18/07/2026
“MATRIX
— TODO ESCRITOR ESCOLHE UMA PÍLULA.”
Por: Pedro Bars aka Yadhistóteles
Pai da Yanceli e outros 4
De certeza que já viste o filme Matrix e muito provavelmente ainda te lembras daquela famosa cena:
Morpheus estende as duas mãos. Numa delas repousa uma pequena cápsula azul. Na outra, uma vermelha.
A escolha parece simples.
A azul permite que Neo regresse à vida que sempre conheceu.
A vermelha promete mostrar-lhe a realidade, por mais desconfortável que ela seja.
Durante anos, milhões de pessoas acreditaram que aquela era uma história de científica sobre a descoberta de que a realidade humana é uma simulação virtual. Eu também. Hoje tomei a ousadia de transformá-lo numa história sobre escritores.
Não te assustes. Também achei estranho quando esta ideia me ocorreu. Afinal, o que pode um filme de ficção científica ensinar a alguém que passa os dias a escrever crônicas, poemas ou romances? Talvez mais do que qualquer manual de escrita.
As grandes histórias não servem apenas para nos entreter. Servem para nos ensinar a pensar.
O papel do cronista é descobrir lições novas em histórias que toda a gente julga conhecer.
É exactamente isso que tentarei fazer. Porque, se olharmos para além das máquinas, dos códigos verdes e das cenas de ação, talvez descubramos que Morpheus nunca esteve apenas a oferecer uma escolha a Neo. Estava a oferecer uma escolha a todos nós enquanto escritores.
Todo escritor escolhe uma pílula. Mesmo aqueles que nunca viram o filme do qual estou a falar, que é Matrix.
Existe uma pílula azul. E existe uma vermelha.
A azul é confortável. Ela convence-nos de que basta escrever bem. Que um excelente livro encontrará leitores sozinho. Que um texto profundo será inevitavelmente partilhado. Que o talento acabará sempre recompensado. Que marketing é coisa de vendedores. Que títulos são apenas detalhes. Que a qualidade fala por si.
Parece bonito.
Mas continua a ser uma Matrix.
A pílula vermelha é cruel. Ela mostra que excelentes livros morrem todos os dias sem leitores. Que excelentes cronistas vivem na frustração de verem seus artigos de opinião completamente ignorados. Que milhares de poemas emocionantes nunca emocionaram pessoa alguma porque ninguém chegou à segunda linha. Não porque lhes faltasse qualidade, mas porque nunca conseguiram conquistar o primeiro segundo de atenção.
Foi precisamente por isso que, ontem, publiquei uma crônica intitulada “MPLA É O MELHOR PARTIDO PARA GOVERNAR ANGOLA… e eu posso provar.” Muitos seguidores meus pensaram que estivessem diante de um texto sobre política e, como era de se esperar, recebi muitas ofensas. Nunca estiveram. Na verdade estavam diante de uma aula de atenção.
Enquanto alguns esperavam uma defesa do MPLA e outros preparavam argumentos para me contrariar, eu fazia uma experiência muito mais simples. Queria demonstrar que um título bem construído consegue levar um leitor até ao fim de uma ideia. Não porque o obrigue, mas porque desperta uma pergunta suficientemente forte para que ele próprio queira descobrir a resposta.
Talvez seja essa a primeira grande lição que Matrix oferece à nós escritores. Antes de Neo conhecer a verdade, Morpheus conquistou a sua curiosidade.
Conheço autores capazes de passar três horas à procura do adjetivo perfeito. Mas escolhem o título em menos de trinta segundos. Escrevem durante seis meses. Promovem a obra durante seis dias. Depois concluem que as pessoas já não gostam de ler.
Será mesmo?
Talvez as pessoas gostem de ler mais do que nunca. Nunca se consumiram tantas palavras. Nunca se abriram tantos textos. Nunca se compraram tantos livros em diferentes formatos. O problema é que ninguém lê aquilo que nunca despertou curiosidade suficiente para ser aberto.
Vivemos na economia da atenção. E a atenção nunca foi distribuída de forma democrática. Ela é conquistada.
O escritor acredita que vende livros. O editor acredita que vende livros. A livraria acredita que vende livros. Talvez todos estejam enganados.
Antes do livro existe uma decisão muito menor.
Um clique.
Um olhar.
Uma capa.
Uma primeira frase.
Ninguém compra um livro antes de comprar alguns segundos de atenção.
É por isso que continuo a discordar quando alguém diz que marketing estraga a literatura. O mau marketing pode estragá-la. A manipulação pode estragá-la. Mas compreender como a curiosidade humana funciona não destrói uma boa história. Ajuda-a a encontrar quem precisa dela.
Um bom título não engana. Convida. Uma boa capa não mente. Abre uma porta. Uma boa primeira frase não prende ninguém à força. Apenas merece que o leitor lhe conceda mais alguns minutos.
Talvez Morpheus tenha escondido uma terceira pílula. Não aparece no filme. Mas aparece todos os dias na vida de muitos escritores, que é o que vou chamar de ‘pílula da vaidade’.
Aquela que nos faz acreditar que o mundo nos deve leitores apenas porque escrevemos algo bonito. Aquela que nos convence de que a culpa é sempre do algoritmo, do mercado editorial, das redes sociais, da falta de cultura ou dos leitores. Nunca nossa.
É a pílula mais perigosa de todas. Porque impede qualquer aprendizagem.
A verdade é mais desconfortável. Escrever bem continua a ser indispensável. Mas escrever bem não garante que alguém nos leia. Da mesma forma que fabricar um excelente produto não garante que alguém o compre.
Antes da venda existe a atenção. Antes da atenção existe a curiosidade. E antes da curiosidade existe uma pergunta que ainda não foi respondida.
Eu sempre digo que comunicar nunca foi despejar informação. Sempre foi conduzir atenção.
Neo escolheu apenas uma vez. Nós escolhemos todos os dias. Sempre que publicamos um texto sem pensar no título. Sempre que desprezamos a psicologia do leitor. Sempre que chamamos marketing àquilo que, na verdade, é apenas compreender pessoas. Sempre que acreditamos que escrever bem basta.
Todo escritor escolhe uma pílula.
Uns escolhem escrever.
Outros escolhem ser lidos.
Os maiores aprendem que nunca foi preciso escolher até porque a literatura começa exactamente quando escrevemos.
Mas só cumpre o seu destino quando alguém decide continuar a ler.
Talvez tenhas reparado que passei toda esta crônica a falar de Matrix. Na verdade, quase não falei do filme. Falei de literatura. E talvez nem de literatura eu tenha falado.
Acredito que falei mais sobre a decisão que todo criador de conteúdo literário precisa de tomar.
Continuar a acreditar que um bom trabalho se promove sozinho…
…ou aceitar que conquistar a atenção de alguém também faz parte da arte de comunicar.
A maior lição de Matrix nunca esteve nas máquinas e sim na escolha.
E, para nós escritores, especialmente os cronistas, essa escolha continua a repetir-se todos os dias.
Sempre que decidimos se queremos apenas escrever um bom artigo…
…ou fazer com que alguém sinta que não pode abandoná-lo antes da última linha por mais extenso que seja.