04/02/2026
Minha auto-biografia (ensaio)
"Paulatinamente ou não, tudo se perderá. O vigor, o desejar, o existir, a memória; enfim — tudo partirá. Tudo, excepto aquilo que guardamos dentro de nós. As memórias apresentar-nos-ão novos amigos, mesmo depois de já não estarmos cá, e servir-nos-ão com fidelidade por dias sem número."
- EdsoSa António.
Nasci em Maketheleni, na cidade de Maxixe, a 3 de Fevereiro de 1997. A minha primeira língua foi o Gitonga, idioma que moldou o meu olhar sobre o mundo antes mesmo de eu dominar o português. Até 2002, mal falava a língua em que hoje escrevo. Foi apenas com a mudança para Maputo, onde reencontrei o meu pai, que iniciei um contacto mais profundo com o português — contacto esse que viria a transformar-se em destino.
Na infância, a palavra revelou-se lentamente. Primeiro como som, depois como escrita. Na escola primária do Bairro Singathela, entre cópias obrigatórias e o desejo de imitar a caligrafia da minha irmã, aprendi que escrever também era um acto de disciplina e beleza. A promessa que fiz a mim mesmo — escrever sempre com cuidado — acompanhou-me desde cedo e abriu-me caminhos: fui chefe de turma, aluno de confiança dos professores e, por várias vezes, distinguido como melhor aluno.
A vida, no entanto, ensinou-me cedo o peso da perda e da escassez. Perdi o meu pai aos sete anos e, anos depois, a minha mãe. Entre dificuldades materiais, mudanças forçadas e a experiência profunda da pobreza, encontrei na palavra e na música um lugar de resistência e sentido.
Foi ainda no ensino primário que escrevi o meu primeiro poema, inicialmente rejeitado. Anos mais tarde, já na 11.ª classe, revi esse mesmo texto e declamei-o diante de toda a escola, num dos momentos mais marcantes do meu percurso académico. A literatura, ali, deixou de ser apenas refúgio e tornou-se afirmação.
Após concluir a 12.ª classe, concorri ao curso de Música na Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, onde não fui admitido. Ainda assim, ingressei no projeto Xiquitsi, no qual estudei música de 2016-2021, desenvolvendo-me como intérprete vocal, regente e compositor. Mais tarde, regressei à Universidade Eduardo Mondlane, onde fui admitido no curso de Literatura Moçambicana.
Ao longo do tempo, publiquei textos em jornais e numa revista literária entre Moçambique e o Brasil. Domino línguas bantu do sul de Moçambique e trabalho atualmente na escrita de um romance, "Uma Viagem ao Princípio", além de manter uma vasta produção poética e reflexiva. Na musica, entre varias composições singulares, componho para os outros, faco mentaria vocal e artistica, interpreto musicas dos outros e aventuro-me como Mestre de Cerimonias/Showman.
Hoje, divido-me entre a música, a literatura, o empreendedorismo e a restauração, acreditando que a arte — seja cantada, dita ou escrita — é uma forma de memória viva. Sonho afirmar-me como escritor e músico: instrutor vocal, pianista e compositor, consciente de que tudo pode partir, exceto aquilo que guardamos dentro de nós.
— EdsoSa António, 2026.