26/04/2026
E DEPOIS DA TUA EXONERAÇÃO ONDE ESTARÁS???
Crónica de Ramiro Cawina
O poder…
ah, o poder tem esse jeito fino de nos vestir de ilusão,
faz-nos crer que somos mais altos que o chão,
mais raros que o comum, mais donos da razão.
Por momentos, parece verdade, mas é verdade que passa, não é eternidade.
Vem com cargos, carros, portas que se abrem sem bater,
gente que sorri sem sentir, só para te ver… ou melhor, para te manter.
E nesse palco montado, quase sem perceber,
troca-se o ser pelo parecer,
e o simples pelo querer ter.
Mas o poder - se bem entendido, é missão, é doação,
é estrada de espinho, não é só celebração.
É servir no silêncio, é agir com o coração,
é lembrar que o “eu” só faz sentido dentro do “nós”, na mesma direcção.
Só que o mundo de hoje corre noutra cadência:
há pressa, há sede, há ânsia de aparência.
A juventude sonha - e ainda bem, mas sonha com urgência,
e às vezes troca propósito por conveniência.
Querem chegar lá, custe o que custar,
mesmo que o caminho se perca antes de lá chegar.
Porque hoje, mais do que ser, importa mostrar,
mais do que construir, importa ocupar.
E assim nascem figuras de vaidade leve,
ego que sobe rápido… mas que mal se susteve.
Palavras doces que escondem interesse,
aplausos falsos que alimentam quem esquece
que o chão continua lá - firme, paciente,
à espera do dia em que tudo muda de repente.
Há quem jure que o poder é filiação,
que basta estar perto, ter ligação.
Mas a vida sábia, ensina noutra lição:
nem todo acesso é permanência, nem toda subida é consagração.
Porque há uma verdade que não se negocia:
tudo passa. Tudo esvazia.
Hoje és voz, amanhã és memória fria.
E quando o telefone parar de tocar?
Quando o gabinete deixar de te chamar?
Quando já não fores “excelência”, mas apenas alguém a caminhar?
É aí que a vida te pergunta, sem tom, sem aviso:
quem és tu, longe do cargo e do improviso?
E é aí que tudo se revela...
By. Ramiro Cawina