17/10/2025
Discurso Alternativo "O outro lado da nossa Independência”
É verdade que desde 1975 o nosso país mudou muito. Houve avanços em vários setores é inegável. O Presidente falou disso no seu discurso, e é justo reconhecer. Mas também é preciso coragem para dizer que não é o suficiente.
Estamos a celebrar 50 anos de independência, e é profundamente entristecedor ver o estado real do nosso país. Um país tão rico em recursos naturais, mas onde o povo continua pobre, esquecido e cansado de promessas.
Pergunto: como conseguem dormir tranquilos os nossos governantes, sabendo que a nação pela qual tantos lutaram ainda vive nesta miséria?
É triste ir até uma escola e ver crianças sentadas em pedras e latas, a ter aulas debaixo de árvores, e a escrever em quadros com bombó por falta de giz. Isso depois de meio século de independência!
E o mais irônico é que nessas mesmas escolas, ensinam que “Angola é um país rico”.
Somos mais de 35 milhões de habitantes, mas cerca de 15 milhões vivem abaixo da linha da pobreza, e mais de 50% enfrentam diariamente a fome e a falta de condições básicas.
As aulas começaram esta semana, e é revoltante ver milhares de alunos que não podem continuar os estudos por falta de dinheiro — não porque não querem estudar, mas porque estudar em Angola tornou-se um luxo.
O Presidente afirmou com orgulho que Angola tem um dos combustíveis mais baratos da região. Mas omitiu dizer que os salários aqui são baixos. De que serve o combustível barato, se o povo não tem salário digno para comprá-lo?
Eu, por exemplo, gasto 2 mil kwanzas por dia no táxi. Muitas vezes nem como quase todo dia, só para não aumentar os custos. A propina da escola é 78 mil kwanzas e agora aumentou para 85 mil. Quando fazemos os cálculos de tudo o que é gasto mensalmente, duvido que o valor não ultrapasse o salário mínimo. E mesmo assim, esse salário nem dá para pagar uma cesta básica.
É triste ver que a juventude está a perder a esperança. Todos os dias, jovens angolanos deixam o país — não por falta de amor à pátria, mas por falta de oportunidades.
Meus amigos, com menos de 24 anos, têm o mesmo plano: emigrar. Ir embora para procurar melhores condições, para trabalhar na pedreira, na construção. E o mais triste é ouvir um governante dizer que esses jovens não fazem falta ao país. Isso dói. Dói porque somos nós os filhos desta terra, os que deviam ser o futuro dela.
Cinco décadas depois da independência, ainda temos bairros sem água potável, hospitais sem medicamentos, famílias inteiras sem luz, e trabalhadores que passam o mês inteiro para receberem um salário que mal chega para duas semanas.
Há pessoas que morrem por falta de uma simples seringa, há hospitais públicos que compra a seringa é o própio paciente enquanto outros gastam milhões em viagens e um jogo de 99minutos
A saúde continua elitista: quem não tem dinheiro, morre.
E a justiça? Continua a ser só para alguns. O pobre é condenado, o rico é protegido.
O povo continua a ouvir promessas: “vamos melhorar”, “estamos a trabalhar”, “os frutos virão”. Mas os frutos só aparecem para os mesmos — os que estão no poder, os que se alimentam do sofrimento do povo.
Em 50 anos, o país construiu muito, mas não construiu o essencial: respeito pelo cidadão, honestidade na liderança e igualdade de oportunidades.
Ainda há mães que caminham quilómetros com os filhos nas costas para buscar um balde de água. Há jovens formados a vender recargas na rua porque o Estado não cria empregos.
E o mais vergonhoso: há governantes que vivem como reis, enquanto o povo vive como escravo da própria independência que lhe prometeram.
Dizem que Angola está a crescer, mas crescer para quem?
Crescer não é só construir prédios e pontes. Crescer é dar dignidade ao povo. Crescer é ver crianças sorrirem porque têm escola, é ver famílias comerem porque têm trabalho, é ver idosos viverem com tranquilidade, sabendo que o país pelo qual lutaram valeu a pena.
Infelizmente, caros compatriotas do partido no poder, com tanta tristeza, tanta desigualdade e tanta corrupção, é difícil festejar os 50 anos de independência.
Porque não foi por isso que os nossos avós morreram na luta de libertação.
Eles sonharam com uma Angola livre — livre da opressão, da fome, da mentira e da injustiça.
Mas o que temos hoje?
Um país onde poucos enriqueceram com o suor de todos, e onde a maioria luta para sobreviver com dignidade.
Não queremos apenas estradas e discursos. Queremos igualdade e oportunidade para todos os angolanos.
Angola não é pobre.
Pobre é a gestão. Pobre é a visão. Pobre é a vontade de mudar.
E é por isso que hoje, diante de todos vocês, digo com o coração aberto:
a paz ainda não chegou para o povo.
Chegará no dia em que cada criança tiver uma carteira na escola, cada jovem tiver um emprego digno, e cada família puder comer três vezes por dia.
Aí sim, poderemos celebrar com orgulho — e dizer que Angola é verdadeiramente livre.
GILMARIO VEMBA
Francisco Teixeira MEA