02/08/2017
Quantos arranjos, ajustes, encontros, tropeços, esquecimentos, decisões, arrependimentos, reajustes, acertos e erros foram necessários ao longo dos meses anteriores (ou seriam anos?) para que naquela noite, justo naquele noite, estivessemos ali? É bem verdade que todo e qualquer movimento que fizemos na vida teve seu efeito. Mas isso é tão abstrato e absurdo que não conseguimos enxergar todos esses efeitos em nós mesmos. Mas na viagem, sim. Porque aceitar um convite de um desconhecido para ir a uma outra cidade é aceitar a surpresa em todas suas possibilidades. O imprevisível, de tão excêntrico e peculiar que é, vira quase óbvio. Ter topado ir àquele parque. Aceitado aquela carona. Exposto nossos incensos justo naquele ponto da praça. Aquele desvio à esquerda porque o nome da cidade era legal demais pra ser ignorado. Cada passo dado nos abriu a cortina do teatro da vida real, onde desempenhávamos o papel de ator e diretor ao mesmo tempo. Protagonistas em nosso ímpeto mas figurantes das ocasiões espontâneas. E quantos não-encontros, descaminhos, quase-amigos não fizemos por causa dessas opções? Aprendemos a contar com a surpresa. Esperar sua chegada, afinal nosso mapa estava sempre aberto. Como se viajássemos no limite da expansão do universo. Contar com a surpresa foi um paradoxo possível e palpável na nossa viagem.
Uma queima de fogos fora anunciada pelos falantes da igreja da pequena cidade. A padroeira seria festejada na praça central. O casal, que há muito não saía de casa, naquela noite resolvera caminhar. Não costumavam sair naquela hora, mas o frio dava uma trégua e lhes abria uma exceção. A decisão de sair de casa, em conjunto, o local que pararam, o ponto que escolheram, a roupa que vestiram. Decisões, tropeços, esquecimentos, arrependimentos…Naquela noite, num ponto luminoso e perdido no meio do continente, tudo aquilo que éramos fez-se encontro naquela pequena praça.