20/07/2021
Já te contei do L.? Se ainda não conhece essa história, aqui está:
Uma vez, fiz um trabalho de contação de histórias e arteterapia num lar de crianças junto com 2 amigas. Os pequenos moradores estavam ali naquele “limbo” enquanto a Justiça decidia se eles voltavam para suas famílias de origem ou iam pra adoção.
L., 9 anos, um dos mais velhos, tinha o rótulo do “garoto-problema”. Ele já era apresentado assim “o q é difícil”, “o que bate nos outros”, “o q ninguém controla”, “o q não tem jeito mesmo”.
A gente não podia aceitar este rótulo, íamos trabalhar ali!! Iniciamos o trabalho e realmente L. apresentava um comportamento desafiador. Mas havia um momento em que, desde o 1° encontro, ele se transformava: A HORA DA HISTÓRIA. Nós nos dividíamos para as atividades, mas como eu já era contadora e estudava o assunto, definimos que a seleção a gente fazia junto, mas eu contava.
Este menino começou a se aproximar de mim. No 3° encontro, ele DEITOU no meu colo. Ali eu soube que tinha ganhado seu coração de vez! De fato, cada vez que acontecia algo – um problema entre ele e outra criança, surtos de agressividade, momentos de relembrar os combinados do nosso encontro – era EU que precisava fazer isso, pois foi COMIGO que ele criou o vínculo. Esse é o poder da história: numa contação olho-no-olho, tem ENTREGA, AFETO e ESCUTA.
Seguimos o trabalho e, mais à frente, ele se revelou também um grande contador de histórias. Servia-se das palavras e entregava-as generosamente aos amigos. No meio do processo, para nossa surpresa, ele começou a se utilizar ESPONTANEAMENTE também de palavras “mágicas” (sabem? Por favor, obrigado...). Ao final de 26 encontros, era uma criança transformada pela arteterapia, pelas histórias, mas principalmente, por pessoas que acreditaram que ele poderia ser diferente. E, certamente, algo nele mudou para sempre. Uma semente foi plantada.
Infelizmente não tenho mais notícia dele. Apenas um carinho infinito e seus olhos atentos para sempre em minha memória.