08/05/2022
A descriminalização da Capoeira
Mesmo após a grande caça aos Capoeiristas, houve uma parcela de pessoas, dentre elas alguns intelectuais que eram praticantes de Capoeira ou mesmo admiradores, que não faziam parte da classe menos abastada, portanto, não foram perseguidos com truculência. Temos como exemplos Machado de Assis, Plácido de Abreu, Silvio Romero, Aloísio de Azevedo, Lima Barreto e Coelho Neto.
Muitos destes autores posicionavam-se como valorizadores da “cultura nacional” e alguns defendiam que a Capoeira deveria ser reciclada e reaproveitada culturalmente como uma prática desportiva institucionalizada, desassociada dos atos criminosos gerados pelas maltas ou indivíduos que a utilizavam para a prática de atos considerados ilegais.
Então neste contexto, essa tentativa de enquadrar a Capoeira num molde aceito pela elite de certa forma vai acabar por favorecer o ressurgimento da Capoeira enquanto arte ancestral anos mais tarde após sua legalização.
Em 1907 surge um livreto de autoria desconhecida imitando a estética dos livros de Ginástica Francesa que circulavam pelas instituições de ensino do Brasil, infere-se que foi escrito por um oficial do exército, este livreto era intitulado como O Guia Do Capoeira ou Gimnastica Brasileira, que tinha como objetivo sistematizar a capoeira para fins educacionais. Anos mais tarde, em 1928 o escritor Coelho Neto publica um artigo intitulado “Nosso Jogo” exaltando abertamente a Capoeira enquanto uma ferramenta para o desenvolvimento físico e disciplinar e também em 1928, no Rio de Janeiro, surge a primeira codificação desportiva oficial da capoeira, com o título de Gymnastica Nacional Methodizada e Regrada, escrita por Annibal Burlamaqui também conhecido como Mestre Zuma. O livro apresenta as medidas para uma área de competição, critérios de arbitragem, uma lista de golpes e um processo pedagógico de movimentos.
Exatamente neste ponto temos o surgimento das primeiras vertentes de Capoeira após a grande perseguição de 1889 que iria determinar para sempre o percurso da Capoeira. Essas vertentes foram três: A do Mestre Sinhozinho, a do Mestre Bimba e finalmente a do Mestre Pastinha.
Muitos praticantes de Capoeira hoje em dia se quer sabem da importância histórica da existência e do mestre Sinhozinho. Agenor Moreira Sampaio, nascido em 1891 e falecido em 1962 era formado em Boxe, Savate e luta greco-romana. Aprendeu Capoeira no cais de Santos onde viveu boa parte de sua infância e adolescência. Mudou-se para o Rio de Janeiro por volta de 1908 onde aprimorou suas técnicas junto com capoeiristas que faziam parte das extintas Maltas. Em 1930 em Ipanema criou uma espécie de clube onde os participantes além de praticarem exercícios de fisiculturismo também praticavam intensamente a Capoeira.
A Capoeira de Sinhozinho era muito diferente da que temos hoje em dia, não eram utilizados instrumentos musicais, eram ensinadas técnicas com armas brancas e o foco dos treinos era totalmente voltado ao combate sem nenhum tipo de floreio. Tanto o mestre quanto seus alunos obtiveram grandes vitórias em desafios de lutas abertas ao público, inclusive saíram vitoriosos de combates contra discípulos da Família Grace e até mesmo contra os discípulos do Mestre Bimba. A Capoeira de Mestre Sinhozinho foi o último suspiro da antiga Capoeira do Rio de Janeiro, após o falecimento de Sinhozinho nenhum de seus discípulos conseguiram levar adiante seu estilo que acabou sendo suprimido pela Luta Regional Baiana de mestre Bimba.
No início da década de 30 Manoel Dos Reis Machado, o Mestre Bimba, em contraposição ao surgimento da Gymnastica Nacional criada no Rio de Janeiro, sistematiza o seu próprio método, desenvolvendo assim a Luta Regional Baiana e em 1932 abre a primeira academia da história oficialmente registrada, o Centro de Cultura Física e Capoeira Regional. A Capoeira de mestre Bimba fazia o uso de instrumentos musicais, mas ainda assim mantinha um aspecto mais voltado a luta do que ao jogo, não utilizava armas brancas e tinha sua base fortemente influenciada pela Capoeira do Recôncavo Baiano.
Mestre Bimba nasceu em Salvador na Bahia, em 23 de novembro 1900, filho de um lutador de batuque (luta africana), com 1,90m de altura e negro, Mestre Bimba começou a prática de capoeira aos 12 anos, foi violeiro, carpinteiro, estivador, carvoeiro, destacando-se como capoeirista e ensinando capoeira aos 18 anos.
Considerado um educador e visionário, Mestre Bimba criou normas a serem cumpridas pelos praticantes, possibilitando a participação apenas daqueles que tinham trabalho, alguma ocupação reconhecida ou eram estudantes, descaracterizando assim a imagem existente de vadios ou malandros dos praticantes da capoeira, tendo sido tal processo de organização denominado de “academização da capoeira”. Além disso, Mestre Bimba estabeleceu que a prática não deveria ocorrer nas ruas, e sim em academias, adotou ainda uniformes, manuais de técnicas de aprendizagem, métodos pedagógicos rigorosos, avaliações periódicas, o sistema de cordas, cursos de especialização e introduziu a ética e a disciplina como itens indispensáveis em suas aulas como objetivo de desenvolver autoconfiança, responsabilidade, agilidade e destreza.
Através das lutas e das vitórias que conquistou nos embates de ringues conhecidos como “vale-tudo”, Mestre Bimba conseguiu uma grande projeção de seu nome e de seu estilo, fazendo com que mais adeptos de diversas classes buscassem a pratica da Capoeira. O estilo de Bimba continha, além da forte base da Capoeira do Recôncavo Baiano, técnicas e movimentos do Batuque, luta africana, da luta greco-romana, originária da Grécia, do jiu-jisto e judô, ambas lutas japonesas e também do Savate, luta francesa. Todas estas técnicas unidas fizeram com que o estilo de Bimba apresentasse movimentos esteticamente agradáveis e ao mesmo tempo funcionais para uma luta.
Em 1932, Getúlio Vargas, o então presidente da república, buscando ampliar sua popularidade, deu início a uma série de liberações de algumas manifestações culturais populares que estavam proibidas, principalmente entre as classes menos abastadas, dentre elas a Capoeira e em 1936, oficialmente, Getúlio Vargas extinguiu o decreto que proibia a sua prática descriminalizando-a, classificando-a como instrumento de Educação Física e concedendo ao Mestre Bimba a licença e o registro da Secretaria de Educação, Saúde e Assistência, para o funcionamento de sua escola como centro de educação física.
Já em 1941 Vicente Ferreira Pastinha, o Mestre Pastinha, funda o Centro Esportivo de Capoeira Angola, em contraposição a Capoeira Regional de Mestre Bimba. Na capoeira do Mestre Pastinha, há uma retomada dos aspectos lúdicos, folclóricos e ancestrais. A diferença entre as movimentações é muito evidente, sendo que na Capoeira de Pastinha os movimentos são predominantemente rasteiros e esguios. Os instrumentos estão presentes e ao contrário da Capoeira Regional, não havia um sistema e um método definido de ensino. Apesar das diferenças, a Capoeira de Pastinha também possuía suas bases na Capoeira do Recôncavo Baiano.
Mestre Pastinha, nascido em abril de 1889, em Salvador, iniciou na capoeira com 10 anos através dos ensinamentos de um negro conhecido como Tio Benedito, posteriormente aprimorou suas técnicas nas rodas de Salvador e nas lutas portuárias que haviam por ali. Frequentou a Escola de Marinheiros até os 20 anos onde conheceu muitas pessoas e praticantes de lutas diversas. Mestre Pastinha explorou na capoeira sempre o lado lúdico, artístico e expressivo em suas tradições, as movimentações espontâneas do corpo, promovendo o uso dos instrumentos e os cantos, condenando a violência, frisava, ainda, que a capoeira era para aqueles que buscavam a desenvoltura moral e física.
A malícia era sua principal arma, sendo esta ensinada por ele aos seus alunos, como a possibilidade do controle do seu corpo, um experimento onde era possível acertar o adversário, porém isso não seria feito, pois buscava-se a elegância dos movimentos, a beleza da movimentação corporal, ludibriar aquele que observa e a qualidade no canto e ritmo.
Em 1940 com o Decreto 2848 instituiu-se o novo Código Penal Brasileiro onde a Capoeira não é mais citada, portanto, deixa de ser uma contravenção. E as portas se abrem novamente para a Capoeira, mas desta vez, fora do espectro da marginalidade.
Da década de 40 para frente a Capoeira foi se popularizando e ganhando força em todo o território nacional, a partir deste momento o material de pesquisa se torna muito mais acessível e é relativamente fácil encontrar livros, referencias e toda uma gama de fontes para entrar em contato com a História da Capoeira deste período em diante.