16/05/2026
💥✔️🛰️💣📌Estatelado no Soalho
Maputo, 15 de Maio de 2026.
08h30 da manhã.
Na troca de guarda da Machava-BO, alguém olhou para o chão e viu Humberto Sartoni estatelado.
Sem sinais vitais.
Assim, seco, frio, como quem assina um comunicado de imprensa.
Humberto entrou ali no dia 21 de Abril.
Acusado de tráfico, falsif**ação, fraude, branqueamento.
Crimes pesados, nomes grandes, papeladas que pesam mais que o corpo de um homem.
Desde o primeiro dia, recusou-se a comer.
Disseram que avisaram a família, o advogado, o médico.
Como se avisar apagasse a fome, a angústia, o silêncio que vai corroendo por dentro.
Não sei se Humberto era culpado.
Não sei se era inocente.
Sei que morreu numa cela de máxima segurança, sozinho no chão, antes mesmo de a justiça dizer a última palavra.
Sei que “recusava-se a ingerir alimentos voluntariamente” é uma frase bonita para esconder 24 dias sem comida, sem esperança, sem chão.
E agora o SERNAP endereça condolências.
Palavras que chegam tarde, que não levantam um corpo, que não devolvem um pai, um irmão, um amigo.
Prometem apurar as “reais circunstâncias”.
Mas quem apura a solidão de um homem que escolhe deixar o corpo definhar porque a alma já tinha desistido antes?
A Machava-BO guarda muita coisa.
Guarda homens, guarda histórias, guarda segredos.
Mas não guarda a vida.
Ali, a vida escapa pelo soalho frio, enquanto o mundo lá fora continua a girar, a discutir, a esquecer.
Humberto Sartoni virou um nome num comunicado.
Uma data. Uma hora. Uma linha que diz “estatelado no soalho, aparentemente sem sinais vitais”.
Como se fosse um objecto caído, não um homem que respirou, amou, errou, sofreu.
E dói.
Dói porque poderia ser qualquer um de nós.
Dói porque num país onde a justiça demora, a morte chega sempre no horário.
Dói porque depois de tudo, o que f**a é só um carimbo azul e a frase: “fará o acompanhamento para apurar as reais circunstâncias”.
Que a terra seja leve, Humberto.
Que pelo menos agora, debaixo dela, encontres o descanso que o soalho da Machava-BO te negou.
E que nós, que f**amos, não nos habituemos a ler mortes como se fossem boletins meteorológicos.
Porque quando a gente se acostuma, morre um pouco junto.