04/04/2022
G.R.E.S.V. Império da Praça XI - Carnaval Virtual 2022
"O Resgate da Luz"
SINOPSE
As montanhas sagradas andinas guardam memórias dos nossos ancestrais. Aos pés dessa cordilheira, está uma lendária história do guerreiro que se tornou herói e divindade para o seu povo. Há muitos anos atrás, a costa Norte peruana foi habitada por uma civilização guerreira que marcou a história dos povos andinos. Os Moche, ou Mochicas, dominavam vales entre o mar e a Cordilheira dos Andes. Dentre as diversas habilidades desenvolvidas pelos Moche, a cerâmica e a ourivesaria são as grandes marcas deixadas por essa civilização pré-colombiana.
Os Mochicas tinham na natureza o seu ponto de fé; os deuses por eles cultuados se ligavam à elementos naturais como o Sol e a Lua. Também eram conhecidos por sua força e bravura na defesa de suas terras e no fortalecimento de seus vales. Nas batalhas em que entravam, os Moche costumavam amedrontar seus inimigos com grandes armas de guerra, como tacapes, arpões e adagas de metal.
Na história Mochica um guerreiro se destacou por um grande feito que mudaria a sua vida e a do seu povo. O bravo guerreiro conhecido como Ai Apaec, vivia no alto das montanhas rochosas que cercavam os vales e só descia de lá em tempos de batalhas e culto à grande Lua. Do alto da montanha, Ai Apaec reverenciava o poderoso e reluzente Sol que brilhava e levava luz para o seu povo, fortalecendo e revigorando-os para as jornadas que iriam futuramente enfrentar.
Certa vez, Ai Apaec viu o poderoso Sol ser aprisionado pelas águas salgadas do oceano, fazendo com que toda luz que tocava os vales Moche sumisse e a escuridão fosse despertada, trazendo consigo o medo, a fome e a morte. O guerreiro então, decidiu partir junto de seus companheiros com quem dividia a vida nas montanhas, o cachorro manchado e a astuta lagartixa, que sempre estavam prontos para ajudá-lo em qualquer situação, para resgatar o poderoso Sol. Pegou sacolas de couro com feijões pretos e brancos – um tesouro abundante nos vales -, que seriam usados como moeda de troca na jornada, visto que os Mochicas acreditavam que as marcas nos grãos carregavam mensagens dos deuses. O guerreiro então montou no urubu de cabeça vermelha e sobrevoou as montanhas até a praia, o umbral entre os mundos terrestre e marinho.
Ao anoitecer e pisar nas areias que cercavam as águas, o guerreiro viu emergir os sábios guardiões que protegem e permitem a entrada de qualquer ser nas águas salgadas. Ai Apaec então, explica sua missão e oferta um punhado do tesouro que trouxe, fazendo com que os guardiões lhe dessem uma semente misteriosa para respirar embaixo da água e o alertassem sobre as águas profundas, onde o guerreiro deveria encontrar a narigueira dourada para adentrar as profundezas. As ondas bateram com mais força a mando dos guardiões, que permitiram a sua entrada no grande mar, e delas surgiu o encantado pórtico de Ni, por onde o guerreiro adentrou as águas salgadas.
O mundo marinho era até então desconhecido pelo guerreiro, mesmo sabendo que iria enfrentar batalhas para o resgate do poderoso Sol, ele se encantou com as belezas das águas rasas de Ni, o mar. Diversas criaturas habitavam os coloridos e orgânicos corais repletos de vida. Adentrando nas águas, o guerreiro chegou à sua primeira batalha. Para encontrar a luz, Ai Apaec precisaria enfrentar o gigante caranguejo escudeiro e derrotá-lo para que a habilidade de suas fortes patas seja conquistada e o ajudasse a caminhar pelas pedras e areias debaixo d’água; o guerreiro conseguiu vencer o crustáceo, e seguiu sua jornada sabendo caminhar pelas rotas marinhas de Ni.
Rumando ainda mais para o fundo, Ai Apaec é surpreendido pela revelação da grande arraia do fundo das águas. Com suas asas, o animal anuncia que novos perigosos serão enfrentados pelo guerreiro se continuar a descer ao fundo das águas. Ele então, entra em combate com a arraia para que ela não o fira com seu ferrão e atrapalhe a sua missão. Vencendo a grande arraia, o guerreiro pega as habilidades de se movimentar rapidamente e de maneira sigilosa de sua rival derrotada, podendo se camuflar junto às pedras e areia do mar. Agora, Ai Apaec está ainda mais forte para seguir sua jornada, sabendo se camuflar, andar sobre os penhascos e ser veloz em caso de perigo.
Depois de vencer as batalhas do pórtico das águas salgadas de Ni, o guerreiro segue sua jornada pelo mar em busca do poderoso Sol. Seu próximo desafio será enfrentar os guardiões do oceano desconhecido, e o primeiro encontro acontece quando o guerreiro se depara com o homem-ouriço e seus espinhos afiados e letais. Em sua narina, Ai Apaec viu a narigueira dourada mencionada pelos guardiões das areias, o guerreiro então oferece uma de suas sacolas de couro com o tesouro dos vales trazidas por ele, em troca da joia e de seus espinhos. O homem-ouriço, encantado pelas marcas nos grãos, aceita a oferta e entrega ao guerreiro a narigueira e os espinhos, que seriam usados como defesa por ele no momento certo.
Após o encontro com o homem-ouriço, o guerreiro vai em busca do homem-baiacu, o último guardião com quem negociaria. Habitando águas mais escuras, o homem-baiacu carregava uma coroa com olhos de coruja, fazendo com que ele enxergasse tudo que estava a sua volta. Também usava grandes brincos protetores de ouvidos, que protegiam a aguçavam a audição embaixo d’água, fazendo com que escutasse até mesmo o mais sutil movimento. Ai Apaec então oferta ao guardião baiacu a sua última sacola com os feijões pretos e brancos em troca dos objetos que lhe dariam mais habilidades para seguir em sua missão. As trocas são feitas e o guerreiro agora conta com todas as habilidades necessárias para concretizar sua jornada. Ele agregou em si, todos os pontos adquiridos pelos habitantes das águas salgadas.
A caminhada do guerreiro chega em águas abissais, habitadas por mistérios jamais revelados por ninguém. O cerne de Uka Pacha, o mundo submerso, é cercado por abismos desconhecidos e de pouca luz, somente criaturas-quimeras vivem nessas águas. No mais fundo ponto da escuridão, Ai Apaec avista um feixe de luz e parte atrás dele na crença de que lá estava aprisionado o poderoso Sol. Lá, o guerreiro encontra uma criatura guardando a entrada de uma caverna carregando o sagrado símbolo espiralado para reencontrar a luz. O caracol gigante vivia entre penhascos no fundo do oceano, sua casca espiralada era como uma armadura forte e quase impenetrável, e dentro dela estava o desafio de Ai Apaec. O caminho espiralado da co**ha forma um labirinto escuro e misterioso, tal qual a espiral representa todo o ciclo da vida e renovação na cultura Moche. Para que o Sol e toda sua luz fosse encontrada, o guerreiro precisou adentrar a co**ha do gigante caracol e enfrentar os desafios que lá estavam. Uma grande batalha é travada e o guerreiro derrota a criatura usando arpões feitos com os espinhos do homem-ouriço. Ai Apaec consegue a sagrada co**ha onde os Mochicas acreditam ser possível escutar os deuses falando através das espirais da vida e da regeneração.
Derrotando o caracol sentinela, Ai Apaec entra na caverna e vê a mais poderosa criatura dos oceanos, e que também seria a sua mais difícil batalha. Entre as paredes rochosas e ossos espalhados pelo chão, o guerreiro f**a frente a amedrontadora quimera da escuridão, que se tratava de uma criatura com cabeça de leão-marinho, asas e ferrão de arraia e dentes de tubarão. O guerreiro acreditava que a poderosa criatura estava com o Sol e trava uma grande batalha com a mesma. A dura luta entre a quimera e Ai Apaec finda com a morte do guerreiro, decapitado com uma adaga de ossos. No mesmo momento, seu corpo se transforma ganhando um aspecto cadavérico, mostrando que Ai Apaec já não pertencia mais à Kay Pacha, o mundo terrestre.
Percorrendo as escadas-caminhos entre os mundos, o espírito de Ai Apaec escuta os gritos e agouros que precedem a entrada do reino de Fur, o temido senhor da morte. Assim como as espirais, os degraus marcam a divisão entre os mundos para o povo Mochica, agora o guerreiro desceu ao mundo dos mortos e encontrou as almas de outros grandes guerreiros em meio a sagrada dança dos mortos. Em dado momento, Ai Apaec começou a perder a visão e tudo ficou escuro, sem conseguir enxergar, o guerreiro entrou em uma espécie de transe onde sentia seu corpo flutuar.
Por sua valentia, força e coragem, Ai Apaec foi resgatado do reino de Fur por um urubu-rei e a grande atobá, as aves mensageiras de Hanan Pacha, o mundo dos deuses.
Em meio as nuvens e os deuses, o guerreiro foi ressuscitado pelas mãos da Lechuza, a sacerdotisa xamã das divindades. Ai Apaec se depara com um lugar completamente diferente, repleto de luz e vida e logo questiona como havia toda essa vida por lá se o Sol estava no fundo do oceano. A sacerdotisa então explica que ao vencer o gigante caracol, Ai Apaec já havia conseguido cumprir com seu objetivo, dentro da sagrada co**ha espiralada estava o poderoso Sol e toda a sua luz, que junto ao seu corpo, foi trazida para Hanan Pacha e lá libertada para voltar a brilhar e iluminar os mundos andinos.
Após a explicação, o guerreiro desejava voltar para sua montanha, para o seu povo, mas a poderosa xamã explica que sua missão ainda não estava finalizada, antes de regressar para Kay Pacha Ai Apaec precisava assegurar, junto à Pachamama, a deusa mãe da terra, que a vida fosse regenerada. Ele então, caminhou pelo mundo dos deuses em busca de Pachamama, para juntos formarem o enlace vital para a regeneração da terra e do mundo. Do encontro entre o guerreiro e deusa da terra, brotou o ulluchu, a árvore sagrada da vida Mochica. Dos frutos do ulluchu, brotaram as sementes divinais dos deuses, as quais foram abençoadas para germinarem em todos os vales do seu povo. Pachamama o consagrou como o patrono dos frutos germinados, aqueles que fornecem o alimento, o sustento e vida para todos os Moche.
A finalização da missão de Ai Apaec aconteceria em seu mundo, e agora, após o encontro com Pachamama o guerreiro estava pronto para o seu regresso à Kay Pacha, e partir carregando com ele a sagrada co**ha espiralada. Os Mochicas aguardavam ansiosamente seu guerreiro que agora se tornou herói do seu povo. O guerreiro das montanhas retornou e foi celebrado com honrarias, oferendas e festejos ao seu feito. Mas sua missão ainda não estava concluída. Com o desaparecimento da luz, os vales sofreram com a escassez de alimentos e das chuvas, Ai Apaec precisava pedir junto ao poderoso deus da montanha que as sagradas chuvas retornassem a cair sobre os vales. O guerreiro subiu novamente as montanhas junto aos seus dois leais companheiros e chegou ao templo do deus da montanha, lá ele ofereceu a sagrada co**ha espiralada e clamou que a divindade permitisse que as águas dos céus descessem sobre as paredes rochas e molhassem novamente o solo dos Mochica. O pedido de Ai Apaec foi atendido e as nuvens carregadas de chuva começaram a se formar no alto da montanha, trovoadas anunciaram que um novo de tempo de fartura e abundância estava chegando aos vales entre a mar e a cordilheira andina. Sementes germinaram, o barro novamente se formou, a vida se regenerou em fartura e abundância.
O poderoso e imponente Sol enfim retornou a brilhar do alto da montanha, o guerreiro que enfrentou os mais diversos perigosos concluiu a sua missão e assegurou para o seu povo o retorno do sustento, da vida e da natureza. O temido guerreiro agora é louvado nos vales como o guerreiro do Sol. Ai Apaec se transformou em figura endeusada pelos Moche como o deus principal da existência. Sem ele, os Mochica teriam sido exterminados pela fome, medo e escuridão. O resgate da luz foi concluído, a agora divindade segue reinando do alto das rochosas montanhas da cordilheira, de onde todos os dias avista o mar e relembra a trajetória de luta e coragem nas águas salgadas de Ni. No primeiro raio de Sol, o bravo Ai Apaec permanece reverenciando o poderoso Sol que surgirá até o fim dos dias iluminando e revigorando os Moche e todas as civilizações andinas.
REFERÊNCIAS
AI APAEC, el héroe Mochica. Museu Larco - Produção de Erika Nakō e Jaime Farias
Pueblo Libre Lima, Peru, 2020. 6 episódios. Disponível em: https://www.museolarco.org/miniserie/ai-apaec/
Acesso em: 10 jan. 2022.
BARS, Cássia Rodrigues. A Coleção Mochica do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP: testemunhos materiais da cosmovisão andina. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, [S. l.], n. 20, p. 345-359, 2010. DOI: 10.11606/issn.2448-1750.revmae.2010.89940. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revmae/article/view/89940
Acesso em: 24 jan. 2022.
BARS, Cássia Rodrigues. O Felino na Iconografia Mochica: Análise dos Padrões de Estilização na Cerâmica Ritual. Orientador: Drª Maria Beatriz Borba Florenzano. 2009. 280 folhas. Dissertação (Mestrado) – Arqueologia, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo, SP, 2009.
JUNIOR, A. A. S. COSMOVISÃO E RELIGIOSIDADE ANDINA: UMA DINÂMICA HISTÓRICA DE ENCONTROS, DESENCONTROS, REENCONTROS. INTERAÇÕES, v. 4, n. 5, p. 149-162, 11.
MUSEO DE ARTE PRECOLOMBINO CUSCO. Museo de Arte Precolombino Cusco,2022. Diversas páginas. Disponível em: . Acesso em: 12 de jan. 2022.