31/03/2017
Texto extraído do Painel Crítico da Mostra Cênica 2017 - ResistênciaS, sobre o espetáculo "Perdoa-me por me traíres".
http://ciacenica.com.br/sit/painel-critico/
A Existência pela Resistência – A Arte é Ser
Rodolfo Kfouri
"Qual a incompletude que nos completa?
Na terceira noite da Mostra Cênica – Resistências, o Cursinho Alternativo recebe a montagem de Perdoa-me Por Me Traíres do grupo Teatro Kaô, de São Mateus – ES, de início percebemos uma grande espiral demarcada no chão; seriam as intersecções entre a vida e a morte? Entre a realidade e a ficção? Entre os gritos e o silêncio? Entre o sagrado e o profano? Os questionamentos são constantes, o que é ambivalente. Apropriar-se de Nelson Rodrigues exige estudo, pesquisa e prática. É perceptível que há uma enorme vontade e paixão pelo o que se está sendo encenado; tanta paixão que não caberia dizer que os personagens e as atuações estão impotentes; que as conexões entre o ator e o personagem são frequentes; que as composições dos personagens estão frágeis, que a verbalização carece de projeção, que os corpos necessitam de tônus e que o nervosismo se faz presente; realmente não cabe mencionar tais fragilidades porque a paixão e a vontade é tão grande que nos suscita para o que é essencial, para o sublime, para a verdadeira arte. A arte manifestação, a arte manifesto, a arte tradução e razão de uma vida, de um existir. A existência pela arte e a resistência por existir.
A potencialidade do grupo se torna maior que a encenação em si, as necessidades e os caminhos para o aprimoramento em nada ofusca o brilho do teatro feito com suor, lágrimas e sangue; mas também de muito sorriso e verdade em cada olhar.
As sequências de ação e as músicas executadas ao vivo dimensionam a obra e a configura como Teatro Amador, o que não é nenhum demérito, pelo contrário, é a força mais genuína e latente que existe na arte.
Atualmente existe um desespero desenfreado pela profissionalização da arte, pelo rigor, pela técnica à exaustão, pela marcação perfeita; e ao mesmo tempo um repúdio pelo amador, e muitas vezes, a negação em ser amador.
É no Teatro Amador, no Teatro Estudantil ou mesmo no Teatro Universitário que se encontra a verve, a chama que mantém e manterá a arte viva, existindo e re-existindo ante a todo temporal, tempestade e dilúvio que houver. É nessa chama que se encontra o espontâneo, a busca verdadeira, o querer acima de qualquer técnica. Todo profissional já foi amador. Estar amador faz parte de toda evolução, e o estar amador, é em si evoluir; não existe obrigação em se tornar profissional. Se há obrigação, não há e não é arte. Arte é liberdade conjugada em todos os tempos, é a possibilidade de escolha e de se escolher.
O Teatro Amador, ama a dor, porque pela dor, se cresce, se fortalece, cria raízes para flores e frutos. A incompletude é parceira de evolução e construção. O Teatro Amador é acima de tudo amor.
O Teatro Amador é verdadeiro e espontâneo como uma criança, quando uma dor se torna choro e lágrima; quando medos são falados e encarados; quando uma alegria por mais insignificante, tem um imenso significado e gera o mais sincero sorriso e a mais deliciosa gargalhada; quando ter a natureza ao nosso dispor é o maior luxo; quando subir em uma árvore é ter superpoderes; quando aprender a andar de bicicleta é mais importante que os tombos que se leva; quando se enxerga a conquista e não as dificuldades; quando se sonha dormindo e também acordado; quando a vontade não é limitada por grilhões de preconceitos; quando sem saber, se sabe viver.
O grupo Teatro Kaô sabe viver e sabe de cada dificuldade que se faz presente e que na arte, com a arte e pela arte se supera. Seja a dificuldade de se estabelecer em uma universidade, de conseguir apoio, de conseguir espaço para ensaio, de conseguir figurino, cenário, de conseguir autonomia e mobilidade e inclusive a dificuldade de viajar mais de mil quilômetros, mais de 35h de estrada em um ônibus, e estar em São José do Rio Preto, na Mostra Cênica para mostrar sua existência, sua resistência, sua arte.
Encarar a montagem de Perdoa-me Por me Traíres é um risco, assumido principalmente pelo Marcelo Cruz, Diretor Geral, cuja atuação sim, não é amadora, e é superficial, cabendo diversos questionamentos sobre as formas de concretização da cena, bem como no aproveitamento de toda potência do grupo e das polissemias da dramaturgia; a canalização de toda força é necessária, sendo até mais importante que um diretor, a existência de um provocador; a teatralização é fundamental que seja entendida e assumida, seja qual for o caminho a se trilhar.
Cabe mencionar que ao término da peça um dos organizadores da “Mostra Cênica – Resistências” proferiu uma fala para toda a plateia, que mesmo que involuntariamente, explicou e justificou a montagem, mencionando a origem e a configuração do grupo, tais informações deveriam ter sido expostas de forma antecipada e não ao final, pois as acepções do público dependem muito do contexto em que estão inseridas, o olhar do espectador carece de direcionamento e contextualização, não que a arte tenha que ser explicada, mas sim informada; para que espectadores insensíveis, aqueles que não compreendem a dimensão e a profundidade do que se é apresentado, tenha o mínimo de respeito para com a arte; e principalmente para retomar algo que hoje está esquecido e subjugado, que são as mostras e festivais de teatro amador, não que a Mostra Cênica tenha que assumir um único caráter, e sim se configurar como uma grande mostra de arte seja ela qual for, amadora ou profissional, moderna, pós-moderna ou contemporânea; a multiplicidade e a pluralidade é urgente, nominações não são importantes e sim o conteúdo e as possibilidades de reverberação e resistência.
Perdoa-me Por me Traíres se edifica no risco, e assim deve permanecer, o risco é o que nos move, é assumir a caneta, o lápis e as tintas; colorir espaços, multiplicar o brilho, ampliar o olhar, conscientes que somos multicoloridos por trás de toda e qualquer imposição monocromática. Risco, cores e sensações, crenças e clamores, saudação e fé, margens e centros, essência e rastro, o que somos e o que nos permitimos ser.
Risco, ao mesmo tempo certeza como interrogação, ao mesmo tempo sonho e realização, ao mesmo tempo destino e ilusão. Risco, o antes e o depois, o poder de escolha e a força de enfrentar. Se enfrentar.
Risco, de um simples traço a tração que nos move à vida. Atração pela emoção, pela manifestação, pela arte, pelo sentido de seguir em frente, e mesmo sabendo de todos os riscos, ainda assim, se arriscar.
Qual a incompletude que nos completa?"