17/10/2024
Crônica: Entre o Amor e o Cinzeiro
Na mesa de um bar, onde a luz amarela mal conseguia dissipar a névoa da noite, ele observava a fumaça do cigarro se perder no ar. Aquele lugar, marcado por risadas e histórias, agora era um mero cenário para o eco de um amor mal resolvido. O vidro de whisky, quase vazio, refletia suas lembranças, como um espelho embaçado.
Ela havia sido o primeiro pensamento ao acordar e o último antes de dormir. Mas o tempo, esse vilão silencioso, desfez as promessas sussurradas nas madrugadas de agosto. O que restou foram as brigas que se arrastaram como a fumaça do seu cigarro, se espalhando, sufocando, até deixar um gosto amargo na boca.
Ele lembrava das conversas que se entrelaçavam entre goles e tragos, onde os sorrisos eram mais fáceis que as palavras. Mas havia um ponto em que tudo começou a desandar, onde os olhares que antes se buscavam se tornaram espelhos de desconfiança. O amor, que um dia fluiu livre como o vinho tinto, agora era apenas um rascunho borrado de promessas.
A cada tragada, ele tentava desenhar um cenário diferente, onde os dois ainda riam juntos, compartilhando segredos e sonhos. Mas a verdade é que a fumaça, por mais densa que fosse, não poderia apagar as marcas deixadas por discussões intermináveis. E assim, o cinzeiro se acumulava, símbolo de um afeto que se apagava lentamente, entre risos e lágrimas que já não se cruzavam.
Ele pediu mais um drink, talvez para aquecer a solidão que começava a se instalar. Cada gole o afastava mais da realidade e mais próximo de uma lembrança que insistia em não ir embora. O garçom, já acostumado, trouxe mais um copo e um olhar cúmplice, como se entendesse que aquele amor mal resolvido ainda respirava, mesmo que em sussurros.
Naquela noite, entre goles e ci****os, ele decidiu que, ao menos naquele bar, o amor ainda tinha seu lugar. Era um amor que não se apagava, que se arrastava como o som de uma música velha. E assim, com a mente embriagada e o coração pesado, ele sorriu para o vazio, como se ela ainda estivesse ali, entre os ecos de risadas e a fumaça que, lentamente, se dissipava.