01/04/2012
CRÔNICA PARA UM ANO BOM
Clauder Arcanjo
As coisas neste final de ano – escrevo esta crônica nos últimos dias de 2011 - não estão nada fáceis, e, desconfio, elas nunca estiveram nem estarão. O homem é bicho que gosta de uma certa dose de tragédia para valorizar a vida; e, confessemos, temos uma criatividade invejável para conceber, e antever, desgraças, hecatombes e terríveis prognósticos. Conheci até uma senhora, não me lembro em quais das cidades em que morei, que, tristonha e em voz sumida, confessou-me a perda lenta e gradual dos seus clientes. Sua profissão: cigana bissexta. Qual o problema?! Acreditem, o que a levara ao infortúnio era que, na leitura das mãos por ela realizada, só vislumbrava bem-aventuranças: amores refeitos, sorte no emprego, superação dos problemas, noites felizes... Mal me confessou tudo isso e, ao final, uma lágrima bailarina se deixou rolar na sua face meiga. Tratei, de imediato, de consolá-la; fi-la ver que a lida é feita, também, de maus momentos, e que os ventos lhe seriam favoráveis nos meses vindouros.
Surpresa, ela enxugou a face com a manga do vestido rendado, e, com cara de poucos amigos, desabafou:
— Já não se encontram confidentes como antigamente! Bons dias, meu senhor; não o imaginava colega cigano.
Fiquei a ver navios. Melhor, continuei sentado no banco do ônibus com a boca com um hausto, preso pelas garras do espanto e da surpresa. “Nem os magos se entendem!” — vocês podem estar a rir de mim, caros leitores. Levemos a coisa a sério; pelo menos hoje, neste domingo que dá a largada para o novo ano.
Mas cuidemos de deixar as coisas claras e bem explicadas: não tenho (nem nunca tive) a menor vocação para desvendar o futuro, o hoje me basta, com sobra, muita sobra.
Voltemos ao fio da crônica. Onde eu estava? Ah, sim, lembrei-me! Pois bem, dizia eu que nós temos a tendência de pintar o porvir com cores e acentos dramáticos. Não sei se minha teoria de cronista de província encontra lastro nos compêndios dos terapeutas do corpo e da alma, porém, no espaço de hoje, quero ir de encontro à maré. Ousarei rabiscar uma defesa da ventura (e da aventura) para o ano de 2012. Chega de cerca lourenço, vamos ao que interessa.
Em primeiro lugar, quero que janeiro traga as primeiras chuvas. Copiosas e dadivosas; nada, é claro, de pancadas d’água. A caatinga, então, se recobrirá de verde, e a esperança será não uma utopia, mas presença viva e farta na mesa dos homens.
Fevereiro não será o mês do Carnaval, os outros onze juntar-se-ão ao reinado de Momo. É claro que com menos indústria e comércio e mais confraternização em torno do riso e da alegria. Antevejo fortes sinais de que os paletós fechados e escuros darão vez aos tecidos de cor, como a festejar a festança incomum.
Março e abril serão declarados meses da colheita. Sobrará nas mesas a solidariedade e a comunhão, e o egoísmo minguará nos depósitos das casas.
Maio e junho sofrerão a influência da Virgem Maria. O branco flanará altaneiro pelas ruas, becos e vielas. E cada encontro será ungido pela pureza das intenções.
Julho será pleno de festas, e o homem deixará, definitivamente, de ser o lobo do homem. Agosto, singular prognóstico, enterrará a pecha de mês dos desgostos. Será nele que as noivas, que ficaram por casar, desfilarão nos altares.
Em setembro, marcharemos para as comemorações do golpe do amor e da paz. O trânsito sofrerá uma revolução, e as buzinas enferrujarão com o não uso.
Outubro e novembro... Bem, fiquemos por aqui. Deixarei esses meses para vocês, pacientes leitores.
E quanto a dezembro?!... Vocês nem podem imaginar o que concebi para fechar o ano! No entanto, é melhor calar. O mistério é parte inerente ao mister de todo cronista.
Construamos um feliz 2012. Para paz e saúde de todos.
Clauder Arcanjo — Professor
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