse perfeito e corresse a nosso contento para mantermos o equilíbrio. E então alcançaríamos esse bem supremo.
Mas a vida não funciona assim. Não é fácil. Nada fácil. As provas são duras e constantes. O nosso percurso nesta existência é marcado por alegrias mas também por dores. Por injustiças e medos e desilusões. Quantas vezes a raiva e a revolta tomam conta de nós? E seremos sempre justos nos nossos julgamentos? Em que ocasiões infelizes, mesmo sem querermos, teremos magoado alguém?
E essa expressão, essa palavra, tão pequenina mas tão poderosa impôs-se nas minhas mãos e pediu-me que voltasse a escrevê-la em cada linha.
A paz, nasce do combate às injustiças, através do encontro e do diálogo. Da procura do entendimento. De olharmos para dentro de nós antes de qualquer julgamento alheio.
A paz cresce do confronto com os egoísmos e do combate aos desejos de ganância.
A paz fortalece-se com o exercício da temperança e da sabedoria.
Não bastava ainda. Havia esse trabalho profundo a fazer. Porque dizer assim frases em tom de máximas parece fácil. São (serão…) belas e procuram encerrar conhecimentos de vida, de experiência sentidos e pensados. Mas viver o que preconizam nem sempre o é. Implica esforço e lapidação do que somos. Implica uma prática diária e persistente, por vezes mesmo dolorosa, por ir contra os nossos instintos mais básicos que colocam a sobrevivência do ego no mais alto patamar.
A paz nasce da palavra que soubemos travar a tempo, mordida nos lábios, porque a sabíamos capaz de magoar alguém sem qualquer necessidade.
A paz nasce da reflexão sobre o que podemos fazer de melhor para o mundo.
A paz nasce de cada momento de pacif**ação dos nossos pensamentos e emoções.
A pequena ave ia sorrindo. Tinha pousado sobre as costas da minha mão enquanto escrevia, debicando o papel, agarrada aos meus dedos, enriquecidos por uma tinta virtual mas profunda.
A paz nasce do bem que fazemos a cada decisão. Da tentativa de conhecimento mais demorado de cada um que se cruza connosco. Como quando nos contrariamos nos nossos julgamentos iniciais, nos nossos preconceitos absurdos, para dar ao outro lugar na nossa alma e na nossa aceitação.
A paz frutif**a todas as vezes que vamos ao encontro de quem estávamos distantes e, mais difícil mas necessário, de quem nos magoou.
A paz nasce da força que trazemos dentro de nós para contrariar o mal.
A paz nasce no lugar mais puro e mais generoso que existe dentro de nós e da assunção desse lugar, sem vergonhas nem hesitações.
Sobrevoou os livros e cadernos que ali tinha. Com o seu pequeno bico folheou um e outro, enquanto uma brisa suave vinda da janela entreaberta levantava no meu quarto inúmeras páginas de escritas de tantos autores maravilhosos.
A paz nasce da luta que fazemos pelo bem comum. Da educação para o respeito, para a tolerância, para a multiplicidade, para a inclusão. De uma cultura para a arte e para a beleza do mundo. Da procura incessante do saber.
A paz defende a pluralidade, é feita da iluminação da alma global dos seres, vivendo em harmonia na busca do conhecimento construtivo.
Lançou-me então um olhar rumo ao céu. Era hora de partir para outros lugares onde também a esperavam. Mas pedia-me algo que não escrevera ainda.
A paz é uma construção frágil que temos de reiniciar a cada dia. Não deve ser tratada como algo seguro e garantido.
A paz é feita de luz. De entrega. De esforço. De tentativas constantes para ultrapassar feridas e mágoas pessoais e colectivas.
A paz nasce da aprendizagem da empatia e da compaixão para com todos os seres.
A paz é encontro e reencontro iniciados milhares de vezes, sempre que for necessário. E é testemunho que temos de deixar, de passar de ensinar às novas gerações. Não podemos assumir que elas o saibam, compreendam e abracem se nós nos demitirmos dessa pedagogia essencial. E, sobretudo, do exemplo que lhes soubermos dar.
Olhou-me então, já no parapeito da janela. Vi a brisa da tarde a soerguer-lhe quase imperceptivelmente as p***s das asas e um pequeno reflexo nos olhos brilhantes, numa comoção imensa. E percebi.
A paz é feita de liberdade, com responsabilidade. De justiça, com compaixão. De verdade, com compreensão. De propósito. De bondade. De diálogo. A paz é equilíbrio.
Por isso a sua conquista é, por vezes, tão difícil, penosa e árdua. Cheia de dores de crescimento. De sustos e perplexidades. De áridas travessias nas quais não sabemos onde ir buscar forças. Mas vale a pena, vale tanto a pena encontrar esse espaço onde nos sentimos globalmente reconhecidos, acolhidos e respeitados na nossa forma de ser.
Voava já. Acenou-me lá de cima, do alto, quase de outra esfera. Era já tanta coisa a reter, a semear. Tanto pelo qual lutar. Mas faltava-lhe ainda segredar-me ao coração um pequeno mas importante apontamento...
A paz é feita de caminho. De um caminho que se sabe, aceita e procura.
Mais. Ela constitui o próprio caminho. Quem sabe o único caminho possível para a construção do futuro. Missão, propósito e opção sagrada, tecida dentro de cada um de nós. Como tácita oração de comunhão e amor para o mundo.
Prometeu voltar. Porque tantas vezes temos de reforçar com a voz da esperança, dentro de nós, aquilo em que mais acreditamos.
Somos humanos. Fortes e frágeis como a água.
E há dias difíceis. Muito difíceis. A Paz sabe disso.
Paula Coelho Pais
Lisboa, 25 de Março de 2022