23/04/2018
ARACAJU, UM OLHAR PÓS MODERNO! *
Em um passeio visual pela exposição Raízes da artista Claudia Toscano, senti-me levado a usufruir e fluir imageticamente sobre as mais variadas descrições evocativas de outros artistas sobre esta tão pequena e enigmática cidade. Voltando da exposição ainda extasiado pela poética tão simples e acessível na pintura de Toscano. Me pego perplexo diante das infinidades de informações urbanas e de consumo que tomam a cidade de assalto! Neste interim, dou-me conta, de que esta cidade apesar do véu ilusório da cidade da qualidade de vida, também está sendo vitimada por um sistema racionalizado, propositado, e automatizado de produção em massa de bens materiais inúteis para pessoas fúteis, para provar apenas que são parte de cadeia de consumo irracional. Ações que degradam os bens naturais e desfralda os fins estéticos/culturais. É disto que este texto trata, sobre o palco da cidade, da sua produção de signos e imagens, de artistas (pessoas) que adentram neste teatro, para desempenharem um papel ao revés da sua condição cidadã. Pessoa que incorporam em suas vidas outras personas, pessoas que constroem uma realidade a parte. Gente que não estão confinadas em larga medida pelas posses e pela aparência.
Longe de ser uma cidade para todos Aracaju é uma cidade rigidamente estratificada por ocupação em nichos sociais, guetos culturais e classes distintas. Se sobrescrevendo em um individualismo velado, onde as marcas da distinção social se observam nas mais simples e supérfluas ações culturais e encontros coletivos. Esta individuação age contrário ao suposto domínio do planejamento e põe fim a imagem da cidade como uma "enciclopédia" ou "empório de estilos" em que todo o sentido de hierarquia e até de homogeneidade de valores sociais estava em vias de sublimação. A cidade parece mais um teatro, uma série de palcos em que os indivíduos, apesar de suas dores podem operar sua própria magia se envolvendo em enredo onde pode interpretar simultaneamente uma multiplicidade de papéis. Meu propósito aqui não é criticar essa representação particular – embora pense que não seria difícil mostrar ser ela uma percepção bem específica das coisas por parte de um jovem profissional recém iniciado nas Ciências Sociais. Pretendo concentrar-me em como essas séries de interpretações demonstram uma diversidade de equações ainda incompreendidas por aqueles que fazem a gestão da nossa cidade. E por si só, estas coisas já merecem nossa estrita atenção.
Vejo Aracaju como como alguma comunidade a ser descoberta, objeto de anseios dos mais utópico dos aventureiros, vislumbro a cidade como um quadro pintado de um labirinto, formado por conexões e vias de acesso e redes tão diversas, e de interação social orientadas por metas tão abrangentes, que a tornam uma a enciclopédia pictórica de Artur Bispo do Rosário. se toma um livro de rabiscos de um Miró, ou até mesmo uma coletânea pictórica de Salvador Dalí. Um emaranhado constitutivo único, cheio de itens coloridos sem nenhuma relação entre si, mas partícipes da mesma composição. Aparentemente sem nenhum esquema determinante, seja social, racional, estético ou econômico. Porém, reflexos de ações volitivas de indivíduos dotados de uma esperança descomunal! Indivíduos estes, que temem que a cidade seja devorada pelo totalitarismo dos planejadores ferozes, dos burocratas perversos, dos políticos egoístas e das elites corporativas.
Porém, Aracaju é uma cidade, demasiada complexa para ser disciplinada dessa forma, esta cidade é um lugar em que a imaginação coletiva simplesmente tem de se fundir sem reservas a noções de individualismo subjetivo. Porque Aracaju é uma cidade em que as pessoas também têm uma relativa liberdade para agir como queiram e para se tornarem o que queiram. Uma cidade onde o galã seu Careca da Aracaju da década de sessenta se torna um empreendedor, Aracaju de Benedito Letrado o artista multimídia na Galeria Álvaro Santos, de Bené Santana o artista plástico dedicado a ciências sociais. Jornalistas que se tornaram artistas, tais como Fernando Petrónio, Arquitetos que são ativistas políticos como a Ana Libório, Homens das Artes se tornando psicólogos, e aí dou como exemplo Laércio Santos e Edu Resende. Outros se tornaram agentes que estão em atividades políticas como Neu Fontes e a lista cresce...
Aqui! Nesta cidade! É imperioso que “A identidade pessoal tenha se tornado suave, fluida, interminavelmente aberta" ao exercício da vontade e da imaginação. Para o bem ou para o mal, esta cidade nos convida a refazê-la, a consolidá-la numa forma em que você possa viver nela sem determinar-se, sem confinar-se. Aracaju está aberta para que você também decida quem você é, apesar de ter uma forma fixa ao seu redor e uma estrutura social rígida, ela vez ou outra abre espaços para que o seu cidadão decida em qual contexto a sua própria identidade seja revelada.
Isso tudo dito acima nos prova o quanto a cidade é plástica por natureza. Moldamo-las à nossa imagem: ela, por sua vez, nos molda por meio da resistência que se oferece quando tentamos impor-lhes nossa própria forma pessoal. Em sua dinâmica está um devir que está além de nossas intenções. Nesse sentido, parece-me que viver na cidade de Aracaju é uma arte! E precisamos aqui do vocabulário da Arte para traduzi-la. Daí, decidi inferir neste meu pensamento, preceitos metafóricos advindos do campo artístico. Me foi necessário abusar do estilo, para descrever a relação peculiar entre homem e o material urbano que aqui se encontra. Aracaju é em si mesma: Material de consumo e agente consumidor! Seu nome passa a coexistir em contínua interação criativa em seus eventos turísticos. Aracaju tal como a imaginamos, a suave cidade da ilusão, estação final do trem sem rumo do progresso desenfreado, vislumbra uma contraditória coexistência pacifica, daquilo que é, e do que um dia poderá vir a ser.
Porém, não podemos esquecer que por trás de tudo isso, está a tenebrosa ameaça da violência, a nossa companhia inevitável e onipresente. O agente de dissolução da vida social. Aqui, o mito e o anseio da aspiração social, dá lugar ao pesadelo de uma violência nunca imaginada, E isto é tão real, e talvez mais real, quanto a linda cidade que podemos localizar nos mapas das edições hoteleiras do Nordeste. nas estatísticas, nas monografias de sociologia urbana, de demografia e de arquitetura eclética em qual ela se insere!
Aracaju o grande teatro do talento e da criação! A cidade pode ser um teatro, mas isso não significa que devemos dar a oportunidades de vilões e tolos se apropriarem, e aqui tentarem transformar a nossa vida social em tragicomédia, e até em melodrama violento. Embora sejamos "necessariamente dependentes das superfícies e aparências artísticas". Se faz necessário aprender a encarar os fatos sociais com a seriedade requeridas em uma realidade concreta! Em especial de perceber que, se com nossa Arte não conseguimos decifrar os códigos que nos levam a esta triste realidade. Me parece então, que perdemos o tempo da peça, e só nos resta decifrar os sinais, estilos, sistemas de comunicação que compõe esta sinfonia de péssimo gosto.
Na verdade, penso que talvez ainda não sejamos tão artisticamente concatenados com a realidade como imaginávamos. Se o fluir da força vital (A Nossa Arte) dentro de nossa cidade, ainda se mistura com venenoso gás carbônico (das Injustiças Sociais), infectando as vias respiratórias de nossas ruas. É um sinal que também entramos em colapso. Verdade! quando perdemos domínio da gramática iconográfica da vida urbana, e damos espaço para a violência criar paisagens de medo e decadência. Perdemos as rédeas da criação e deixamos a Gran Obra finale, nas mãos dos agentes sociais do mal. Políticos inescrupulosos, homens sem criatividade que geram uma realidade infernal e dantesca para financiarem suas próprias obras financeiras. Aqui então se encerra a verdade por trás desse olhar pós-moderno sobre nossa cidade. As mesmas qualidades plásticas que fazem da grande cidade de Aracaju o liberador da identidade humana também a tornam especialmente vulnerável à psicose e ao pesadelo totalitário dos agentes políticos inescrupulosos!
*André Giordani: Formado em Artes pela Ufba, professor de Filosofia na rede privada de ensino, Tecnólogo em designer de Interiores, e Mestrando em Sociologia pela Universidade de Santiago.