18/06/2026
A cadela sonambula -
Não bastava ter nome de mulher que não presta, ainda tem sobrenome de pessoa doente. Ela, sim, aquela cadela, de dia parece normal, corre atrás de tudo quanto é rabo, inclusive o seu, ainda bem que do meu anda longe. O momento em que sente mais prazer, é a noite, quando a quietude se instala depois de um dia cheio de trabalho, e a mente não desejo outro barulho além da paz e do nada, então do nada, a cadela, sai do seu canto e inicia o um canto horroroso, desafinado e persistente, como se alguém gostasse, se a dona se importava ainda é um segredo, que ninguém sabe, mas todos discordam. Enquanto criança diziam que os cães, não as cadelas, essas só servem para abrir as pernas e guardar algum dinheiro de homens casados ou por prazer desesperados, diziam que os cães tinham olhos que não eram olhos, de dia olhavam e de noite sentiam coisas que não se viam com os olhos, os cães de agora só ficam na sala, e essas coisas ali dificilmente chegam, essas coisas gostam de andar a noite pelas ruas e nos quintais, e aí faziam os cães gritar, as cadelas normalmente ficam na cama com os donos, ou com quem pagasse melhor na tal noite, de dia sacudiam o rabo todo a mostra, sem pudor, sem vergonha e de noite iam para cama descansar ou trabalhar se houvesse cliente e raramente descansam, diga-se de passagem. Aquela cadela era diferente, tinha nome de mulher que não presta e sobrenome de pessoa doente, de dia ficava no seu canto, e só de noite saía a andar e a gritar e a chorar e a ladrar, ladrava em desespero, afugentava a quietude e até as coisas que não se viam com os olhos, estas coisas, por aqui nem passavam, por isso nunca tive pesadelos, mas também nunca tive sonhos, na verdade eu nunca tive sono.