Edu Sene - E.S

Edu Sene - E.S Escritor de contos, poemas, crônicas e outras formas de escrita. Desenhista e apreciador da natureza

IMBRÓGLIO NATALINO Conto publicado na antologia 'Simplesmente... Natal volume 2' (2025), 'Rio de Flores Editora'.https:/...
25/12/2025

IMBRÓGLIO NATALINO

Conto publicado na antologia 'Simplesmente... Natal volume 2' (2025), 'Rio de Flores Editora'.
https://www.recantodasletras.com.br/contosdefantasia/8519858

(Uma notícia inesperada)

Era mais um ano onde os céus eram agraciados, na noite do dia 24 e na madrugada do dia 25 de dezembro, com uma ilustre e célebre presença. Aquele ser mágico de barba e gorro, meio rechonchudo, de roupa predominantemente vermelha, com botas e cinto pretos, e algumas partes brancas, rompia o céu enegrecido para cumprir sua missão — que executava com apreço e muito carinho. Sua tarefa era presentear as crianças ao redor do mundo que, ao longo do ano, haviam se comportado bem e que possuíam fé para receber dele, o fantástico Papai Noel, o presente que pediram.
É claro que, por mais incrível que o bom velhinho fosse, ele não conseguiria cumprir sozinho sua missão. Para isso, contava com seu trenó mágico, onde carregava inúmeros presentes e, claro, para puxá-lo pelos céus e conseguir entregar tudo em tempo, suas nove fabulosas renas mágicas — que são elas: Rodolfo, a rena de nariz vermelho; Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago.
Ninguém poderia ver todas as cenas mágicas que se desenrolavam pelos céus na noite de Natal, pois era uma regra do momento natalino. O Papai Noel seguia incessante nas entregas dos presentes, sempre com o mesmo procedimento: entrar nas casas quando todos estivessem dormindo. Não havia uma rota específica para as entregas e, desse modo, uma criança da Europa podia receber o seu presente após uma da América do Sul receber o seu. O fato de não estar preso às leis físicas dos homens contribuía para que o bom velhinho não precisasse seguir rotas igual a uma transportadora. Ele, o Papai Noel, sentia uma boa sensação ao adentrar as casas onde havia chaminés, pois lhe era mais ritualístico; porém, não se importava de entregar em casas onde a criança que receberia o presente não tivesse uma. Afinal, sua felicidade era presentear os seus amados pequeninos.
As entregas seguiam normalmente, com a alegria no coração do bom velhinho transbordando e a felicidade estampada nas feições da renas mágicas, até que algo rompeu com a naturalidade das entregas. As renas frearam repentinamente o trenó, fazendo o Papai Noel ser impulsionado para frente, quando um dos anjos do Natal apareceu diante deles.
— Desculpem aparecer assim e assustar vocês — disse o anjo —, mas é que um ocorrido rompeu com a frequência natalina, e um dos nossos pequenos está correndo grave risco.
Minha nossa! — respondeu o bom velhinho, que já não possuía a mesma expressão facial alegre de segundos atrás.
Em pouquíssimo tempo, aquele anjo do Natal colocou o Papai Noel a par do grave ocorrido, explicando os pontos principais e sendo o mais breve possível para que medidas fossem tomadas; e após escutar tudo que o anjo tinha a dizer, o bom velhinho exclamou, com expressão de preocupação:
— Pelos meus duendes!
Não era apenas um bordão do Papai Noel, era um apelo para que seus ajudantes e amigos duendes se prontificassem para ajudá-lo.

(Convocando uma corajosa pequenina)

As renas mágicas, lideradas por Rodolfo, a rena do nariz vermelho, colocaram o trenó para andar novamente quando o Papai Noel deu a ordem, logo após o anjo do Natal desaparecer, depois de receber as instruções do bom velhinho. A situação era grave, e todos os amigos e ajudantes do Papai Noel estariam envolvidos naquela missão que já estava em andamento. O recado que aquele anjo do Natal trouxera era algo terrível e maléfico: Krampus, o inimigo demoníaco do Papai Noel, havia sequestrado uma criança ucraniana e a levado para o seu reino — um submundo de trevas governado por ele.
O bom velhinho sabia da urgência da situação e, por hora, resolveu suspender a entrega dos milhares de presentes que ainda faltavam. Com essa decisão, era possível que muitas crianças ficassem sem ganhar o presente que haviam pedido, que foram confeccionados com carinho pelos seus duendes natalinos; mas o mais importante, naquele momento, era salvar a vida da menina ucraniana raptada pelo maligno Krampus.
Todas os procedimentos do que fazer já eram conhecidos pelo Papai Noel. Seus planos para tentar o resgate já estavam traçados, e todos os seus amigos natalinos já estavam incumbidos de suas respectivas missões e responsabilidades para aquela situação. Desde os duendes e anjos do Natal até a Mamãe Noel, chamada Mary, ou Margarida.
As renas conduziram o trenó, após cruzarem os céus rapidamente, até a América do Sul, passando por alguns países até chegar ao Brasil. O destino era o estado do Rio de Janeiro, pois o Papai Noel recebera uma informação divina de que a única peça que faltava no plano de resgate estava em São Gonçalo, um dos municípios da região sudeste do Brasil. Em pouco tempo, o trenó pairava sobre uma determinada casa, num bairro pobre daquela região. Rapidamente, o bom velhinho desceu do trenó por uma escadinha mágica feita de corda natalina e se transportou para dentro daquela residência. Todos dormiam e tudo estava bagunçado. A pia estava cheia de louça e parecia ter vestígios de comidas e bebidas por toda aquela simples casa.
O Papai Noel passou por alguns cômodos e chegou a um dos quartos, onde dormiam três pessoas. Uma delas era a que lhe interessava: Alice, uma bela menininha negra de nove anos. Ela dormia profundamente, assim como sua mãe e o seu irmãozinho Allysson, que era mais novo que ela. Sem perder tempo, o bom velhinho sussurrou com delicadeza ao ouvido de Alice para tentar acordá-la; e em poucas tentativas, ela despertou, ainda sonolenta. Porém, se assustou e gritou alto.
— Calma, Alice! — disse o Papai Noel, fazendo gestos para deixá-la mais tranquila após o susto.
Ela, ainda retraída na cama e tentado limpar os olhos para enxergar melhor, disse em voz alta:
— Papai Noel!
— Ho, Ho, Ho! — respondeu ele imediatamente.
Alice era uma garotinha muito lúdica e esperta. Ficou maravilhada com a presença do bom velhinho ali, em sua casa; e antes que perguntasse alguma coisa, pois olhara para a sua mãe e o seu irmãozinho que dormiam na outra cama daquele cômodo, o Papai Noel a tranquilizou:
— Não se preocupe, minha pequena Alice, sua mãe e seu irmãozinho, assim como ninguém nesta casa, não acordarão. Antes de entrar aqui, lancei uma magia natalina no ar; assim, apenas você poderá ficar acordada por aqui.
Já se sentindo mais tranquila após o susto, Alice se levantou aos poucos, deu alguns passos até chegar perto do bom velhinho e resolveu dar um abraço naquele ser fantástico e carismático.
— Veio me trazer algum presente, seu Papai Noel? — perguntou, ainda abraçada a ele e olhando para cima.
O bom velhinho não podia perder muito tempo, pois a situação da menina ucraniana raptada por Krampus era calamitosa; mas, ainda assim, jamais seria rude ou indiferente com uma criança. Colocou Alice sentada na cama e se abaixou para contar o que estava acontecendo.
— Então, minha pequena, neste ano, meus amigos duendes, que recebem as cartas e confeccionam os presentes das crianças, não me informaram do seu nome. Mas... — o Papai Noel fez uma pausa, acariciou o rosto dela e prosseguiu — você pode me ajudar em algo muito importante.
Alice, tomada de curiosidade, ouviu atentamente enquanto o bom velhinho lhe contava toda a história.
— Nossa, seu Papai Noel! Então esse bicho feio do Krampus pegou uma menina em outro país e só eu posso ajudar você? — disse Alice, empolgada.
— Uhm... Na verdade, é necessário que seja uma criança. Poderia ser outra também, minha pequena, mas fui informado divinamente de que, aqui em São Gonçalo, encontraria nesta casa uma garotinha corajosa e determinada que poderia me ajudar. Estou certo?
Alice ficou mais empolgada ainda, mas ficou em hesitação até resolver perguntar:
— E se esse bicho feio do Krampus me pegar também e fazer mal para mim?
Acariciando os cabelos de Alice, o bom velhinho disse:
— Minha pequena, eu jamais permitiria isso.
Essa fala do Papai Noel foi como um selo que confirmou a decisão de Alice, pois assim que ele terminou de falar, ela se levantou decidida e disse:
— Então, vamos lá! Esse bicho feio precisa aprender a não fazer mal para ninguém.

(Nos confins do submundo de Krampus)

Tentando não perder tempo, o Papai Noel se transportou com Alice para fora da casa. Agarrada nas costas do bom velhinho subiram a escadinha mágica e logo estavam no trenó. O universo natalino clamava para uma boa resolução daquele imbróglio, que ocorria para atrapalhar os planos de presentar as crianças ao redor do mundo. Mas, determinado, o Papai Noel fechou os olhos, pediu para Alice fechar os seus e, milagrosamente, se transportou junto das renas para um outro lugar.
Em pouquíssimo tempo, chegaram ao lugar esperado. Era um lugar bonito e alegre, onde estavam reunidos vários duendes e alguns anjos do Natal. Alice estava maravilhada com tudo aquilo e ficou paralisada, de tanto êxtase por toda aquela situação. O Papai Noel a tirou do trenó e, mesmo não podendo perder tempo, apresentou todos para a pequena. Ela ficou encantada com as renas. Riu do carismático nariz vermelho da rena chamada Rodolfo e acariciou todas elas. Recebeu um abraço de todos os vários duendes que estavam ali e um afago dos anjos do Natal; e também comeu os deliciosos biscoitos natalinos feitos pela Mamãe Noel. Essa última, porém, não se encontrava por ali.
Aquela experiência surreal deixava Alice com uma felicidade inexplicável, e o bom velhinho sabia disso; porém, ele precisava começar a colocar uma parte incisiva do plano de resgate em prática. Então, disse em voz alta:
— Meus queridos amigos e minha pequena Alice, precisamos agir logo, pois o tempo é precioso. Vamos nos concentrar, pois faremos uma mágica de transporte; porém, ela será para um lugar ruim e tenebroso: o lugar onde Krampus habita.
Os duendes e os anjos do Natal que estavam presentes por ali não se espantaram, mas Alice, mesmo empolgada, ficou um pouco receosa. Notando isso, o bom velhinho tratou de tranquilizar a menina de nove anos:
— Como eu disse, quando ainda estávamos na sua casa, eu jamais deixaria Krampus ou qualquer outra coisa machucar você, minha pequena.
Antes de começarem a mágica que seria feita, o Papai Noel foi até o trenó e tirou de um saquinho de presente um gorrinho vermelho com uma bolinha branca na ponta e colocou delicadamente na cabeça de Alice, que ficou feliz da vida com o presente.
— Obrigada! — disse ela, feliz com o gorrinho que até combinava com o pijama de um anime japonês que estava vestida.
— De nada, minha pequena. Ho, ho, ho! — falou o bom velhinho que, após isso, caminhou com Alice até um círculo que foi desenhado no chão por alguns dos duendes natalinos.
Alice e o Papai Noel ficaram dentro do pequeno círculo, de mãos dadas. Os anjos do Natal também deram as mãos e formaram outro círculo ao redor do bom velhinho e da menina de nove anos; e os duendes, também de mãos dadas, formaram outro círculo, este ao redor dos anjos. Em pouco tempo uma luz extremamente forte emanou dali e todos foram sumindo aos poucos, até se transportarem para outro lugar.
Se um pouco de luz vence muitas trevas, um monte de luz não deixa um vestígio de caligem presente. Foi assim que o Papai Noel, Alice, os anjos e os duendes adentraram o submundo governado por Krampus: destruindo todas as trevas que se faziam presentes naquele reino sombrio e mórbido.
— Mas o que é isso? — disse Krampus, surpreso com a invasão natalina e vendo as luzes tirarem as trevas que ele domina.
— Esse é o poder do bem que sempre vence o mal — retrucou o Papai Noel, que estava com a Alice se segurando em suas costas.
Krampus era um ser aterrador, metade cabra, metade demônio, com chifres, língua comprida e o corpo coberto de pelos. Ele era muito poderoso, porém, além de ter sido pego de surpresa com a invasão, ficou enfraquecido com a intensa luz trazida pelo Papai Noel e seus ajudantes natalinos. Rapidamente, o plano do bom velhinho era colocado em prática: os anjos do Natal rodearam Krampus e o mantinham preso e travado com um potente círculo de luz, que era gerado pelas luzes que saíam das mãos dos anjos. Os duendes natalinos, eficientes e ligeiros, geraram intensa luz também, para manter os duendes malignos e profanos de Krampus presos num duto de luz que eles geravam. Enquanto isso, o Papai Noel, ainda com a Alice nas costas, andou depressa para um canto sombrio daquele submundo de trevas.
Em certo momento, o bom velhinho parou, tirou a menina das suas costas e se abaixou para falar com ela.
— Minha pequena, agora é com você. Lembra que falei com você sobre apenas uma criança ser capaz de me ajudar em tal tarefa? — ele fez uma pausa para tentar tranquilizar Alice e prosseguiu — Então, agora é o momento. Você precisa entrar nesse duto escuro e encontrar a menina ucraniana que foi raptada, pois ela se encontra aí dentro — disse o Papai Noel apontando para a entrada daquele duto sombrio.
Alice tremeu um pouco, olhou ao redor e voltou a olhar para a estreita e tenebrosa entrada daquele duto sombrio, mas antes que ela dissesse algo, o bom velhinho passou mais instruções para ela:
— Olhe, minha pequena, nada vai acontecer com você, eu prometo. Por mim, eu mesmo faria isso, porém, apenas crianças podem entrar nesse duto. Tudo o que você tem de fazer é localizar a menina ucraniana e tocar nela, para tirá-la do provável transe em que ela se encontra.
Meio hesitante, Alice tentou ser forte e determinada, mas um pouco de medo habitava seu interior. Porém, mesmo assim ela disse, titubeando um pouco:
— Tudo bem, seu Papai Noel, irei entrar nesse duto e trazer a menina da Ucrânia de volta. Eu Juro!
— Ho, ho, ho! Assim que se fala, minha pequena Alice. Ficarei aqui, esperando você, orando para que consiga encontrar logo a nossa menina ucraniana. Estarei com você em pensamento, Alice. Você será capaz de escutar minha voz.
Eles se abraçaram e o Papai Noel a ergueu, a colocando no início do duto sombrio. Ela olhou para ele uma última vez antes de se aprofundar naquele caminho escuro, após ouvir que o nome da menina ucraniana era Daryna.
Tudo corria como o planejamento do bom velhinho, mas ainda assim havia uma preocupação com o resgate, pois o Papai Noel sabia que o tempo era um inimigo também, afinal, eles haviam gastado muita energia para estarem ali; e os anjos natalinos não poderiam segurar Krampus por tanto tempo, assim como os duendes natalinos também não poderiam segurar os duendes malignos e profanos para sempre. Desse modo, seria necessário que Alice encontrasse logo Daryna, para que eles pudessem sair daquele submundo governado por Krampus, pois as luzes natalinas ficariam fracas e as trevas voltariam a predominar por todo aquele lugar mórbido e sorumbático.

*. *. *

Alice já havia percorrido um bom trajeto daquele lugar onde havia adentrado e, para romper o medo que insistia em dominá-la, ficava chamando por Daryna de poucos em poucos segundos. O Papai Noel, usando as forças que ainda lhe restavam, fazia um pouco de luz acompanhar Alice, além de incentivar a menina com algumas palavras positivas que a fazia escutar pela mente.
Alice andava pelo duto sombrio meio abaixada, já que ele, além de estreito, também era baixo. A menina, guiada por uma luz gerada pelo Papai Noel, se aprofundava cada vez mais no duto. As sombras que via eram ameaçadoras e toda a atmosfera claustrofóbica dali era agoniante; porém, estava se saindo bem na procura pela menina ucraniana, chamada Daryna, nos inúmeros labirintos do duto sombrio.
— Alice — disse o Papai Noel na mente dela —, vire na próxima entrada que estiver do lado direito.
Ela, mesmo destemida, sentia medo, mas seguia firme naquele ambiente escuro e sombrio. Achava incrível como o bom velhinho, mesmo do lado de fora do duto, conseguia saber do que acontecia lá dentro. Após entrar onde o Papai Noel lhe falou, Alice gritou bem alto. Um grito de susto e medo, de repulsa e agonia.
— Meu Deus! Que horror! — disse ela assustada.
O que ela via, de fato, era aterrador. Alice havia chegado numa parte daquele duto onde estavam inúmeras crianças. Elas se encontravam paralisadas e pareciam sem vida, o que a assustou mais ainda. Para tentar gerar efeito e fazer com que Alice achasse Daryna, o Papai Noel disse em sua mente:
— Sei que deve ser horrendo ver todas essas crianças por aí, minha pequena, mas foque no resgate de Daryna, pois ela ainda pode ser salva. Grite alto pelo nome dela. Desse modo, poderá fazer com que ela desperte do transe maligno e você a encontre.
Alice, estupefata com a visão horrível que eram aquelas inúmeras crianças penduradas, gritava o nome de Daryna, incessantemente, o mais alto que podia. Do lado de fora, o Papai Noel, pela primeira vez após Alice entrar no duto, desviou a atenção dela, pois resolveu olhar para os anjos natalinos e para os seus duendes, que travavam uma luta ao manterem Krampus e seus duendes malignos presos nas luzes natalinas. O bom velhinho percebia que as luzes de seus companheiros diminuíam e já sentia as trevas no submundo de Krampus retornando. Em pouco tempo, a magia que os trouxeram até ali, para resgatar a menina ucraniana, estaria desfeita; e se Alice não conseguisse achar Daryna a tempo, eles sairiam dali sem ela. Fazendo com que, infelizmente, ela fosse mais uma vítima naquele submundo.
Retornando sua atenção para o que acontecia dentro do duto, o Papai Noel se esforçou e enviou mais um pouco de luz para Alice, que continuava gritando sem parar pelo nome de Daryna. Parando para descansar um pouco, ela se sentia cansada, assustada e desanimada. Porém, foi quando o silêncio se fez presente que ela escutou alguns gemidos.
— Alice, pude perceber uma alteração aí dentro, continue gritando pelo nome dela que ela vai responder. — Falou o Papai Noel, empolgado após ter sentido que poderia perder aquela jovem.
— Daryna! Daryna! — Bradou Alice, que escutou uma voz doce e frágil, numa língua que ela não conhecia.
Percebendo que era um momento para ser mais incisivo, o bom velhinho disse enfático:
— Se guie pela voz, Alice, é Daryna quem respondeu por seus gritos. Mas você não vai entender o que ela diz, afinal, o idioma que ela fala é diferente do seu.
Alice não sabia o que era idioma, mas entendeu que era para ir atrás da voz, pois seria da menina ucraniana; e foi o que ela fez. A voz de Daryna ficava mais alta, pois estava saindo do transe e também por Alice se aproximar cada vez mais. Do lado de fora, os duendes malignos já se mexiam incessantemente, quase rompendo as luzes dos duendes natalinos, que se enfraqueciam cada vez mais. Krampus também parecia estar perto de romper as, também, fracas luzes dos anjos do Natal. Percebendo que o sucesso do resgate estava por um triz, o Papai Noel gritou:
— Rápido, Alice, toque nela o mais depressa que conseguir.
Poucos segundos após o apelo final do bom velhinho, Alice tocou em Daryna, que despencou do lugar de onde estava pendurada pela magia maligna de Krampus. A menina ucraniana não teve tempo de se recompor, pois assim que Alice pegou em sua mão, as duas foram envolvidas por uma potente luz mágica que guiou as duas numa velocidade absurda para fora do duto. Quando saíram, o Papai Noel entrou na bola de luz que envolvia as duas meninas e os três foram alçados para o alto. Uma fenda de luz intensa se abriu no céu do submundo de Krampus e a bola de luz com Alice, Daryna e o Papai Noel passou por ela; seguidos pelos anjos do Natal e pelos duendes natalinos, que foram comunicados de que eram para também atravessarem a fenda de luz, largando Krampus e seus duendes malignos para trás.

(Um álacre desfecho)

O Papai Noel, Alice e Daryna, como também os anjos do Natal e os duendes natalinos, voltaram para o lugar onde estavam antes de adentrarem o covil de Krampus. As criaturas ainda tentaram atacar quando romperam com as luzes, mas ficaram no quase, pois a fenda se fechou, deixando os duendes malignos e seu chefe com as trevas habituais daquele lugar.
Rapidamente, os duendes natalinos e os anjos do Natal voltaram para os lugares onde deveriam estar, para cumprirem suas missões em ajudar no Natal. Alice e Daryna ficaram a sós com o Papai Noel e as renas mágicas, que ficaram ali, esperando todos voltarem do reino de Krampus. O bom velhinho sabia que deveria se apressar, pois perdera muito tempo no resgate de Daryna e ainda precisava entregar milhares de presentes, mas pretendia conversar com as duas meninas. A menina ucraniana ainda estava abalada, enquanto Alice transbordava energia. O sucesso no resgate a deixou muito feliz.
Rompendo com os sentimentos opostos das meninas, o Papai Noel se abaixou, abraçou Daryna e, logo após, puxou Alice para junto do abraço. A menina ucraniana, que tinha apenas onze anos, chorou, agradecendo por ter sido resgatada. O bom velhinho perguntou como havia se dado o rapto orquestrado por Krampus, e Daryna começou, entre choro e soluços, a contar. Alice, mesmo sem entender o idioma que ela falava, se mostrava comovida; e o Papai Noel, que era capaz de compreender qualquer idioma, oferecia carinho enquanto Daryna contava sua triste história. Ela era uma criança órfã, vítima da guerra entre seu país, a Ucrânia, com a Rússia. Seus pais haviam morrido e alguns de seus parentes também; e ela havia ido parar num orfanato, numa parte do seu país que não havia sido atingida pela guerra. Estava sendo o primeiro Natal sem seus pais e familiares e ela se trancou em seu quarto, no orfanato, e falou coisas negativas, pedindo para ser levada da Terra, nem que fosse por algo maligno, pois não estava suportando mais viver. Logo após sua oração negativa, a criatura chamada Krampus apareceu e a levou, sem que ela oferecesse resistência.
— Minha pequena — disse o Papai Noel a Daryna —, eu sinto muito por sua família, mas nunca desista da vida. Saiba que ainda terá uma existência maravilhosa pela frente e será muito abençoada, basta esperar — disse, acariciando o rosto da menina ucraniana, que ensaiou um sorriso tímido.
Para Alice, o bom velhinho profetizou coisas boas também, e agradeceu por toda coragem ao ajudar no resgate de Daryna. As duas também se abraçaram e pareciam se entender, mesmo com ambas não entendendo o que a outra dizia.
Então, o Papai Noel disse para cada uma que precisava levar as duas para seus respectivos lugares, pois ainda tinha muitas missões para fazer no Natal. Elas entenderam e aceitaram, principalmente quando ganharam um s**o dos deliciosos biscoitos natalinos que o bom velhinho carregava no trenó, e que haviam sido feitos pela Mamãe Noel. Mas ficaram maravilhadas quando cada uma ganhou uma Estrela de Belém, feita com o mais puro ouro.
— Guardem para sempre com muito carinho — disse o Papai Noel —, pois a Estrela de Belém representa luz, guia e anúncio divino na vida de vocês; e será também a lembrança que terão deste Natal! Ho, ho, ho!
Elas sentiram uma felicidade inexplicável e guardaram a Estrela de Belém. Após isso, ele as colocou no trenó e, antes de deixar Alice em São Gonçalo e Daryna na Ucrânia, passeou com elas pelos céus, fazendo várias manobras com as renas mágicas conduzindo o trenó.
Mesmo com todo o imbróglio ocorrido, tudo terminou bem e o Papai Noel pôde seguir sua missão de presentar as crianças que se comportaram bem ao redor do planeta.
— Me aguardem, meu pequenos! Não deixarei que nenhum de vocês fique sem seu presente. Ho, ho, ho!

Endereço

São Gonçalo, RJ
24738600

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