10/06/2025
Foi ele a seta quem me intuiu o caminho quando eu, andarilha perdida, perambulava solitária pelas noites tristes do meu ser.
Foi ele quem aquietou meu dessossego, segurou meu passo trôpego, iluminou meus devaneios, abrandou meu espírito indomável cavalgando a esmo pelas planícies dos amores de parcos relevos.
Foi ele quem me fez enxergar limpidamente esses pingos de chuva espargidos em meu coração( outrora ressequido pela desilusão, e agora banhado em charcos de alegria e fertilidade).
Foi ele quem me ensinou sobre a sacralidade do amor por mim mesma, por aquela que fui e aquela que sou nas horas frágeis e dolorosas nas quais eu mais necessito ser amada.
Foi ele quem clareou meus olhos embaçados pelo sal das renitentes lágrimas...
(...somente assim eu pude abarcar a visibilidade outrora ofuscada no olhar que não pressente as grandiosas sutilezas da paciência acolhedora).
Foi ele quem me contou da colheita feita nos relacionamentos duradouros para que assim eu aprendesse a colher apenas os frutos maduros e contivesse meu gesto afoito que arrancava os frutos verdes em amores sazonais.
Foi ele quem me ofertou a parada mais certa quando eu viajava desgovernada pelos trilhos dos sentimentos passageiros.
Foi ele quem fez nascer o sol em mim nos meus dias mais cinzentos e temperamentais. E, falou da magia do luar nas madrugadas vividas em vão (de bar em bar, de cama em cama) aturdida no caos da solidão onde eu estava tão intimamente acompanhada.
Foi ele quem adocicou meus lábios ofertando a certeza do beijo mais que perfeito enquanto bocas incertas cobriam a minha com amores líquidos, juras fajutas e tantas falácias.
Foi ele o oásis que matou minha sede no deserto em que eu me habitava.
Foi ele quem ancorou meu coração que navegava feito barco a deriva e de tempo em tempo naufragava em meio às tempestuosas paixões.
Foi ele quem me abrigou em seus braços casa e aconchego nos tempos outros em que eu morava no caminho sem teto e sem carinho, sem um corpo quente que me aquecesse desse trágico destino.
Foi ele quem cuidou do meu cultivo pacientemente, desde a semente que germinava com a sua rega diária de cuidados e afeições, na sabedoria da espera entre um e outro ínterim para que eu, crescida e vistosa, desabrochasse em flor.
E, agradecida por ser tão amada, eu por fim declamo:
foi ele quem em mim reflorestou a perfeição da palavra amor.
Luciana Portela