11/03/2026
Assunto:
Há momentos em que o mundo se torna tão barulhento de egoísmo que a alma se cansa de sentir.
Foi nesse silêncio que escrevi este poema.
*PERDI A SENSIBILIDADE*
✍🏾 SakaMbunge
Perdi a sensibilidade.
Já não sei se sou o mesmo de outrora.
Interrogo-me, a cada instante,
se em mim ainda subsiste
algum vestígio de afectividade,
pois ela me parece cada vez mais distante.
Ignoro se ainda me é concedida
a possibilidade de reencontrar tal virtude;
porque, mesmo refletindo,
não encontro satisfação alguma,
senão a de mergulhar incessantemente
numa vontade que deseja sempre mais,
sem jamais alcançar
a plenitude da vontade querida.
Assim, a minha alma enfraquece
no seio desta conjuntura humana,
habitada por mentes contorcidas,
inclinadas para o ego sum...
Erigindo uma autoridade individualista
que reduz o outro ao nada,
na vanguarda arrogante do “eu posso”.
Amparam-se em carnes engravatadas
e em discursos enfatuados,
vituperando a unidade essencial
da própria condição humana,
tudo isso fruto
da desertificação do “eu penso”.
Chegam ao ponto de banalizar
o arkhé,
o princípio vital de toda a existência,
e, paradoxalmente,
afirmam defender a vida.
Ah!
Que conceito de vida é este que professamos?
Se o mesmo se fizesse contigo,
aceitarias ainda chamá-lo vida?
Alegamos não ser vida;
se assim o é, deixai-a em paz,
pois aquilo que não é
jamais poderá tornar-se ser.
Do não-ser
não pode emergir o ser —
salvo por milagre,
e o homem dos milagres
já não caminha entre nós.
Por tanto ouvir
e por tanto contemplar,
confesso:
perdi a sensibilidade.
E já não compreendo
em que consiste a vossa dignidade
no interior de tanta futilidade
e de tamanha absurdidade.
Perdi a sensibilidade.
"SakaMbunge":
Poeta que escuta o coração da sociedade. .