28/12/2025
PARECIA SER UM sábado qualquer. O sol de Luanda, esse carrasco persistente, exercia o seu poder com a habitual falta de piedade, como se testasse os limites da nossa resignação colectiva.
Ao cair do dia, o rumo estava definido. Não! Não estamos a falar da Canjala. Enfim... Finalmente a noite chegou e, por volta das 19 horas chegamos ao Elinga...
“Na Dimensão do Homem Livre” não se anunciava como um espectáculo de rap comum. Desde os primeiros instantes, tornava-se evidente que estávamos perante outra coisa. Idealizado pelo rapper Sanguinário, o evento assumia-se como um gesto artístico consciente, quase ritualístico, inserido no coração do underground angolano. Os convidados, Yoka, Gerónimo Dark, Ronin, Denexl, Edu ZP, Rezo Luto, DJ Barão, e a cantora Heroide (e aos não mencionados), não surgiam como meros adornos no cartaz, mas como peças de uma engrenagem cuidadosamente pensada.
A organização esteve a cargo da OLUMUKA, produtora liderada por Mono Stereo, cuja visão tem vindo a abrir fendas importantes num panorama frequentemente previsível. Aqui, a aposta foi clara. Menos concessões, mais conceito. Parte da curadoria, assinada por Irene A’Mosi, expandia-se para além da escolha artística e materializava-se no próprio espaço. Parte do cenário integrava uma exposição ou instalação da sua autoria, dissolvendo as fronteiras entre palco e galeria. Havia, efectivamente, um espectáculo da Irene dentro do espectáculo do Sanguinário, uma camada oculta que exigia atenção e leitura.
A componente visual ganhava densidade com a intervenção de Lord Bush (e AndGraf) e Skit Van Darken, responsáveis por acentuar os aspectos mais street*, simbólicos e subterrâneos da decoração. Elementos de simbologia obscura e oculta surgiam distribuídos pelo palco como marcas silenciosas de um código não revelado. Nada parecia arbitrário. Tudo dialogava com o discurso que se construía, som após som, palavra após palavra.
Cada MC apresentou-se à exacta medida da sua dimensão artística. Sem excessos cénicos, sem artifícios fáceis. O equilíbrio foi a tónica dominante. Nesse contexto, Heroide destacou-se de forma quase inevitável. Um vozeirão impressionante, domínio técnico absoluto e uma capacidade rara de controlar a voz em palco, soando ao vivo com a nitidez e a presença de um registo de estúdio. Um daqueles momentos em que o espaço parece suspender-se por breves instantes.
Ainda assim, o centro de gravidade da noite foi, sem contestação, Sanguinário. A sua performance revelou-se intensa, detalhada, meticulosamente construída. Houve momentos de total imersão, quase hipnóticos, e outros em que o artista parecia sair do personagem, quebrando ligeiramente o feitiço. Os mais atentos sentiram esse desvio, esse breve afastamento do êxtase. Mas longe de ser uma falha, foi um sinal de processo. O início de uma construção maior, mais ousada, mais conceptual.
Aliás, talvez já fosse tempo. O underground angolano sempre dialogou com as massas, mas raramente se permitiu criar para um público verdadeiramente interessado no risco, na experimentação, na linguagem alternativa. Nem tudo o que nasce no underground é, por definição, alternativo. “Na Dimensão do Homem Livre” provou que é possível abrir esse espaço, sem diluir a mensagem. Nesse percurso, à OLUMUKA, e em particular ao Mono Stereo, mega props.
Vão se perguntar, e as fotografias? Bem! Decidimos trabalhar com a memória humana ontem. Há acontecimentos que pertencem apenas à memória e ao imaginário de quem os viveu. Fixá-los em imagem seria reduzir a sua força, torná-los estáticos quando, na verdade, foram feitos de movimento e tensão.
F**a o registo.
O Sanguinário está de parabéns.
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